Terra

Eloy Moreno · Capítulo 62 de 205

Páginas do PDF

Terra

Capítulo 62

— Oliver Wokz, diz-te alguma coisa? — perguntei ao meu irmão.

— Wokz? Não é um apelido comum. Acho que já o ouvi, mas não me lembro onde.

— Talvez devamos pesquisar na Internet, a ver se aparece alguma coisa — disse eu, enquanto escrevia o nome no telemóvel.

Apesar de ter feito várias buscas em diferentes diretórios pessoais, redes sociais e grupos, não consegui encontrar qualquer correspondência de interesse.

— Que estranho! Há muitos resultados diferentes com partes do nome, em separado, mas, com o nome completo, nada — afirmei, enquanto continuava a tentar com outras combinações.

O meu irmão tirou um pequeno computador portátil da mochila e sentou-se no sofá.

— Espera. Vou tentar nos outros motores de busca — sugeriu.

— Tens acesso? — Quando fiz a pergunta, apercebi-me de quão pouco sentido fazia. Claro que tinha acesso. Bastava ter dinheiro, muito dinheiro.

O Google afirmara-se como o mais importante motor de busca generalista. No entanto, se se quisesse encontrar informação especial, não era o mais eficaz. Havia outros mais precisos, mais sigilosos e, naturalmente, muito mais caros: os bancários. Os principais eram os das empresas de pagamentos eletrónicos, totalmente ilegais, mas muito úteis.

Numa época em que o pagamento em dinheiro era praticamente inexistente, em que a esmagadora maioria das transações se realizava com cartão ou meios de pagamento eletrónico, as grandes corporações bancárias tinham-se aliado para criar motores de busca que permitiam saber em que era utilizado o dinheiro de cada pessoa. Era possível averiguar onde gastava cada dólar, a que horas o fazia, a quanto montavam as suas dívidas, quais eram os seus gostos musicais, a sua comida preferida ou o último filme que vira e até a prostituta com quem estivera.

Eram, naturalmente, motores de busca proibidos pela lei, por isso, a licença para a sua utilização não estava ao alcance de qualquer um, mas do meu irmão, sim.

De vez em quando, para algum caso específico, a polícia recorria a eles. Os jornalistas também podiam comprar, no mercado negro, um acesso limitado para dois ou três dias. Era arriscado, porque, segundo a legislação, uma prova conseguida através deste tipo de motores de busca era considerada nula em julgamento e podia acarretar sanções económicas e mesmo penais.

Mas o meu irmão tinha certamente licença de utilização sem restrições: a magia do dinheiro.

Pôs uns auriculares e começou a escrever no teclado do computador.

Olhei para ele por alguns instantes, observei o seu rosto, os olhos cravados no ecrã. Decidi deixá-lo sozinho e sair da cabana.

Ali, no meio do nada, olhei em volta e abracei o meu próprio corpo, tolhida pelo frio.

Encostei-me à porta e voltei a pensar na nossa nova relação, outra vez juntos, como se não tivesse passado todo aquele tempo. Como se todos os «um dia destes ligo-lhe», «porque não me liga ele» ou «temos de fazer qualquer coisa» já não fizessem qualquer sentido.

Estava frio.

Passados alguns minutos, voltei a entrar na cabana.

— Encontraste alguma coisa? — perguntei, enquanto me sentava no sofá, ao seu lado, mas a alguns anos de distância.

— Não, e é estranho, muito estranho. Devia estar aqui, devia aparecer. Experimentei, inclusive, os motores de busca das plataformas de criptomoedas, mas nada…

— E o que significa isso?

— Bem, pode significar três coisas: a primeira, que a pessoa não existe, algo que vou descartar, porque não faria sentido, portanto, vamos centrar-nos nas outras duas opções — respondeu, enquanto se aproximava inconscientemente de mim. — Uma delas é esta pessoa viver num país onde o pagamento eletrónico não se encontre generalizado, mas isso limitar-nos-ia a algumas regiões isoladas da Ásia ou de África. No resto do mundo, seria complicado viver sem pagar com moeda eletrónica. E a última opção seria…

— Estar morto? — quis saber.

— Não, não, os mortos também aqui estão. Quem sabe se um dia não teremos de ressuscitar os seus movimentos? — disse, sem que o rosto se alterasse. — A última hipótese é tratar-se de uma criança.

OceanofPDF.com