Terra

Eloy Moreno · Capítulo 122 de 205

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Terra

Capítulo 122

Andrea era, sem dúvida, a que melhor se adaptara à vida na colónia. Talvez porque estava habituada a viver assim: isolada. Podia dizer-se que era feliz. Ninguém fazia troça dela, ninguém a atacava, ninguém a menosprezava. Não tinha de estar sempre atenta ao meio envolvente, as câmaras estavam ali para isso. Fazia tudo o que lhe pediam da Terra, através da Centinel, e colaborava nas tarefas comuns.

Ela e o Jardineiro eram as pessoas mais reservadas da colónia. Este, por seu lado, também se sentia feliz a ver as plantas crescer num ambiente tão estranho como aquele. Cada folha nova, cada flor era motivo de felicidade dentro da sua rotina.

De vez em quando, lembrava-se do passado, da mulher que já não existia, das vidas que haviam desaparecido a escassos metros, ao seu lado. Tentava esquecer tudo aquilo, pensando agora nela, em Miss, por quem estava apaixonado, mas de quem não se aproximava por vergonha, por medo de, mais uma vez, fazer mal a alguém.

Era a médica que, juntamente com o militar, era considerada, de alguma forma, responsável pelo resto dos habitantes da colónia. Talvez pela idade, talvez pela experiência, o facto era que as suas opiniões eram as que mais se levavam em conta.

Entre ela e o militar houve pequenos momentos de atração, que, de quando em vez, terminaram em sexo. Ainda assim, tentavam que o interesse que tinham um pelo outro passasse despercebido. Amor, talvez não houvesse, mas necessidades, sim. A gravidade e a pressão também não afetaram John.

*

 

Mas, se havia alguém que cavava cada vez mais fundo a sua própria perdição, era Veruca. Era a flor que morria no deserto, a gota de água que se evaporava ao amanhecer, a vida que murchava no paraíso….

Pouco a pouco, deixou de falar e cada dia publicava menos nas redes sociais… e isso era perigoso, pois, para ela, desaparecer dali era como morrer em vida. Passava os dias no quarto, entre lágrimas, devaneios e tristeza.

De vez em quando, Miss ou a Doutora apareciam para falar com ela, mas as respostas escasseavam mais e mais.

Que fazer quando nos levantamos todas as manhãs no sítio errado? Quando a única coisa que se deseja ao acordar é voltar a adormecer, para ver se tudo não passou de um sonho?

— Já viram o estado da Veruca? Temos de fazer alguma coisa. Há demasiados dias que não sai do quarto. Não come, não fala com ninguém, acho que nem sequer dorme… Ainda vai acabar por adoecer — referiu a Doutora na Sala Comum.

— O que ela tem é de se pôr a trabalhar. Não pode continuar assim — respondeu o Mãozinhas, bruscamente. — Aqui, todos colaboramos. E ela, o que faz ela? Eu também me queria ir embora desta porcaria de sítio, desta treta…

— Sim, mas é apenas uma criança. Continuo sem perceber como o pai permitiu que viesse para Marte. Não podemos esquecer-nos de que é uma rapariga que passou de ter tudo a não ter nada. — A Doutora tentava justificar.

— Talvez a tenha mandado para aqui para lhe dar uma bela lição. E não é assim tão nova. É maior de idade. Foi ela que tomou a decisão, como todos nós, ou acham que eu não gostava de voltar para a minha casa, para os meus amigos, de voltar para a minha cama, para o meu…? — Nesse momento, o Mãozinhas explodiu pela primeira vez e começou a chorar diante das câmaras.

Levantou-se, dirigindo-se a Frank.

E abraçou-o.

— Lamento, lamento imenso. Desculpa ter-me comportado daquela maneira. Desculpa, desculpa… Quem me dera estar na Terra, para te poder arranjar o dente, para poder consertar tudo, para… — Afastou-se dele bruscamente e foi a correr para o seu quarto.

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