Terra

Eloy Moreno · Capítulo 76 de 205

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Terra

Capítulo 76

— O que é que a câmara gravou? — perguntei.

— De início, nada fora do normal. O Frank falava com o meu filho e pedia-lhe que se endireitasse e despisse a T-shirt.

»Depois, a câmara captou o Frank a olhar pela janela, na minha direção. Percebeu que eu estava longe, que podia avançar. Mostrou-se um pouco mais carinhoso com o menino; pediu-lhe que tirasse as calças e os boxers. E, claro, uma criança com aquela idade obedece…

A mulher parou de falar, tirando um pequeno lenço.

— E, com o meu filho despido, começou a passar-lhe com aquele aparelho de ouvir os batimentos cardíacos, por todo o corpo: pelo peito, pelas costas, pela barriga… até chegar ao…

Silêncio.

— E depois… depois fez o mesmo com os dedos.

Silêncio.

— Passados alguns minutos, a câmara captou uma mudança no seu rosto, quando eu já estava a voltar para casa. Vestiu-lhe rapidamente os boxers e as calças, deixando-o deitado, em tronco nu.

»Quando entrei no quarto, estava tudo normal. Disse-me que lhe dera um medicamento, que não era grave, e foi-se embora.

— Mas não o denunciou? — perguntei, incrédula.

— Não… Depois de ver as imagens, não soube muito bem como reagir. Por um lado, queria vingança; por outro, tinha vergonha de que alguém soubesse, de que o meu filho fosse apontado. E se o que ele tinha feito fosse normal? E se só estivesse a observar todas as partes do corpo?

— Com os dedos? — quase gritei.

— Sim, pois, mas, às vezes, a mente tenta convencer-nos, justificar qualquer ação para que a verdade não pareça tão dura. Não sei, andei durante algum tempo a dar voltas ao assunto. Era o único pediatra da povoação, e aqui conhecemo-nos todos. E os dias foram passando.

— Até o nome dele aparecer na televisão, certo? — intervim.

— Bem, sim… Então, assustei-me. Ele participava naquele programa, eu tinha o vídeo… Foi tudo muito confuso. Por um lado, estava magoada, muito magoada pelo que tinha feito ao meu filho. Não sabia o que conseguiria se fosse à polícia.

— E, em vez de o denunciar, preferiu dizê-lo aos responsáveis pelo programa… — continuei.

— Bem, só queria avisar.

— Claro, e, quando viu que o Frank estava a tornar-se um dos preferidos do público, que as empresas tinham assinado contratos milionários, tudo se tornou mais claro — concluí, tentando conter a raiva.

— Bem, foi nessa altura, não sei…

— Chegaram a um acordo, certo? Dinheiro em troca de silêncio — insisti.

A mulher não falou, e, dessa forma, disse tudo.

— E onde ficou a história da vergonha, da raiva, da dor do seu filho? Onde?

A mulher demorou alguns minutos a responder.

— Quando o seu pai veio ter comigo, garantiu-me que o Frank estava melhor lá em cima, que já não poderia fazer mal a mais crianças, que não ganhava nada em denunciá-lo, que ia ser muito complicado provar alguma coisa.

— O meu pai convenceu-a de que era melhor receber uma quantia mensal — acrescentei, levantando-me do sofá.

A mulher ficou em silêncio.

Foi o meu irmão que, pegando-me na mão, me indicou que voltasse a sentar-me.

— Mas… por favor, por favor… Lamento, sei que não agi bem. Tentei fazer o melhor para o meu filho, o melhor para ele… Por favor, não acabem com as transferências. É disso que vivemos… Por favor…

— Enfim. Não viemos cá para julgar a sua moral — interrompeu-a o meu irmão. — Viemos, porque precisamos de uma coisa que ainda não encontrámos. Se nos ajudar, talvez possamos esquecer tudo isto, e a senhora continuar a receber o dinheiro.

— Sim, sim, claro, o que quiserem, o que quiserem — respondeu a mulher.

— Já vai perceber. Estamos a fazer um jogo, o das chaves. Lembra-se dele?

A mulher assentiu com a cabeça.

— Bem, acontece que, por algum motivo, a última pista nos trouxe aqui. Pensávamos que fosse algo relacionado com o seu filho, por isso lhe fizemos todas estas perguntas a seu respeito, mas parece que não estamos a chegar a lado nenhum…

A mulher observava-nos em silêncio.

— Na verdade, aquilo que precisamos de saber é o que esta chave poderá abrir — disse o meu irmão, enquanto a pousava em cima da mesa.

No momento exato em que a mulher viu a chave, o seu rosto alterou-se.

— Há mais uma coisa que não vos disse…

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