Terra

Eloy Moreno · Capítulo 16 de 205

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Terra

Capítulo 15

— E chegou, finalmente, o concurso que nos transformou na empresa mais rica do planeta. A minha grande obra-prima. Vendemos os direitos a mais de cento e oitenta países, por uma quantia que poderia passar várias vidas a contar.

»Na verdade, a iniciativa não foi minha. A ideia surgiu sozinha. A NASA precisava de dinheiro, de dinheiro que não havia governo capaz de pagar, e eu precisava de audiências, queria continuar a crescer como um vírus que destrói tudo… e, infelizmente, às vezes, até o corpo daquele em que vive. A tecnologia existia, faltava apenas financiamento.

»Como a maioria de vós já sabe, chegámos a um acordo: eles contribuiriam com os cientistas, e nós, com os concorrentes. Tudo separado: duas viagens, duas colónias. Suficientemente afastadas para não interferirem uma com a outra, mas próximas o bastante para, em caso de urgência, poderem colaborar.

»Foram momentos gloriosos. Alcancei os píncaros do sucesso. As audiências já não se mediam em milhares de espectadores, mas em milhões. Todas as noites consultávamos os índices, e, dia após dia, estes ultrapassavam todas as expectativas. Tínhamos um limite, claro, que era a população mundial; só isso nos impediria de continuar a crescer.

»Escapou-me tudo das mãos, reconheço. Lembro-me daquela capa em que aparecia com a coroa de louros de César. «William Miller, Imperator», dizia.

»As marcas investiram milhões para que os seus logótipos estivessem bem visíveis na roupa dos concorrentes. Os alimentos que consumiam, as joias que exibiam, os ténis… tudo era patrocinado. E funcionou, claro que funcionou. Durante quase três anos, foi o programa mais visto do mundo. Do mundo! — Começou a tossir.

Respirou devagar, e continuou.

— Dia após dia, mês após mês… Sabem o que significa ser o programa mais visto todos os dias, a nível mundial?

Silêncio.

Inspirou profundamente e, ao expirar, o rosto mudou de expressão.

Com um ar de tristeza, ficou a olhar para o público.

— Até que… infelizmente, aconteceu o que aconteceu.

Nesse momento, apareceu um grande laço preto no ecrã, e as luzes foram enfraquecendo até deixarem o público na penumbra.

 

Apesar de o desastre ter ocorrido há vários anos, a Humanidade ainda não recuperara. Muitos psicólogos reconheceram que teria de passar, pelo menos, uma geração para que o sucedido não continuasse a suscitar dor e tristeza nas pessoas que o viveram em direto.

 

— Sei que, devido ao meu percurso, para muitos de vós, não passo de um monstro que só pensa em dinheiro — nesse momento, olhou para mim —, mas, sabem, eu também tenho sentimentos. Confesso-vos que me arrependo de muitas das coisas que fiz. Mudaria vários momentos da minha vida, claro que sim, mas agora é demasiado tarde, não vale a pena lamentar-me.

»E, entre todos esses momentos, há um que, para mim, foi demolidor. Porque eles, sobretudo ela, faziam parte de mim, de vós, da Humanidade.

Silêncio.

Muitos dos elementos da assistência escondiam o rosto, para tentar disfarçar as lágrimas que surgiam sempre que alguém falava do sucedido.

— Nesse dia, o Universo lembrou-nos de que somos apenas humanos, pequenas formigas num todo…

Voltou a tossir.

Tentou pegar no copo, mas acabou por desistir da ideia.

O corpo tremia-lhe cada vez mais, com maior intensidade.

Devagar, aproximou-se do microfone.

— Bem… acho que já falei o suficiente. O meu corpo precisa de descansar…

Afastou-se timidamente do microfone e olhou para o público durante vários segundos, tantos que, por um instante, pensei que fosse abandonar o palco.

Continuou.

— Não quero prender-vos mais. Terão, com certeza, coisas melhores para fazer do que estar a ouvir as pequenas batalhas de um homem que se tornou velho em poucos dias…

Novo silêncio.

— Resta-me apenas agradecer-vos por terem vindo… Obrigado… muito obrigado.

Nesse momento, começou a ouvir-se I am mine, dos Pearl Jam, e explodiu o aplauso mais longo que ouvi em toda a minha vida.

As luzes foram-se apagando aos poucos, até restar apenas um foco a apontar para o meu pai, no meio do palco.

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