Terra

Eloy Moreno · Capítulo 24 de 205

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Terra

Capítulo 23

No mês da morte do meu pai, o passado voltou para me atormentar. Nesse dia, poucos minutos depois de chegar a casa, um mensageiro tocou à campainha e deixou-me um embrulho lá fora, na entrada. Não me deu tempo de falar com ele; quando abri a porta, vi-o desaparecer de bicicleta, rua abaixo. Na realidade, não era a primeira vez que me acontecia algo semelhante. Já estava habituada a que fontes anónimas me passassem informação confidencial daquela forma: uma denúncia de alguém, um relatório que escapara não se sabe bem como, um vídeo comprometedor…

Peguei no embrulho e dirigi-me ao sofá.

Como todos os dias, depois de passar demasiadas horas no jornal, chegava a casa esgotada. O sono ganhava sempre a batalha contra um corpo que trabalhava mais horas do que devia, numa empresa onde as notícias já eram obsoletas antes mesmo de acontecerem; onde, se não se fosse o primeiro, não se era ninguém; onde, em segundos, era preciso decidir se uma informação era verdadeira e publicá-la nesse mesmo instante ou hesitar e, possivelmente, ficar sem o furo.

Liguei a televisão, sentei-me de pernas cruzadas no sofá e comecei a abrir o pequeno embrulho. De alguma forma, havia sempre um lado emocionante numa situação daquelas. Nunca se sabia o que se podia encontrar lá dentro: um simples rumor, uma pista que depois não chegava a lado nenhum ou talvez a notícia do século.

Aquilo que nunca imaginei foi que, lá dentro, estivesse ele.

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