Terra

Eloy Moreno · Capítulo 83 de 205

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Terra

Capítulo 83

Agora, nos quartos, é o silêncio que ocupa o espaço em torno de cada um dos escolhidos, um silêncio capaz de alcançar os pensamentos mais íntimos, os que nascem quando tudo o resto desapareceu.

Esse silêncio chega ao quarto de Frank, um homem que, apesar do cansaço acumulado, terá, hoje, dificuldade em adormecer. Está nervoso, devido a todas as emoções vividas. Assumiu que nunca mais voltará à Terra, que, a partir daquele momento, este será o seu lar, a sua vida. Pensa que, apesar de todas as restrições ao conforto do dia a dia, a sua mente deixará de ser o atoleiro dos seus medos.

Sonha acordar todas as manhãs sem precisar de tomar os medicamentos que lhe abrandam as inclinações sexuais.

Já não sentirá o tremor no corpo, como lhe acontecia nas consultas, durante as quais tinha de travar uma batalha contra os seus instintos.

E ali, deitado na cama, sorri, porque chegou ao paraíso, a um lugar onde poderá ser, finalmente, um homem normal. Não quer pensar no futuro, no que acontecerá se um dia nascer ali uma criança. Talvez, por essa altura, já esteja morto.

 

Cai também o silêncio da noite sobre o quarto de Andrea, uma rapariga que se sente feliz com esta nova vida. Alegra-se ao saber que, no máximo, se cruzará com onze pessoas num futuro próximo. Pessoas que, além disso, já se encontram sob o seu controlo.

Andrea adora as câmaras, porque lhe dão segurança, são como o irmão mais velho que nunca teve, aquele que nos vigia, mas que também nos protege. Quem dera tivessem estado sempre presentes, captando os movimentos dos que se aproximavam dela.

Enquanto olha para o computador, sorri. Na verdade, tem tudo o que quer: acesso livre e privado à Internet.

Está ali por um motivo que a obriga a não abandonar o ecrã durante muito tempo.

Deita-se na cama e começa a pensar na sua infância. Vê uma criança ir de um lado para outro, um corpo transitar de rua em rua, sempre alerta, a esconder-se até de si mesma. Uma menina órfã de pais, de país e, por fim, até de sentimentos.

E assim, com a cabeça virada para cima, estende os braços à sua frente, para observar as tatuagens que tem em cada uma das palmas das mãos.

Um zero na mão esquerda, que fez quando se sentia assim: um símbolo que lhe recorda os momentos em que, apesar de estar viva, não existia; quando não era mais do que um corpo à deriva num mar de indiferença, quando, ao adormecer na rua, via passar cães que traziam mais roupa vestida do que ela.

Desvia ligeiramente o olhar, para ver a outra tatuagem e o zero desenhado na palma da mão direita. Aquele que fez quando aquele homem tomou conta dela, quando começou a ser mais forte; o que tatuou quando percebeu que era capaz de se multiplicar. Um zero que a transforma numa das pessoas mais perigosas do mundo.

Fecha os punhos e baixa os braços. Senta-se na cama de pernas cruzadas e pousa de novo os dedos no teclado. Chega uma nova mensagem. O processo recomeça.

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