Terra
Capítulo 185
Depois da advertência da praxe, transmitem-se as últimas imagens recebidas da colónia.
Terra brinca com Andrea em cima do sofá. Ambas riem. A menina tenta agarrar os auriculares com as suas mãozinhas. Andrea afasta-os, para que os não consiga alcançar. De repente, um grande estrondo faz com que as duas vidas se unam num abraço de pânico.
As imagens seguintes dizem respeito à estufa. Vê-se o Jardineiro a tratar das suas plantas, como tantas outras vezes. Observa uma pétala que nasce de um pequeno botão. É no momento em que uma das suas mãos se aproxima para a acariciar, que tudo em volta estremece.
Levanta-se com a intenção de se dirigir à Sala Comum, o lugar mais seguro da colónia. Mas o seu corpo mal consegue dar quatro passos. Ao quinto, o teto cai-lhe em cima.
Aquilo que a câmara não capta, porque também morreu, são os últimos instantes de vida de um homem que vê tudo desabar. As paredes desfazem-se como se fossem de papel, e quilos de material, em volta, despenham-se sobre um corpo que mal tem tempo de recuperar algumas memórias.
Volta a pensar no momento em que perdeu o controlo do automóvel, e, em vez de recordar a sua vida, pensa nelas. Talvez, agora, as possa encontrar algures. É esse último pensamento que lhe desenha um sorriso no rosto, embora não seja captado por qualquer câmara.
Depois do colapso da estufa, as imagens mostram o Mãozinhas em cima de um pequeno escadote. Encontra-se calmo, tentando reparar qualquer coisa num painel elétrico. Examina vários cabos, e, quando parece ter encontrado o certo, pega na chave de fendas e coloca-a entre os lábios, para, assim, com as mãos, apertar uma das peças. É ali, precisamente à terceira volta, que um estremecimento o faz perder o equilíbrio e cair no chão.
Levanta-se, aturdido, olhando para todos os lados, numa tentativa de perceber de onde veio o som. E, sem pré-aviso, a parede que se encontra mesmo à sua frente começa a desabar como um castelo de areia.
Aquilo que os espectadores não verão, apesar de a câmara ter ficado a gravar durante mais alguns segundos, são as imagens de um corpo a agonizar no chão, um corpo que não sabe de que vai morrer, se de falta de ar ou da terrível ferida que tem na cabeça.
Depois de uns segundos de escuridão, os ecrãs passam as imagens de uma das câmaras situadas no quarto de Frank. Ali, como vem sendo habitual, nada acontece. Vê-se apenas um homem deitado na cama, como Frank estava quase sempre desde o nascimento de Terra. Ninguém sabia muito bem o que se passava com ele, ninguém sabia porque já não dizia piadas, porque parecia evitar qualquer companhia.
As imagens captam algo estranho, um ruído leve que faz com que Frank se levante da cama e se ponha em frente à janela. O seu rosto diz tudo.
Nesse momento, a produção passou a imagem à câmara que se encontra no exterior dessa janela, para que o público possa ver o mesmo que Frank antes de se despedir da vida: um torvelinho de areia escura que se aproxima demasiado depressa.
Não tem tempo de afastar o olhar, e o vidro fragmenta-se em mil pedaços. Começa a sangrar de várias partes do corpo, mas essa última imagem nunca será mostrada ao público.
As câmaras focam agora o quarto de Miss, que está praticamente despida. Prepara-se para tirar uma selfie: uma das mãos, a direita, segura o telemóvel; com a esquerda, tapa estrategicamente o peito.
Depois de vários segundos a olhar em volta, talvez para verificar que a luz é a adequada, prime o botão, e a imagem voa para as redes sociais, uma imagem que chegará quando ela já estiver morta. Foi a sua última publicação.
É depois de tirar a fotografia, que ouve um som. Fica imóvel, assustada. Parece hesitar entre dirigir-se à Sala Comum despida ou vestir-se rapidamente. No segundo seguinte, a decisão deixou de ter importância: o seu quarto torna-se pequeno. Tem tempo de gritar, uma vez apenas.
Aquilo que as câmaras já não conseguem mostrar é o puzzle em que acaba de se transformar o corpo mais belo do mundo.
Enquanto todas essas imagens são transmitidas, pela primeira vez em muito tempo, as redes sociais permanecem mudas.
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