Terra
Capítulo 95
No dia seguinte, graças às redes sociais, na colónia já sabiam o que se passara na noite anterior no quarto de Miss. Mas ninguém disse nada, ninguém quis abordar um assunto que poderia originar um conflito. O Mãozinhas e o Jardineiro decidiram simplesmente ignorar-se um ao outro.
Com o passar dos dias, a situação voltou a ter lugar muitas vezes, tantas, que aquilo que, ao início, fora novidade para o público acabou por perder parte do seu interesse.
Aconteceu o mesmo com o resto das atividades, pois, passada a novidade inicial, cada um dos participantes começou a desempenhar a sua função dentro da colónia.
O Mãozinhas dedicava-se à manutenção de tudo aquilo que avariava. E, apesar de não lhe faltar trabalho no dia a dia, começava a sentir uma espécie de claustrofobia. Alguém habituado a sair todas as noites, a andar de um lado para o outro, a visitar camas alheias em diferentes cidades, via a sua vida reduzir-se a alguns metros quadrados. É verdade que não havia ninguém à porta, à espera de lhe dar um tiro, mas também é verdade que nem sequer havia porta.
Nenhum dos concorrentes saíra para o exterior, à exceção do trajeto que tinham feito da nave espacial até à colónia. Tinham-lhes dito que, primeiro, precisavam de concluir uma formação que se já prolongava demasiado.
O Jardineiro, por seu lado, não se queixava muito. Dedicava cada minuto da sua vida a cuidar de plantas, que, aos poucos, iam florescendo naquele meio tão hostil. Uma pequena flor, uma folha nova, um rebento… Era feliz ali, rodeado de vida ainda por estrear.
Andrea não falava com ninguém. Os cumprimentos indispensáveis de manhã e à noite, conversas que se reduziam a monossílabos e pouco mais. Passava a maior parte das horas isolada com o seu computador. Ninguém sabia muito bem a que dedicava o tempo, mas também não perguntavam.
Quem se debatia com mais dificuldades era, sem dúvida, Veruca: já não havia histórias novas para partilhar; não havia lugares diferentes onde tirar uma selfie… O seu canal transformara-se num diário que interessava cada vez menos.
Depois do primeiro mês, o público também começou a aborrecer-se. A única coisa que, de vez em quando, o animava era alguma discussão ou cena de sexo diferente, naquela relação triangular… mas nem isso suscitava entusiasmo. Era quase sempre o mesmo.
Foi na quinta semana que se soube de uma notícia que mudou tudo. Nem a organização mais poderosa do mundo conseguiu controlar o caso.
O furo foi publicado por um dos principais grupos editoriais do país.
Era verdade que na empresa já tinham conhecimento desta informação há algum tempo, mas haviam feito os impossíveis para que não fosse difundida. Miss gerava tanto dinheiro, que lhes convinha guardar segredo. A principal marca desportiva do mundo, uma das grandes marcas de cosméticos, um império da moda… todos esses e muitos mais eram os patrocinadores de uma jovem que se deitara com duas pessoas «ao mesmo tempo», sendo que essa, até agora, fora a única coisa estranha que fizera. Na moral dúplice mundial, era algo mais ou menos incómodo, mas aceitável. A linha quebrou-se quando a notícia foi publicada.
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