Terra

Eloy Moreno · Capítulo 154 de 205

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Terra

Capítulo 155

— Foi um géiser — respondeu o meu irmão, enquanto continuávamos a andar. — Olha estes buracos todos na terra. Alguns são fontes termais, outros são antigos géiseres que já não se encontram ativos.

À medida que avançávamos, fui lendo pequenos cartazes que indicavam o nome e a antiguidade de cada uma daquelas aberturas. Por entre a grande quantidade de pessoas, consegui divisar um aglomerado que formava um círculo. O meu irmão voltou a pegar-me na mão e levou-me para outro lugar.

— Mas vamos aqui primeiro. Quero mostrar-te uma coisa.

Subimos por uma ladeira curta, seguindo outro caminho igualmente assinalado. Dirigíamo-nos a um local onde havia menos gente. Quando chegámos, vi uma grande tabuleta que dizia: GEYSIR.

— E isto? O que é?

— É o Geysir, o original — explicou. — É o que dá o nome a este tipo de fenómeno.

— E quando vai entrar em erupção?

— Este não vai. Morreu.

Inclinei-me ligeiramente para diante e vi que a água se movia apenas num pequeno vaivém pela superfície, mais nada. Não havia vida, nem sinal dela.

— O que se passou? — perguntei.

— Há alguns anos, mataram-no, matámo-lo. Os que chegaram a vê-lo dizem que era maravilhoso, que ficava ativo de meia em meia hora, mais ou menos, e chegava a alcançar sessenta metros de altura, mas parece que trinta minutos era demasiado tempo, e as pessoas começaram a atirar-lhe coisas, para ver se o faziam jorrar água mais depressa: pedras, moedas, alguns dizem que detergente, até. O que conseguiram foi apenas bloqueá-lo, e não voltou a manifestar-se.

»O pai trouxe-me aqui no dia em que chegámos à Islândia, para me explicar como é o ser humano. Já sabes a opinião que ele tinha.

Ficámos ali durante alguns minutos, a olhar para aquele tesouro inerte. À nossa volta, um vaivém de turistas que, depois do esforço da pequena subida e ao ver que o géiser não entrava em funcionamento…

 

«Então este não desanda?», pergunta um homem obeso que vai perdendo as calças a cada passo. Tem uma mão ocupada com um hambúrguer, a outra, com uma cerveja.

«Não, parece que não», responde-lhe uma mulher que parece ser a esposa.

«Mas que grande porcaria. E foi para isto que subimos até aqui? Raios», protesta, enquanto continua a mastigar. Bebe um último gole de cerveja e atira com a lata para o chão.

«És mesmo porco», repreende a companheira.

«Quero lá saber. Os tipos da manutenção apanham. É para isso que lhes pagam.»

Dá uma última dentada no hambúrguer, faz uma bolinha com o papel e, posicionando-se como um jogador de basquetebol, aponta para o interior do Geysir.

Faz o lançamento.

Felizmente, o vento desvia a trajetória, e o papel cai na margem exterior, mesmo à beirinha.

Os dois viram costas, enquanto discutem.

Aproximei-me do papel e apanhei-o. Fiz o mesmo à lata. Deixei tudo no caixote do lixo que se encontrava a alguns metros. O meu irmão olhava para mim, descoroçoado.

— Bem, Nel, vamos ver o único que ainda parece estar ativo, o Strokkur — disse.

Voltámos a descer o caminho em direção à imensidão de câmaras que, com as pessoas atrás, tentavam captar a imagem perfeita para as redes sociais. Não havia espaços vazios. Todos se comprimiam, como se as suas vidas dependessem daquela fotografia.

Passaram-se vários minutos, mas o jato não dava sinais de vida, o que fez com que muita gente se impacientasse.

Ouviram-se insultos sem destinatário específico.

De repente, sem pré-aviso, vimos uma bolha gigante começar a formar-se no interior do pequeno lago.

Subiu, desceu, subiu, desceu e, em apenas um segundo, soltou um jato de cerca de dez metros de altura.

Risos, gritos, abraços, semblantes felizes em dezenas de selfies, imagens que iam diretamente para as redes sociais, com milhares, milhões, de gostos.

— Bem, ao menos, ainda resta este. É uma esperança — comentei com o meu irmão, que me sorriu, desolado.

Esperámos de novo, para o poder ver mais de perto. Passados cinco minutos, voltou a irromper.

As pessoas iam e vinham incessantemente: os que já tinham tirado a fotografia, os que queriam voltar a tirá-la e os que chegavam na esperança de publicar a imagem da sua vida.

— Vamos — disse o meu irmão, olhando para o relógio. — Já está na hora. Disse-me que nos encontrávamos numa casinha de madeira que há ao fundo do parque de estacionamento.

Voltámos a atravessar a rua e dirigimo-nos para lá, divisando imediatamente a barraca. Mesmo à porta, um homem esperava-nos.

Quando o meu irmão o viu, aproximou-se, e deram um forte abraço.

— Há quanto tempo! — disse o amigo do meu irmão.

— Sim, pelo menos, quatro anos, mas tu estás na mesma. Parece que o clima de cá te conserva a juventude. — E ambos se riram. — Olha, apresento-te a minha irmã.

— Olá, como estás? — cumprimentou-me. — Vi-te uma ou outra vez na televisão.

— Muito prazer. — Sorri.

— Bem, pois eu já acabei o que tinha para fazer hoje. Como sempre, ando de volta da informática, das máquinas… há sempre alguma coisa para ajustar…, mas, enfim, o que é feito da tua vida?

Ficámos ali de pé. Eles começaram a falar dos seus encontros, dos seus momentos… Eu distraí-me um pouco a pensar nas pistas, no jogo das chaves, nos anéis, a tentar perceber tudo o que estávamos a fazer, a tentar descobrir onde tudo nos levava… De repente, reparei que, numa das frases, mencionavam o meu nome, e despertei do meu ensimesmamento.

— Podias mostrar à minha irmã?

— Sim, sim, claro. Não há problema.

— Mostrar-me o quê? — perguntei.

— O que se encontra dentro desta barraquinha. O teu irmão insistiu. Acha que ias gostar de ver, mas tem de ficar entre nós.

— Palavra de jornalista — disse-lhe, a sorrir.

Abriu a porta e entrámos. Mal cabíamos os três. Abriu um alçapão existente no chão e descemos por umas escadas verticais.

Chegámos a uma pequena divisão onde havia um painel de controlo e vários ecrãs.

Fiquei de boca aberta a olhar para tudo, a ver as imagens, os gráficos e as câmaras.

— Será o que estou a pensar? — perguntei ao meu irmão.

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