Terra
Capítulo 191
A imagem desapareceu, e fomos surpreendidos pela voz de Jónas, que se aproximou de nós.
— A minha mulher morreu há alguns anos. Cancro — disse, em voz baixa. — Desde que o detetaram até morrer, passaram-se apenas três semanas. Foi o tempo que tivemos para nos despedirmos. Depois de uma vida inteira juntos, a doença não nos concedeu nem um mês para dizermos adeus.
»Uma noite partiu, apenas. E ali fiquei, sem ela, mas com uma menina que tinha apenas um ano. Nessa noite, embora ela já não me ouvisse, prometi-lhe que faria os impossíveis para continuar com uma vida que, na verdade, era dos dois: dela e minha.
»Quanto estou disposto a pagar para que a minha filha possa continuar a viver?
Eu e o meu irmão mantivemo-nos em silêncio, a olhar para um homem que se despia emocionalmente à nossa frente.
— Nasci sem que ninguém me desejasse. Nunca conheci os meus pais. Houve alguém que me encontrou à porta de um hospital. Pelo menos, tiveram a decência de me deixar viver. Talvez por isso tenha crescido a pensar que cada instante da minha vida era um presente.
Vimos que, apesar de se esforçar por o evitar, aos poucos, os seus olhos iam humedecendo.
— Durante anos, andei de um lado para outro, de um lar de acolhimento para outro, de um orfanato para outro. Cheguei até a viver na rua. Durante muitos anos, vagueei pelo mundo, até que, um dia, vi uma carrinha amarela.
»Fui com eles, fizeram-me uns testes e perceberam que eu aprendia depressa, muito depressa. E a vida continuou, estudei, estudei muito, e preparei-me para trabalhar na empresa. Encontrei a minha companheira e tivemos uma filha. Uma filha que tem o meu anel.
Respirou e deixou-nos respirar.
— Não, não sou rico, não tenho cem milhões, mas o vosso pai ofereceu muitos anéis a pessoas que considerava merecedoras. Suponho que, apesar de me terem deixado na rua quando nasci, sou alguém com mérito.
Não soube o que dizer. Olhei para o meu irmão.
— Aprendemos muito acerca da colónia — continuou. — Desde então, a Centinel avançou com o trabalho. Lançaram-se várias missões com material e pessoal qualificado. Está previsto que, daqui a cerca de cinco anos, comecem a chegar as primeiras grandes naves espaciais com civis, e, desta vez, não será apenas para um concurso, desta vez, será para sobreviver, porque não haverá alternativa.
»Não será um acontecimento isolado. Na realidade, prevê-se que o desastre ocorra em sequência. No mar, várias zonas habitáveis ficarão submersas, o que dará origem a migrações, porque haverá cada vez mais gente e menos terra firme. No fim, como sempre, tudo resultará em violência. Qualquer pequena mudança pode gerar um efeito de dominó; por exemplo, o facto de uma espécie desaparecer pode fazer com que depois desapareça outra que dependia da anterior, e assim sucessivamente…
Ficou em silêncio, a olhar para nós.
— Mas é preciso dizer isso tudo, explicá-lo. As pessoas têm de saber — disse eu.
— Esse é o grande problema — respondeu. — As pessoas já estão a par de tudo, mas ninguém quer saber. Vê alguém preocupado lá fora?
— Mas, se as empresas…
— Se as empresas fabricam, é porque as pessoas consomem — interrompeu. — Se há uma fábrica na China a fazer milhões de brinquedos inúteis para a McDonald’s, é porque os pais compram o Happy Meal aos filhos, para eles deitarem o brinquedo fora quando chegam a casa. Se as empresas fabricam plástico, é porque o consumimos.
— Mas, mesmo assim, é preciso dizê-lo.
— Não, agora já não. Chegou o momento em que temos de o negar.
— O quê? — perguntei, surpreendida.
— Sim, chegou o momento em que temos de negar que a mudança climática existe. É nisso que os governos e as grandes empresas estão a investir todos os seus esforços.
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