Terra
Capítulo 3
Embora nenhum comunicado prévio sobre o alinhamento do evento tivesse sido emitido, quase todos sabíamos o que aquele homem, que mal se sustinha de pé, ia dizer. Suspeitávamos de que seria a sua despedida, a sua última aparição pública. Todos sabíamos a verdade, a verdade que a imprensa tentara ocultar durante o último ano.
Mas é impossível guardar um segredo quando é o próprio segredo que se põe a falar à nossa frente, quando é o próprio segredo que tem dificuldade em manter-se de pé no palco.
Ali estava agora, em silêncio, sob um emaranhado de holofotes e aplausos, um homem que iniciara o seu império com uma simples câmara. Uma pequena câmara com a qual gravava concursos que ele próprio inventava. Um visionário que revolucionara a indústria televisiva, desde os seus primórdios, que ousara fazer o que outros nem imaginavam ser possível, que criara a empresa mais rentável do mundo, do zero… Um homem que chegara a ter mais poder do que o próprio presidente. Um génio para muitos… um ser desprezível para outros.
Um homem que começara com a ideia de fazer a melhor televisão do mundo e acabara por criar os programas mais atrozes e vergonhosos… os programas que mais pessoas viam.
Um homem que reunira a maior fortuna do planeta, que se mantivera ano após ano no primeiro lugar da lista Forbes. Um homem com tanto dinheiro e poder, que eram os principais dirigentes do mundo a pedir-lhe audiência, não o contrário.
Era também um homem que transpusera todos os limites, tanto legais como morais; que enfrentara famílias, que destruíra casamentos, que rentabilizara a dor alheia de uma forma nunca, até então, vista. Um homem que conseguira ter contra si praticamente todas as associações existentes: as ambientais, as dos direitos humanos, as defensoras dos animais… Um homem que transformara o ser humano num joguete.
Um homem que teria sido capaz de fazer qualquer coisa para conseguir mais audiências, qualquer coisa…
E esse homem era o meu pai.
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