Terra
Capítulo 186
— A água chegou às baterias! — grita o capitão. — E, sem energia, as bombas não funcionam.
— Isso significa que vai continuar a entrar água e que deixa de haver sistema de extração — responde um dos tripulantes, nervoso.
— Sim, significa que o barco vai afundar — reconhece o capitão, enquanto aciona um alarme que também não funciona.
Grita o mais alto que consegue, para os homens e as mulheres, que parecem um grupo de zombies, estirados no convés.
— Capitão, o rádio não transmite — informa outro tripulante, nervoso.
— Há dois botes salva-vidas, e ainda temos tempo — acalma-os o capitão. — Vou ver se consigo comunicar a nossa posição através do outro rádio, o portátil.
Tenta várias vezes, mas o alcance do rádio é minímo. Só um barco ali perto poderia receber o sinal. Não há resposta.
Aos poucos, os clientes, ainda aturdidos pelas drogas e pelo álcool, vão-se apercebendo da gravidade da situação. Duas das mulheres entram em pânico e começam a gritar desesperadamente. O mais novo de todos, o filho do dono, grita mais alto ainda e desata a chorar. Anda de um lado para o outro da embarcação aos berros: «Não quero morrer, não quero morrer.»
Outro homem desata a correr sem rumo ou intenção clara. Tudo é um caos, até que, de repente, se ouve um disparo.
Silêncio.
— Já chega, raios! — grita o dono do barco, cambaleando de um lado para o outro. — Há botes salva-vidas, lançamo-nos à água e pronto. Não é assim, capitão?
— É, sim — responde. — Cada um deles tem seis lugares, somos doze, ao todo. Não há problema. Além disso, estamos muito perto da ilha, a cerca de quatro ou cinco milhas.
Por momentos, todos se acalmam.
O capitão e os dois assistentes lançam ao mar um dos barcos insufláveis, mas o sistema falha: o barco não abre. Falta de manutenção.
O ocorrido gera um silêncio absoluto.
Todos olham para o homem que tem a pistola na mão. Sabem que se encontram numa situação complicada, mas, para lá dos soluços das duas mulheres e do jovem, ninguém se atreve a falar.
O capitão age como se nada se passasse e ordena aos assistentes que lancem a outra lancha. Esta enche-se.
— Primeiro, as mulheres — ordena o capitão.
— Primeiro, eu e o meu filho, depois, logo se vê — interrompe o dono do barco, apontando-lhe a pistola à cabeça.
Nesse preciso momento, ouve-se um disparo. Outro homem sacou de uma pistola e disparou para o ar.
— A seguir, eu e o meu irmão — diz um homem obeso.
— E, depois deles, eu — decide o homem mais velho de todos, mostrando igualmente a sua arma, sem chegar a disparar.
O dono do barco continua a apontar ao capitão, enquanto indica ao resto dos homens que saltem para o barco. Finalmente, ele próprio salta também. Há espaço para mais um, embora o peso dos cinco já seja excessivo para o pequeno bote salva-vidas.
Dali, três armas apontam para o resto das pessoas que se encontram no convés: as três mulheres, os dois tripulantes, o cozinheiro e o capitão.
O iate vai-se afundando aos poucos, e nenhum deles sabe se morrerão de frio ou afogados. Não há salvação; a única hipótese encontra-se naquele barquinho.
Uma das mulheres salta, tomada de pânico.
Ouve-se um disparo.
Um corpo flutua no mar, de barriga para baixo.
Silêncio.
— Tu! — grita o dono do barco ao capitão. — Pega no rádio e salta. Vens connosco!
— Não! — recusa.
O homem aponta de baixo e, quando parece que vai disparar…
— Tu! — grita a um dos tripulantes do capitão, ao mais novo. — Pega no rádio e salta. Vens connosco!
E o rapaz salta.
E o bote afasta-se.
E o barco afunda-se.
Muitas horas mais tarde, a pequena lancha insuflável consegue chegar à ilha.
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