Terra
Capítulo 27
NELLYNE. Era esta a inscrição que decorava a caixinha de madeira que se encontrava dentro do embrulho que acabava de abrir. Comecei a recordar os últimos pormenores da morte do meu pai: tirou a pistola do bolso e, sem que houvesse tempo para alguém reagir, disparou sobre si mesmo. E caiu no chão.
Passados poucos segundos, o pessoal da segurança afadigou-se à sua volta, e levaram-no dali. Ninguém voltou a ver o seu corpo… E se o seu espetáculo final tivesse sido cometer suicídio sem chegar a morrer?
Agarrei a caixa com força entre as mãos, sem querer abri-la, mas assumindo que acabaria por o fazer. Afinal, era jornalista, e ele sabia-o.
Mantive-a no colo durante vários minutos, enquanto pensava nele, em todos os momentos que não tivemos, em todas as ocasiões em que pudemos falar e não o fizemos. Inspirei e expirei profundamente, tentando empurrar as suas recordações com o ar.
Voltei a olhar para a caixa, acariciei-a e, lentamente, abri a tampa: deparei com três objetos.
O primeiro arrastou-me para o passado como um furacão: levou-me até ao lume, ao silêncio e ao medo. Transportou-me para uma cabana perdida no bosque. Para uma chave que despertou a dor numa das linhas da minha mão, aquela que nunca deveria estar ali, a que mudou o meu destino.
O segundo objeto era um telemóvel, um dos normais, sem nada a destacar, sem qualquer marca exterior, preto, simples.
E o terceiro…
Ao ver o terceiro, soube que o meu pai ganhara.
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