Terra

Eloy Moreno · Capítulo 178 de 205

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Terra

Capítulo 181

— No CC1, não respondem — refere um dos técnicos do CC2.

— Que estranho… Enfim, devem ser só interferências, ou, então, a falha está aqui e não em Marte — responde um colega.

Continuam a observar os vários monitores, os sinais e as ligações, para verificar, pelo menos, que a falha não é deles, mas externa.

— Olha! Já temos sinal! — grita um dos técnicos, com alegria.

Mas, no mesmo instante, toda a equipa fica sem palavras ao ver as imagens apresentadas pelas câmaras interiores.

Depois de quase um minuto de choque, um deles pega no telefone para fazer a chamada mais triste da sua vida.

 

No quarto de um dos apartamentos mais luxuosos da cidade, um homem ouve, desconcertado, o toque de um telemóvel que nunca deveria ter soado.

Larga o livro que está a ler nesse momento, baixa o volume da música e pega nele.

— Sim? — pergunta, perplexo.

Entre nervosismo e lágrimas, um funcionário anuncia-lhe, gaguejando, aquilo que as redes sociais ainda não sabem.

— Passem-me imediatamente o sinal! E nem vos passe pela cabeça transmitir alguma coisa! Entendido? Nada! — grita.

O homem liga um grande ecrã que tem em frente ao sofá, sintoniza o canal interno, e as imagens começam a chegar.

E ali, de pé, diante daquele caos de dor, deixa cair o telemóvel ao chão. Pela primeira vez na vida, o homem mais rico do mundo fica paralisado, sem saber o que fazer.

Deixa que as imagens que o atingem por todos os lados o lancem sobre o sofá. Deduz que é o fim de tudo…

«O sonho chegou a este ponto», pensa.

Permanece absorto durante alguns minutos, sem afastar os olhos do ecrã, que lhe atira a realidade à cara, de forma desassombrada.

Sabe que tem de tomar uma decisão, e tem de o fazer já. Não pode transmitir o que acaba de ver. É demasiado cruel, mesmo para uma sociedade tão habituada à violência. Sabe que até a dor tem um limite.

Aquelas pessoas faziam parte da vida diária de milhões de espectadores. Criara-se um vínculo emocional demasiado forte. Para muita gente, os escolhidos eram mais importantes do que os melhores amigos, os irmãos, a família; para muita gente, os sentimentos em relação àquela menina eram semelhantes aos que nutriam pelos próprios filhos. Tinham passado mais de um ano a ver como crescia, vivido com ela os primeiros passos e as primeiras palavras, muitos tinham ficado acordados centenas de noites, só para a ver dormir. Como dizer aos pais que a sua filha, mesmo que não fosse biológica, morrera?

Respira devagar, sabe que tem de comunicar a notícia com tato, com muito tato.

O homem salta de um pensamento para outro, de uma alternativa para outra, até ir desenvolvendo um plano na sua mente.

Volta a ligar para o CC2, para dar indicações.

Depois de mais de cinco minutos de conversa…

— Entendido?

— Sim, senhor, perfeitamente entendido.

— Espero que sim. Vamos fazer com que a recordação do que se passou seja menos dolorosa do que a realidade…

Desaba então no sofá, à espera de que as suas ordens sejam executadas, à espera de que sejam finalmente transmitidas as últimas imagens de um sonho.

 

Depois de duas horas sem ligação, o sinal regressa aos ecrãs do mundo inteiro.

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