Terra
Capítulo 52
Concorrente Número 8
Toda gente conseguiu detetar uma mudança no rosto do apresentador, quando este viu o conteúdo do envelope.
— Então? Quem é, Steven? Diz qualquer coisa. Parece que ficaste sem palavras…
— Bem, sim, Alison… Um pouco, talvez… talvez seja uma surpresa para todos, mas, afinal de contas, foi o público que escolheu. E apareceu no ecrã o que quase ninguém esperava.
Vera Sweet, «Veruca»
Concorrente n.º 842 491
20 anos
Influencer
Nesse instante, o público pôs-se de pé e ouviu-se um grande apupo coletivo. A organização do programa substituiu o som original por uma pista de áudio com aplausos.
Nas redes sociais, já foi mais complicado filtrar o impacto. Publicaram-se as mensagens mais obscenas, eliminaram-se aquelas que continham insultos, mas era impossível conter aquele tsunami de opiniões.
— Muito bem. Temos a última participante selecionada. Parabéns! — disse Steven.
O ecrã mostrava Vera, que começou a saltar de alegria. Os restantes concorrentes limitaram-se a sorrir. Ninguém se levantou para a cumprimentar. Notava-se, no rosto dos não selecionados, um sentimento de raiva e de injustiça, mas sabiam que não podiam fazer nada. Neste caso, o poder e o dinheiro tinham escolhido.
O seu verdadeiro nome era Vera, mas havia anos que toda a gente lhe dera a alcunha de Veruca, pela sua reputação de menina mimada, com base no romance de Roald Dahl. Apesar de ter tentado durante algum tempo que não lhe chamassem assim, não conseguiu evitar. Por fim, vendo que não conseguia lutar contra isso, começou a utilizar o pseudónimo Veruca nas redes sociais.
E porque estava Veruca ali, entre os escolhidos? Tão-só porque o pai era um dos três homens mais ricos e influentes do mundo. Um dos três homens que tinham tornado o projeto possível.
Na realidade, a sua única qualidade era o facto de, desde criança, os pais a terem exibido como mais um objeto, juntamente com o carro, o iate ou a mansão. A menina fora criada no meio do dinheiro, das câmaras e da fama.
Quando nascera, o pai oferecera-lhe um perfil nas redes sociais, e, desde então, tudo sobre ela se tornara público. Todos os seus canais mostravam a sua vida, dia após dia: as viagens, as vedetas com que partilhava momentos, o último carro que lhe tinham oferecido, as festas a que ia… Graças a essa exposição pública permanente, tinha milhões de seguidores por todo o mundo.
Tinham-lhe dado tudo, absolutamente tudo, mas faltava-lhe qualquer coisa… No momento em que, através das redes, expressou o seu desejo de ser uma das candidatas a ir para Marte, ninguém lhe deu importância, tudo parecia uma campanha de marketing para ter ainda mais seguidores. Mas, com o passar do tempo, persistiu na ideia.
Começou a escrever nas redes tudo o que ali queria fazer: as imagens que publicaria, as novidades que haveria na sua vida… O seu desejo era contar toda a experiência e, claro, ser uma das primeiras oito pessoas a viver de forma permanente fora da Terra.
De início, tanto a mãe como o pai se opuseram taxativamente. É verdade que já era maior de idade e, como tal, livre de decidir, mas continuava a depender completamente dos pais.
Continuou a insistir, até que, um dia, aconteceu algo extraordinário: o pai mudou de opinião, deu-lhe autorização para ir.
Nesse dia, publicou uma das imagens com mais gostos da História: uma fotografia em que aparecia ao lado do pai, com um formulário de inscrição no concurso.
Essa imagem, e a decisão que envolvia, originou a primeira grande crise entre os pais. A mãe apareceu em várias entrevistas a chorar e a suplicar à filha que não o fizesse, que não partisse. Quando parecia que a decisão já era irreversível, gravou um vídeo a criticar duramente o marido, classificando-o como um «louco que não é capaz de dizer não à filha».
O casal nunca ultrapassou a situação: continuaram juntos para as câmaras, mas, na intimidade do lar, a sua relação desfazia-se de dia para dia.
Ninguém compreendia aquela mudança de opinião. Ninguém conseguia explicar como o homem que sempre declarara que Vera fora a coisa mais bela que lhe acontecera a deixava agora partir para sempre.
No ecrã, apareceu uma rapariga, vestida com uma saia cor-de-rosa, botas azuis e uma camisola de mil cores, a saltar — de câmara na mão — de um lado para o outro, de alegria.
Os seus apoiantes, que também existiam, e muitos, argumentavam que poderia ser uma mais-valia e que, além disso, graças ao seu domínio das redes sociais, poderia viralizar, de forma exponencial, qualquer acontecimento que ocorresse em Marte. Os seus detratores diziam que o seu lugar devia ser ocupado por outra pessoa, que ela não podia trazer nada à Humanidade. Desenvolveu-se uma plataforma muito numerosa a exigir ao programa a eliminação da candidata.
Para a organização, representava um risco, mas também era verdade que aquela jovem podia transformar-se numa fábrica de dinheiro: era a sexta pessoa com mais seguidores no mundo inteiro.
— Vera, está a ouvir-nos? — perguntou o apresentador, ao mesmo tempo que ela continuava a saltar de alegria.
— Sim. Diga, diga…
— Nada. Parabéns e felicidades por ter conseguido. Todos sabemos quanto lhe custou…
— Obrigada! Obrigada! Muito obrigada! É um momento tão especial! Eu, em Marte! — continuou a gritar, sem conseguir estar parada por um instante.
— Bem, Steven, enquanto ela se acalma, vamos passar o vídeo de apresentação.
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