Terra
Capítulo 135
O primeiro suicídio de um ser humano fora da Terra, era o que milhões de pessoas acabavam de presenciar. Uma morte que ninguém conseguiu prever, a de uma rapariga que se enganara tão rotundamente, que decidira nunca mais se enganar.
Foi um grande golpe para a colónia, que, dia após dia, parecia entrar em declínio.
Contrariamente ao que seria de esperar, do ponto de vista comercial, a morte de Veruca foi um sucesso: todos os meios de comunicação social voltaram a falar do concurso. Fizeram-se inúmeros programas especiais que transmitiram a sua biografia completa, e a dos pais, os seus melhores momentos nas redes sociais, as últimas imagens dela em Marte… Tudo aquilo conseguiu despertar um público que permanecia adormecido.
Realizou-se um pequeno funeral em Marte. Foram os robôs da Centinel que a enterraram.
Os habitantes da colónia organizaram-se em dois grupos, que saíram para o exterior e visitaram o túmulo de uma rapariga que quis viver uma aventura para a qual não estava preparada. Tudo foi transmitido.
Na Terra, decretaram-se vários dias de luto mundial. Milhões de pessoas demonstraram o seu carinho, deixando, nas ruas, flores, velas e cartas.
A sua morte provocou o desaparecimento da maior parte das mensagens de ódio que se tinham publicado contra ela. Os próprios autores as apagaram, ou por vergonha ou com medo de represálias. E todos os que até esse momento a tinham bombardeado com insultos se perguntavam, agora, como se chegara àquele ponto, por que motivo ninguém fizera nada para o evitar.
O mesmo ódio que acabou com a vida de Veruca dirigia-se agora contra o seu pai: não paravam de lhe chegar mensagens com insultos, ameaças de morte. A casa fora atacada em várias ocasiões, por isso, acabou por decidir fugir e viver num lugar perdido na Islândia, onde ninguém o conseguisse localizar. Abandonou todos os dispositivos eletrónicos: não tinha telemóvel, computador, televisão, nem mesmo cartão bancário. Não tinha qualquer objeto por onde o ódio pudesse escorrer.
Assim esteve durante algum tempo, a viver na invisibilidade, entre os rumores de pessoas que o tinham visto a deambular pela ilha, a passear perto das falésias, a tomar banho numa piscina ou a embebedar-se nos pubs com alguma acompanhante.
O seu protagonismo foi desaparecendo, até que, uns meses depois da morte de Veruca, foi notícia: um despiste de carro, uma saída de estrada. Morrera.
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