Terra
Capítulo 201
— Talvez tenha acabado de nos ajudar a resolver o jogo das chaves — disse-lhe, a sorrir.
— Não estou a perceber — respondeu a mulher.
— Bem…
Começámos a explicar-lhe os diferentes padrões surgidos durante o jogo. Entre eles, um relacionado com crianças órfãs e carrinhas amarelas.
— E onde fica essa quinta-escola? — perguntei.
— A cerca de duas horas daqui, em direção a sul. Fui lá uma vez, há muito tempo. Têm baloiços, animais, uma horta maravilhosa… Além disso, fazem gelados com o leite das suas vacas. Vou dar-vos a morada — disse, enquanto procurava um papel.
— E o que aconteceu à família? — questionei.
— Um dia, sem mais nem menos, foram-se embora. Não deram explicações, nem sequer se despediram… Aqui tem — disse-me, enquanto me estendia um papel com uma morada. — É aqui.
— Muito obrigada — respondi, entusiasmada, com a sensação alcançada quando se consegue organizar todas as peças de cor no cubo de Rubik, quando tudo começa a encaixar.
Despedimo-nos e rumámos a sul, em direção à quinta Erpsstaðir.
Depois de duas horas de viagem a atravessar parte da zona noroeste da Islândia, chegámos ao local. O complexo era formado por vários edifícios de diferentes tipos; no estacionamento exterior, havia duas carrinhas amarelas.
Estacionámos ao seu lado.
Mal saímos, à nossa esquerda, vimos um parque infantil com baloiços e uma espécie de insuflável gigante multicolor.
Por detrás desse parque, a cerca de cinquenta metros, havia mais construções; uma delas parecia um grande barracão cheio de quartos.
Continuámos a andar em direção à entrada principal e percebemos que se tratava de uma pequena geladaria, exatamente como a mulher nos dissera. Mal entrámos, surpreendeu-nos o facto de podermos ver as vacas. Estavam mesmo ao lado, como se o gelado saísse diretamente delas.
— O que desejam? — perguntou-nos uma rapariga que estava sentada com o telemóvel, absorta, sem sequer olhar para nós.
— Eu, um desses — disse o meu irmão, sorrindo-me e apontando para um gelado de baunilha.
— Eu quero um de morango — disse eu, e ambos sorrimos.
Preparou-nos os gelados e entregou-nos o recibo.
Então, o meu irmão pôs o dinheiro em cima da mesa, bem como a chave dourada. A rapariga olhou-nos, surpreendida. Recolheu o dinheiro.
— Esperem um momento lá fora…
Saímos e sentámo-nos a uma das mesas de madeira que se encontravam em cima de um estrado, um em frente ao outro, a observar a paisagem de um país que nos cativava. Passados poucos minutos, vimos uma mulher passar apressadamente junto a nós; levava uma criança pela mão.
— Olá, bem-vindos! — disse-nos, parando a alguns metros de distância.
— Olá! — respondemos.
— A pessoa que aguardam encontra-se fora neste momento. Saiu numa excursão com o resto dos meninos. Com todos, menos este — disse, a sorrir, enquanto olhava para o pequeno que levava pela mão —, que esta manhã caiu do baloiço e tem uma ferida que voltou a abrir e não pára de sangrar. Vou ver se lhe faço um curativo.
— Tudo bem. Nós esperamos — respondeu-lhe o meu irmão.
— Não devem demorar. Daqui a uma hora, ou coisa assim, estarão de volta. Enquanto esperam, podem pedir todos os gelados que quiserem. Estão convidados.
— Muito obrigado — dissemos.
Vimos a mulher e a criança afastarem-se para uma pequena cabana próximo, que tinha o símbolo de uma farmácia na porta.
Quanto a nós, ficámos ali a comer gelados, como na nossa infância.
Nesse momento, o meu irmão olhou para mim.
— Gosto de ti.
Foi assim, direto, breve, inesperado, um «gosto de ti» que estivera certamente guardado dentro dele durante muito tempo.
Silêncio.
Tirei outra colher de gelado.
Engoli-a.
Tremia-me a língua, a boca, e, num instante, também as palavras.
— Eu também gosto de ti, Alan — disse, tentando não chorar.
Olhámos um para o outro e soubemos que acabávamos de nos reencontrar.
Permanecemos ali durante quase uma hora, a olhar para a paisagem, até que, de repente, ao longe, vimos aproximar-se uma nuvem de pó. Era uma carrinha amarela, grande, quase um autocarro.
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