Terra
Capítulo 112
Já era tarde.
Decidimos dormir naquela cidade.
— Não fazia ideia dessa história das parecenças — referi ao meu irmão, enquanto nos dirigíamos ao hotel.
— A empresa tinha uma base de dados enorme, com milhões de rostos. Um programa encarregava-se de rastrear todas as redes e ia armazenando fotografias. Ao início, fazia-se assim, mas era complicado ter as imagens em três dimensões, com todos os gestos, expressões… por isso, pensaram nos castings. O investimento foi grande, mas os resultados, espetaculares. Melhorámos o processo e, hoje em dia, já não é preciso pedir os rostos aos utilizadores. Eles próprios no-los oferecem, sem saber.
— Como?
— Lançamos, simplesmente, aplicações daquelas que mudam a cara, que põem óculos ou bigode, que dizem como alguém será dali a alguns anos, e conseguimos milhões de fotografias sem mexer um dedo. Atualmente, setenta por cento dos rostos da população mundial estão armazenados. Assim, conseguimos afinar ainda mais a publicidade.
Olhei para ele, surpreendida.
— Com os rostos?
— Claro, analisando os rostos, pode obter-se um manancial imenso de informação. Às pessoas com rugas ou manchas na pele, podemos mostrar anúncios de cremes faciais específicos; às que usam óculos, lentes ou operações aos olhos; às louras, tintas para serem morenas; às morenas, tintas para serem louras; às carecas, não é preciso mostrar anúncios de champô, mas tratamentos para recuperar o cabelo; às pessoas de pele branca, protetores solares… As possibilidades são infinitas.
Chegámos ao hotel.
Jantámos qualquer coisa rapidamente, enquanto tentávamos compilar toda a informação de que dispúnhamos.
— Preciso de descansar algumas horas — disse-lhe, depois do jantar.
— Muito bem, vou fazer umas pesquisas. Quando descobrir alguma coisa, aviso-te.
— Combinado. Eu também vou pensar no assunto, a ver se consigo resolver mais um pouco deste quebra-cabeças.
Despedimo-nos no patamar que separava os dois quartos, um ao lado do outro.
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