Terra

Eloy Moreno · Capítulo 103 de 205

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Terra

Capítulo 103

Tratava-se de um cemitério de caravanas. Na sua maioria, desfeitas, sem rodas, escoradas em tábuas de madeira e tijolos. As mesas e as cadeiras estavam espalhadas em volta, como se acabasse de passar um furacão e os serviços da proteção civil ainda não tivessem chegado.

Caminhámos alguns metros, até encontrarmos um homem deitado numa espreguiçadeira. Vestia uma T-shirt que lhe estava demasiado apertada, deixando ver uma enorme barriga de gordura, como um balão prestes a explodir.

— Desculpe — disse o meu irmão, aproximando-se dele. — Procuramos Margaret, Margaret Fride.

— Ei, mi no entender, perguntem ali — respondeu-nos o homem, apontando para uma pequena caravana cor-de-rosa e azul.

Aproximámo-nos e batemos levemente à porta.

Apareceu uma mulher em camisa de dormir.

— Sim?

— Desculpe incomodar, mas andamos à procura de Margaret Fride.

— Ah, a Margaret, sim, a rica. Olhem, vão por ali, hão de encontrar uma caravana verde com uns vasos no tejadilho. É essa.

— Muito obrigada.

— Não tem de quê. — E a mulher ficou a observar-nos, enquanto nos afastávamos.

Depois de contornarmos umas chapas e um barco que ninguém percebia como poderia ter ido ali parar, encontrámos a caravana. Uma mulher estava a regar umas plantas no exterior. Quando nos viu, assustou-se.

— Olá — dissemos-lhe, a alguns metros de distância.

— Olá — respondeu-nos, afastando-se timidamente.

— É a Margaret Fride? — perguntei.

— Sim, a própria — respondeu, sem se aproximar.

— Bom, queríamos dar-lhe uma palavrinha.

— Não vão levar o meu filho! Estão a ouvir? Não o vão levar! Podemos viver aqui os dois — começou a gritar.

— Não, não — interrompi—, não queremos levar o seu filho. Viemos falar de outro assunto. Chamo-me Nel Miller, e este é o meu irmão, o Alan.

— Miller… São, são… os filhos do…

— Sim — disse, vendo a tensão desaparecer-lhe do rosto.

— Oh, lamento imenso tudo isto, toda esta trapalhada… Lamento, lamento…

Nesse momento, compreendemos a vergonha que começava a crescer no interior desta mulher. Sentimo-nos incomodados por ela.

— Lamento… — não parava de dizer.

— Não nos peça desculpa. Nós é que aparecemos aqui sem avisar.

— Bem, este não é o melhor lugar para vos receber.

— Não se preocupe. Serão apenas alguns minutos.

Sentámo-nos numas cadeiras à volta de um barril que fazia as vezes de mesa.

Explicámos-lhe o jogo das chaves e como tínhamos chegado a ela.

— E as pistas acabam aqui — referi.

— Mas não sei nada sobre chave nenhuma. Não sei como posso ajudá-los.

— Importa-se que lhe façamos algumas perguntas sobre a indemnização? — quis saber, pressupondo que o assunto poderia ser delicado.

— Não, claro que não. Foi por causa do acidente do meu marido, uma compensação económica.

— Mas é uma quantia elevada — interveio o meu irmão. — Faz ideia do motivo pelo qual lhe pagaram tanto?

— Não sei…

— Importa-se de nos contar o que se passou?

— Bem, não há muito que contar. O meu marido sempre trabalhou em construção, em obras que apareciam, biscates… Quando não andava nas obras, fazia o que podia. Não se importava de servir como empregado de mesa, de fazer reposições num supermercado, o que fosse preciso.

»Acontece que, um dia, o chamaram para lhe dar um trabalho em que ia ganhar muito dinheiro. O problema era não ser cá, tinha de ir para longe. Disseram-lhe que era num centro de segurança de dados, ou algo do género, que iam construir na Islândia.

— É verdade. Foi um investimento milionário. O que não percebo muito bem é o motivo de levar funcionários daqui, podendo contratá-los no local. O seu marido tinha habilitações em alguma área em particular? Algo que o tornasse imprescindível?

— Não, não, nada. Por isso, também estranhei. Era apenas um trabalhador das obras não especializado, mais nada. E, se quiserem saber a verdade, não era dos mais responsáveis. Despediram-no mais de uma vez por faltar ao trabalho, por chegar tarde ou mesmo por aparecer um pouco entornado — disse, envergonhada.

— Tudo isto é muito estranho. Não faz sentido. E o que se passou?

— Pensámos em várias hipóteses. Uma era ir viver para lá, mas eu tinha a minha vida aqui, e o meu filho também. Acabámos por decidir que iria apenas ele. Experimentava durante algum tempo, e logo se via. O vencimento era muito bom, e a empresa pagava-nos, a mim e ao meu filho, a viagem para a Islândia, para o visitarmos uma vez por mês.

— E o que fazia ele lá? — perguntei.

— O mais estranho era isso…

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