Terra
Capítulo 28
A vários países de distância, num quarto de um pequeno hotel, um homem permanece sentado na cama, a observar, com surpresa, o conteúdo de uma caixa que não compreende como chegou até ele. Uma caixa com dois objetos.
Pega num deles e aperta-o entre as mãos até conseguir sentir dor. Fecha os olhos e, no interior das pálpebras, aparece ela: ela com medo, ela pequena, ela em silêncio, ela a dar-lhe a mão… Lembra-se da lareira, do sofá, da caixa, do lume… e volta a ouvir um grito. Um grito que estilhaçou o silêncio de um bosque. Depois do grito, um pai a abrir a porta da cabana com violência, a pegar na irmã ao colo, a levá-la para o carro… Um carro que voou por cima da lama, em direção ao hospital.
Uma chave muito parecida com aquela que, anos antes, permaneceu pendurada ao seu pescoço, uma chave que lhe faz lembrar o dia em que tudo começou a desfazer-se: o visível e o invisível. O dia em que a desconfiança começou a devorar a convivência.
Pega no segundo objeto: um pequeno telefone, preto, simples. Olha para ele, espantado. Mantém-no durante alguns segundos na mão, até premir o botão de ligar.
O telefone ativa-se: não lhe pede palavra-chave, não há sistema de bloqueio. Mas, depois de ligado, apercebe-se de que há apenas dois ícones: o de chamada e o da lista de contactos.
Fica vários minutos a olhar fixamente para o ecrã, a tentar perceber o que se está a passar, de quem é aquele telefone e por que razão deveria ver os contactos de um telemóvel que não é seu.
Acede à lista: há apenas um contacto guardado, sem nome.
Deixa o telemóvel em cima da mesa e deita-se no sofá.
Permanece assim, a olhar para o teto, em silêncio, a pensar em quem poderá estar do outro lado, com aquele número. Os minutos passam…
E, depois de quase duas horas perdido num enxame de dúvidas, toma uma decisão.
Pega no telemóvel e prime o botão de ligar, perguntando-se se a pessoa que irá atender, do outro lado, será real ou apenas um fantasma.
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