Terra

Eloy Moreno · Capítulo 181 de 205

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Terra

Capítulo 184

No ecrã, vê-se um grande iate.

Em volta, apenas o mar.

O sol desenha um céu cor de laranja: está a anoitecer.

No convés, cinco homens e três mulheres divertem-se.

Um deles, o mais novo de todos, toma o lugar de DJ improvisado, enquanto os restantes dançam.

Mudança de plano, e na imagem veem-se, agora, o capitão e os tripulantes na cabina. Estes servem-se de pequenos canapés que o próprio cozinheiro lhes oferece.

Como se deduz pelas conversas, parece que já se encontram há vários dias no mar, rumo a uma pequena ilha que é propriedade do mesmo homem a quem pertence a embarcação.

Passam os minutos entre gargalhadas, álcool e música, até que a câmara regressa ao capitão cujo semblante se alterou: olha para o painel de controlo, preocupado. Uma bomba de extração ativou-se, o que indica que a embarcação está a meter água. Pede a um dos tripulantes para ir lá abaixo ver o que se está a passar.

— Conseguiste identificar o problema? — pergunta o capitão ao tripulante, quando este regressa.

— Uma das válvulas de fundo soltou-se.

— Como é possível? — pergunta o outro tripulante, o mais novo.

— Apesar de ser um barco maravilhoso, não teve manutenção. É o que acontece com estes tipos ricos: compram coisas por capricho e depois não cuidam delas — responde o capitão.

— E agora?

— É preciso informar o dono quanto antes — responde o capitão, com calma.

É um dos tripulantes que, dissimuladamente, vai procurar um multimilionário de meia-idade, bem-parecido, em forma e arrogante.

 

— Lamento informá-lo, mas temos um problema — diz o capitão, já na cabina. — O barco está a meter água. Vamos tentar resolver o assunto, mas também estamos em condições de lançar um pedido de socorro.

— O quê? Agora? — protesta o homem, já toldado pelo álcool. — Estamos a divertir-nos à grande e… aqui entre nós, já tenho aquela loura no papo. Não, temos de chegar à minha ilha de manhã. Tenho de a mostrar aos meus amigos.

— Compreendo, mas o barco está a meter água… — insiste o capitão.

— Mas não podem arranjar foma de tapar o buraco? — interrompe o homem.

— Bem, sim, podemos tentar, mas, se virmos que não conseguimos…

— Tente — insiste o dono do barco. — Vá lá, tente. E peço-lhe que não comente o assunto com ninguém. Não quero que os meus amigos se assustem. — E, assim, dando-lhe uma palmada nas costas, afasta-se para continuar a farra.

O capitão fica preocupado, mas, por enquanto, não emite o sinal de aviso. Em vez disso, diz à tripulação que procure um dos cones de madeira que se utilizam para bloquear aberturas no casco. Finalmente, encontram um, mas é demasiado pequeno. Ainda assim, adaptam-no como podem, recorrendo a um pano.

O iate continua a navegar em direção à ilha, no meio de uma noite que os vai engolindo.

A festa continua também, e o álcool, e as drogas.

Uma das mulheres, já bastante embriagada, despe-se completamente e deita-se de costas numa espreguiçadeira; as outras duas imitam-na.

A música está cada vez mais alta.

Um homem e uma mulher fazem amor ali, à frente de todos.

Outra mulher grava a cena com o telemóvel.

Durante quase três horas, tudo parece estar controlado, até que, de repente, surge outro sinal de alarme: uma segunda bomba de extração entra em funcionamento. O barco está a meter mais água.

O capitão manda um dos assistentes lá abaixo, para ver se o cone que tinham adaptado de forma improvisada ainda se encontra no seu lugar. Sabe que devia fazer um pedido de socorro, mas, mesmo assim, decide comunicar a situação ao dono da embarcação.

Este chega, irritado e sob o efeito do álcool.

— O barco está a meter mais água — anuncia o capitão, com um semblante sério.

— E não o consegue tapar melhor, pôr mais qualquer coisa? — pergunta o homem, que, de copo na mão, tenta manter o equilíbrio.

— É o que estamos a fazer. Improvisámos um tampão, mas parece que não resultou. Acho que está na altura de fazer o pedido de socorro.

— Escute, capitão — riposta o homem, apontando para ele com o dedo da mão que não está ocupada com o copo—, este barco é meu, e estes são os meus convidados, gente com muito, muito poder. Estamos a divertir-nos loucamente, e não vai ser o senhor a estragar a festa agora. Quanto falta para chegarmos à ilha?

— Cerca de cinco horas. Segundo as previsões, íamos chegar mesmo antes de amanhecer.

— Cinco horas? Isso não é nada. Não consegue bloquear a fuga durante cinco horas? Continue rumo à ilha e, quando lá estivermos, arranjamos o que for preciso. É uma ordem! — grita, enquanto toca na parte direita da cintura, deixando claro o que traz consigo. — Não me obrigue a utilizar isto…

O homem volta para a festa, avançando aos tropeções.

— Vamos tentar bloquear a fuga como pudermos. A ilha fica a apenas cinco horas — diz o capitão, de forma suave, para acalmar uma tripulação que não está habituada a ser ameaçada com armas.

E, assim, entre álcool, cocaína e sexo, o grupo vai adormecendo no interior de uma noite que será longa.

O capitão hesita. Poderia lançar já o pedido de socorro, mas, entre os seus clientes, há, pelo menos, um homem com uma pistola, que, além disso, está ébrio. Prefere não correr o risco. Vai tentar chegar à ilha.

A solução temporária parece estar a funcionar, até que, quatro horas mais tarde, os tripulantes informam o capitão de que a água começou a entrar de forma descontrolada.

Apenas dez minutos depois, produz-se um apagão total no barco. Ficam às escuras no meio do nada.

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