Terra
Capítulo 44
— Olá, Nel — disse-me, quase sem olhar para mim.
— Olá, Alan — respondi, com a voz sumida.
Levantei-me e estendi-lhe a mão, apenas. Nesse dia, cumprimentei o meu irmão como quem cumprimenta o vendedor que lhe bate à porta.
Entre os nossos rostos, havia mais de dez anos de distância, dez anos sem sabermos diretamente um do outro, dez anos de intenções.
— Como estás? — perguntou.
— Bem, bem… E tu? — Desviei a pergunta, porque, da última vez que ma fizera, fora-me abaixo.
— Eu? Bem. Agora, longe de tudo. Na verdade, já tinha deixado a empresa há uns anos, quando foi a história do concurso. Aquilo mudou tudo. Fez-me equacionar quão breve a vida pode ser… Larguei tudo.
— Ah, não sabia disso… — As suas palavras apanharam-me de surpresa. A sua saída da empresa não aparecera em qualquer jornal; uma notícia como essa teria sido capa.
— Já estava farto de ser o alvo da maior parte das críticas com que não tinha nada que ver, simplesmente por ter o pai que tinha. Os ataques, os insultos, as ameaças… tudo o que não podia alcançar o destinatário final chegava-me a mim.
Silêncio. Ficámos a olhar para o vazio, até que ele voltou a falar.
— Reparaste aqui na terra? Tudo mudou, mas também parece tudo na mesma.
— Sim… — respondi, enquanto procurava cada pormenor, cada um dos momentos que ali vivera.
— E lembras-te do parque? — perguntou, apontando para fora, pela janela.
— Sim, claro que me lembro. — Exibiu-me um leve sorriso, enquanto olhava para o outro lado da rua, uns pórticos apenas adiante.
— Tenho a certeza de que, se sairmos agora daqui e formos procurar a árvore, a terceira à…
— … à direita — terminei, instintivamente.
— Sim, essa. Lembras-te? — Sorriu-me. — De certeza que, se escavássemos um pouco, ainda encontrávamos aquele saco com tesouros.
Os nossos tesouros: o seu carrinho de plástico, a minha boneca com um vestido azul, a sua moeda de prata, uma das minhas capas de super-heroína, a carta que me escreveu quando caí da casa da árvore e estive uns dias no hospital… E, ao recordar tudo isso, ali, apercebi-me de que não ia aguentar muito mais as lágrimas. Desde que entrara por aquela porta, tentara contê-las, naquele pequeno espaço que se situa entre a pálpebra e a vergonha… Acabámos por ser salvos pelo dono do estabelecimento.
— Olá, malta! Trago-vos o que pediram — disse-nos, enquanto me piscava o olho.
Pousou a bandeja em cima da mesa e deixou ao meu lado um gelado com duas bolas: morango e banana, com chantilly e duas bolachas, o mesmo gelado que eu pedia quando lá ia com o meu pai, às sextas-feiras à tarde. Ao meu irmão, deixou um gelado com duas bolas de baunilha e um chocolatinho.
Rimo-nos.
— Não consegui arranjar os mesmos chocolates da carinha sorridente. Acho que não os fazem há anos, mas, enfim, espero que este sirva — disse, enquanto lhe punha a mão no ombro e voltava para o balcão.
Eu e o meu irmão olhámo-nos de novo, com os gelados à nossa frente, como naqueles anos em que ele procurava o momento certo para me surripiar uma das duas bolachas sem que me apercebesse. Vi nos seus olhos a intenção de o fazer.
Por alguns instantes, concentrámo-nos em comer os nossos gelados, sem olhar um para o outro, talvez em busca das memórias no sabor de cada colherada.
— Parece que temos de voltar a jogar — disse ele, quebrando de novo o gelo.
— Não sei se quero — respondi, sem erguer o olhar.
— Claro que queres… é por isso que aqui estás.
Continuámos a comer em silêncio, até que o dono do estabelecimento regressou e conseguiu que a conversa acabasse, cicatrizada pelo silêncio.
— Quanto te devemos? — perguntou o meu irmão.
— Só podes estar a brincar. Nada, absolutamente nada. Vão até à cabana? — perguntou.
— Sim, talvez comecemos por aí — replicou o meu irmão.
— Nesse caso, devo dizer que o caminho já não se encontra como dantes. Foi-se degradando com os anos. É impossível ir num carro normal, muito menos num como os vossos. É preciso um todo-o-terreno dos potentes.
— Bolas — respondeu o meu irmão. — Não tínhamos pensado nisso. Sabes onde podemos alugar um?
— Bem, podem sempre usar aquele ali — disse, apontando para um todo-o-terreno novo.
— O vermelho? É teu?
— Meu? — Sorriu. — Não, não. Bem que gostava. Acho que é vosso.
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