Terra
Capítulo 42
Como esquecer o primeiro amor de uma vida? Como esquecer o primeiro beijo? Aquele que sabe a nervosismo, a gelado e a medo. Aquele que se dá sem se saber muito bem como começou. Esse amor adolescente que nos faz desejar que o Sol nasça antes do amanhecer e que a noite nunca chegue, para não ser preciso voltar para casa.
Mudara fisicamente, contava uns quilos a mais e menos cabelo, mas continuava a ter o mesmo sorriso pelo qual um dia me apaixonara. As nossas mãos entrelaçadas no parque, o primeiro amo-te e o segundo e o terceiro…
Quando entrei, ficou a olhar para mim. Demorou alguns segundos a reagir, o tempo de a mente lhe lembrar que há muitos anos os nossos corações tinham chegado a tocar-se.
— Tu! És tu, Nelly! Mas que surpresa — gritou. E as poucas pessoas que havia no estabelecimento viraram-se para olhar. — Não posso acreditar! Nelly! Estás aqui!
E lançou-se na minha direção para me dar um abraço daqueles a sério, dos que se dão com os próprios ossos.
— Que alegria ver-te! Mas o que fazes por aqui?
— Bem, é por causa do meu pai… Imagino que já saibas… — De facto, foi um reparo absurdo. Quem, por esta altura, não saberia do suicídio de um dos homens mais poderosos do planeta? — Vim tratar da papelada e dessas coisas…
— Lamento imenso pelo que se passou… Foi um duro golpe para quem vive aqui. Na verdade, há muita gente que ainda não recuperou, com tudo o que lhe devemos, com tudo o que fez por nós, por este sítio…
— Por vocês? — perguntei, surpreendida.
— Sim, claro. Se não fosse ele, nenhum de nós teria continuado aqui. A maioria das famílias teria partido. Lembras-te da empresa de transportes, a dos camiões?
— Sim, claro. Praticamente metade das pessoas daqui vivia daquela empresa.
— Pois, quando os carros autónomos começaram a funcionar, todos sabíamos que seria uma questão de tempo até virem os camiões autónomos. E assim foi. A empresa começou a despedir os condutores, pois os trajetos que faziam eram sempre os mesmos, conseguiram automatizá-los… Já não era preciso tanto pessoal, apenas camiões. Praticamente todos os condutores foram para o desemprego, e com eles todas as empresas que lhes davam trabalho… Lembras-te de como isto era de manhã?
— Claro que me lembro. Havia fila.
— Ora, de um dia para o outro, a povoação ficou sem nada. Felizmente, o teu pai tomou conhecimento e, quando começou aquela história toda do concurso de Marte, decidiu trazer várias fábricas de componentes para aqui. Aquilo salvou-nos: em apenas dois anos, a população duplicou. Não encontras aqui uma única pessoa que diga mal dele. Tudo o que vês à tua volta existe graças ao teu pai.
— Oh, não sabia de nada — respondi, admirada.
— Pois… ele disse-me que não se davam muito bem, que não falavam há muito tempo… mas, enfim, isso era lá convosco. Mas falava-me sempre de ti, e também do Alan, que… seguramente… Como está ele?
— Bem, a verdade é que não o vejo há muito tempo, mas combinámos encontrar-nos aqui.
— O quê? Meu Deus! Que bela notícia. Vou ter-vos aqui outra vez, juntos — voltou a gritar.
— Sim, e tu? Como estás? Como corre a vida? — perguntei, tentando desviar a conversa para um tema que não fosse a minha relação com o meu irmão.
— Certamente, a minha vida não foi tão apaixonante como a tua, nem de longe. Casei com a Mira, lembras-te?
— A Mira! Claro que me lembro.
— Sim, o amor da minha vida… Foi o que pensei na altura, mas, claro, quando não há muitas mulheres da nossa idade em volta, podemos enganar-nos, dizendo que é o amor da nossa vida, embora aquela que realmente amei tenha partido…
Nesse momento, percebi o que significara para ele, que, de facto, naquela tenra idade, tínhamos estado muito apaixonados.
— Tivemos dois filhos — continuou —, mas a coisa não funcionou: demasiada rotina. A relação tornou-se tóxica.
Notei que o rosto se alterou: pela primeira vez desde que começáramos a conversar, ficou triste.
— Na verdade, passei quinze anos atrás deste mesmo balcão. Acho que saí desta terra duas ou três vezes… Que paradoxo, não achas? Há pessoas que vão viver para Marte, e eu nem deste lugar saí… Enfim… Mas… e tu? Como foi a tua vida?
— Nunca casei, ninguém me conseguiu aturar.
— Eu ter-te-ia aturado. — Sorriu. Sorrimos.
Um silêncio incómodo intrometeu-se entre nós.
— E filhos?
— Filhos? — Sorri. — Não, não tive tempo…
Ia acrescentar que sim, que teria gostado de ter filhos, que teria gostado de ser mãe, que durante muito tempo tentei, que quase fiquei obcecada, mas que não resultou. Enfim, a Natureza não quis que resultasse. Ele ter-me-ia dito que ainda era nova, que podia tentar… e teríamos tido uma conversa desconfortável, pelo que decidi não dizer nada. Percebeu e mudou de assunto.
— O importante é estares aqui. Incrível! Diz-me o que queres tomar.
— Apenas um café.
— Só um café?
— Sim, obrigada.
— E os gelados? Que tal um daqueles gelados? — Sorriu-me, enquanto se punha atrás do balcão.
Sentei-me à mesa de sempre, a de canto, aquela da qual se podiam ver perfeitamente as duas ruas. E, de longe, observei-o enquanto atendia outro cliente; imaginei como teria sido a minha vida com aquele amor de infância…
Estava eu no meio destes pensamentos, quando a porta se abriu e ele entrou. Vi que também abraçava o meu velho amor. Estiveram alguns minutos a falar, a rir, como se se tivessem visto mais vezes durante os últimos anos, algo que o meu irmão depois me confirmou.
Finalmente, pediu-lhe qualquer coisa e dirigiu-se a mim.
Comecei a ficar nervosa, muito nervosa.
Eu, que entrevistara mafiosos, traficantes de todo o tipo, homens tão poderosos quanto perigosos, agora, a pessoa que mais receava que se aproximasse de mim era o meu próprio irmão.
Tirei o anel do dedo e escondi-o no bolso.
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