Terra
Capítulo 171
Felizmente, a colónia encontrara um ponto de equilíbrio que quase já não trazia surpresas.
Terra desenvolvia-se de uma forma normal. Dia após dia, ia interagindo um pouco mais com o resto dos habitantes.
Cada um assumira o seu papel.
O Jardineiro estava a conseguir que as plantas crescessem; era um grande progresso, pois, como um dia referiu ao resto dos companheiros, dentro de muito pouco tempo, poderiam consumir os seus próprios alimentos, algo indispensável para serem autossuficientes em Marte.
Andrea continuava igual: durante a maior parte do tempo, permanecia em frente ao computador. A sua atitude para com os outros era correta, mas nunca chegou a relacionar-se muito com ninguém, à exceção, claro, da bebé. Criara um laço estranho com Terra, como se, de alguma forma, quisesse adotar o papel de irmã mais velha.
Miss e a Doutora tinham-se tornado muito amigas desde o nascimento de Terra. Ambas cuidavam dela, mas de uma forma diferente. Por vezes, parecia que a mãe da criança era a Doutora, pois era quem mais brincava com a menina, quem mais tomava conta dela. Não é que Miss não fizesse o mesmo também, não era isso, mas, muitas vezes, parecia que o seu principal objetivo era usá-la nas redes sociais. Não se pode esquecer que, depois de ter sido mãe, Miss se tornara a pessoa com mais seguidores no mundo.
No seu canal, mostrava cada pequeno progresso de Terra, cada olhar, cada sorriso, cada gatinhar. Percebera que, quando aparecia numa fotografia com a menina, os gostos multiplicavam-se.
O Mãozinhas continuava sem se sentir à vontade naquele lugar. Não se tinha adaptado. Era quem mais saídas ao exterior fazia, sempre acompanhado por alguém da Centinel ou por John.
Essas saídas constituíam um ligeiro bálsamo contra a sua angústia interior. Era a pessoa que menos dúvidas tinha de que, caso a possibilidade de regressar se apresentasse, voltaria ao seu planeta.
No que diz respeito às relações íntimas entre os participantes, depois do nascimento de Terra, Miss voltou a ter sexo regular com o Mãozinhas, mas com proteção. Em contrapartida, o Jardineiro esqueceu-se da modelo e dedicou-se por completo às plantas.
John também visitava de vez em quando o quarto da Doutora, e vice-versa. Tinham desenvolvido uma relação especial; talvez, de início, não houvesse amor, mas no fim…
Frank nunca tentou nada com ninguém. Bastava-lhe ter de travar a sua batalha interior: aquela em que todos os dias tentava domar os seus pensamentos.
E Andrea… Andrea nunca se interessou por esse assunto.
À medida que a menina crescia, toda a gente procurava parecenças. Alguns diziam que tinha certos traços do Mãozinhas, outros que certas expressões faciais eram idênticas às do Jardineiro. Quase ninguém falava de Marcus. O assunto tornara-se tabu.
Procuravam-se características comuns, feições, gestos, um ou outro sinal no corpo, mas não se encontrou nada de conclusivo. Tentou-se comparar a cor dos olhos de Terra à dos possíveis pais, mas não foi possível encontrar a mais pequena semelhança. Parecia que tinha os olhos de cores diferentes.
O Mãozinhas e o Jardineiro nunca chegaram a acalentar um sentimento de paternidade pela menina. Cada um deles tinha uma hipótese em três de a criança ser sua filha, e talvez isso os fizesse sentir carinho por ela, mas não ao ponto de amarem uma filha que podia não o ser.
*
Relativamente aos três astronautas da Centinel, continuavam o trabalho de expansão das instalações. Marcus nunca se aproximou da colónia. Os outros dois faziam-no esporadicamente, para realizar saídas ao exterior ou em face de algum incidente pontual que exigisse a sua presença.
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