Terra
Capítulo 20
O funeral esteve à altura do que fora a sua vida. Como aquando da sua despedida, foi preciso criar um perímetro de segurança à volta do cemitério, para controlar as pessoas que se haviam aproximado para lhe dizer adeus: chefes de governo, monarcas, ditadores, empresários, os principais vencedores dos seus concursos… e milhares de cidadãos anónimos, que, movidos pela curiosidade e pela morbidez, também compareceram.
O carro funerário chegou à entrada principal do cemitério e ali, sob um manto de nuvens escuras, quatro pessoas pegaram no caixão para o transportar em ombros.
Desde a morte do meu pai até ao enterro do cadáver, em momento algum foi permitido ver o corpo. As explicações foram claras: tinha a cabeça completamente desfeita devido ao disparo.
O enterro foi transmitido em direto, como ele teria desejado, com anúncios a aparecer de forma ininterrupta na parte de baixo do ecrã, onde cada uma das empresas — mediante pagamento — expressava as suas condolências.
A marca do carro, a multinacional têxtil responsável pelo fabrico de um fato que ninguém viu, uma das floristas mais prestigiadas… Que empresa não pagaria para aparecer frente a milhões de espectadores? Até no seu enterro, o meu pai conseguiu ganhar dinheiro.
Depois de percorrer uma das alamedas principais do cemitério, chegaram a um pequeno jardim; ali, desceram lentamente o caixão e introduziram-no no panteão familiar, para que ficasse junto do cadáver da minha mãe.
É curioso o destino, pois, agora, na morte, os seus ossos estariam mais perto do que os seus corações alguma vez haviam estado.
A partir desse dia, o túmulo permaneceria protegido dia e noite, pois receava-se que fosse alvo de atos de vandalismo: nem com os mortos o ódio sossega.
Depois de umas breves palavras de despedida, deu-se a cerimónia por terminada, momento em que os jornalistas que assistiam se digladiaram para obter uma declaração por parte das pessoas que lhe eram mais próximas.
Eu sabia que, durante todo o funeral, a imprensa me iria procurar: uma fotografia minha lavada em lágrimas teria sido capa de qualquer jornal, mas não conseguiram. Não por não ter chorado, o que aconteceu, mas porque decidi não assistir ao enterro. Vi tudo a partir de casa.
Senti-me culpada por não ter sido capaz de o amar mais. Talvez se tivesse tentado compreender a sua personalidade, se tivesse tentado aproximar-me dele, se lhe tivesse perdoado…
Desliguei a televisão, apaguei as luzes e fechei os olhos.
Refugiei-me entre as recordações que não tive e as que gostaria de esquecer.
— Adeus, papá — disse-lhe, em silêncio.
Nunca imaginei que, passados poucos dias, ele voltaria a aparecer na minha vida… na nossa vida.
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