Coleção Netter de Ilustrações Médicas – Volume 3: Sistema Respiratório
Silicose
FIGURA 4-104
A silicose é uma doença fibronodular crônica e difusa do interstício pulmonar causada pela inalação de partículas cristalinas de sílica (dióxido de silicone [SiO ]). As partículas devem apresentar um tamanho respirável 2
(0,2-10 μm de diâmetro aerodinâmico) para atingir o espaço aéreo do pulmão. A atividade biológica da sílica é atribuível a grupos silanol e outras espécies quimicamente reativas na superfície do cristal, e não por seu formato típico ou bordos agudos. O mineral deve estar na forma cristalina, porque o vidro (sílica amorfa não cristalina) é essencialmente atóxico na forma esmagada, de pó ou fibrosa. A sílica mineral é abundante na natureza, seja como quartzo puro, seja misturado em rocha ígnea com outros materiais; enquanto a areia da praia é quartzo puro, o granito contém 10% a 15% de sílica livre cristalina. A exposição à sílica respirável deve ser substancial e prolongada para causar uma doença pulmonar clinicamente significativa.
A silicose geralmente se apresenta na forma de uma doença pulmonar difusa crônica, com vários pequenos nódulos preferencialmente em zona pulmonar superior, evoluindo de forma lenta com o passar de anos ou décadas. Essa forma é denominada silicose crônica simples. Ela pode progredir para uma doença mais extensa com a coalescência dos nódulos em massas conglomeradas com fibrose circundante e enfisema por tração. O estágio mais avançado pode ser denominado fibrose progressiva maciça (FPM). Níveis extremamente elevados de exposição podem causar uma forma aguda e geralmente fatal de silicose acompanhada de vazamento de lipídios do surfactante alveolar e detritos proteináceos, uma rara condição chamada silicose aguda ou silicoproteinose. Uma forma intermediária denominada silicose acelerada pode desenvolver-se em 2 a 5 anos se a exposição for intensa.
Patologia
A patologia da silicose demonstra uma lesão característica, o nódulo silicótico, encontrado no tecido pulmonar e nos linfonodos de drenagem. Essa lesão tem início como uma pequena coleção de macrófagos (muitos contendo partículas de poeira fagocitadas), linfócitos e fibroblastos; essa lesão inicial geralmente se localiza próximo aos bronquíolos respiratórios. Espirais de colágeno tipo I e outras proteínas da matriz se acumulam no centro conforme os nódulos vão-se dilatando, com um bordo externo de células mononucleares e fibroblastos proliferativos. Neutrófilos e eosinófilos não são abundantes. Os nódulos coalescem gradualmente, e os processos fibróticos se estendem para infiltrar os tecidos vizinhos. Finalmente, uma calcificação distrófica pode ser encontrada dentro das massas conglomeradas maiores e nos linfonodos hilares e mediastinais. Em geral, as partículas minerais de sílica são abundantes dentro dessas lesões e podem ser visualizadas na microscopia sob luz polarizada ou pela análise elementar com microscopia por rastreamento de elétrons e espectrometria de dispersão de energia.
Características clínicas
Pacientes com silicose experimentam falta de ar gradualmente progressiva aos esforços e tosse, algumas vezes com escarro claro ou esbranquiçado. O exame físico pode ser normal, ou estertores inspiratórios finais de volume alto podem ser ouvidos sobre as áreas médias do pulmão. O baqueteamento digital é muito raro na silicose. Sinais de cor pulmonale (acentuação da segunda bulha, edema periférico) podem ser manifestações tardias da doença avançada. No início da silicose, a radiografia de tórax demonstra pequenas opacidades arredondadas, com predominância pelas zonas média e superior (classificação da Organização Internacional do Trabalho p/q opacidades, profusão 1/1-2/1). A silicose mais avançada inclui opacidades disseminadas com alguma coalescência, dilatação de linfonodos hilares e mediastinais e calcificação periférica em “casca de ovo” desses linfonodos. Não se observam espessamento pleural extenso ou calcificações pleurais, embora alguns nódulos possam ter origem em sítios subpleurais. A tomografia computadorizada (TC) de alta resolução (cortes finos) é útil na revelação desse padrão e pode apresentar uma doença mais extensa do que se suspeita nas radiografias frontais simples. As características radiológicas da silicose podem ser mais contundentes do que as queixas do paciente ou as anormalidades da função pulmonar. Os testes de função pulmonar demonstram um padrão de fisiologia restritiva e obstrutiva mistas, comumente com dessaturação do oxigênio quando da realização de esforço. Não há um tratamento efetivo para a silicose; ela deve ser prevenida por medidas industriais de higiene. A silicose crônica deve ser tratada de modo sintomático, com oxigenioterapia e alívio das infecções intercorrentes.
FIGURA 4-105
Exposição no local de trabalho Trabalhadores podem ser expostos à poeira da sílica em uma variedade de ambientes industriais onde o uso de maquinários produz diversas partículas diminutas. Um tema comum envolve a perfuração onde o trabalho ocorre, em um espaço confinado que pode ser mal ventilado, como rochas contendo sílica na extração de minerais (mineração), pedras (extração) ou perfurações para criar passagens (túneis). A escultura de pedras para a criação de monumentos, túmulos ou estátuas pode gerar quantidades substanciais de poeira aerotransportada. A areia da sílica é utilizada para criar abrasivos, jateamento de areia e materiais para lixamentos e polimentos. O jateamento abrasivo utilizando areia para corroer ou o jateamento abrasivo sem sílica contra pedras com superfície de sílica também podem provocar silicose. Ferramentas de afiamento (esmeril para tesouras) ou a limpeza de moldes de materiais forjados com abrasivos contendo sílica podem produzir exposições substanciais.
A silicose causada por mineração, extração de pedras, esmerilhamento de ferramentas e atividades similares geralmente podem ser reduzidas a níveis de segurança através de medidas vigilantes para a higiene industrial (extração do ar, aspersão de água sobre as superfícies de corte, jateamento abrasivo em câmaras isoladas, equipamentos de proteção respiratória e fontes independentes de ar limpo). Trabalhadores envolvidos na produção de abrasivos, pó de vidro e, particularmente, a farinha de sílica (pó de sílica finamente dividida) podem experimentar exposição significativa e desenvolver silicose. A farinha de sílica é amplamente utilizada como um agente aditivo, absorvente e de aumento de volume ou como um abrasivo em muitos produtos como tintas, plásticos, pastas de dente e detergentes. Medidas de controle, bem como regulação e vigilância das exposições à sílica, são os principais motivos para o declínio do número de casos e mortes causados pela silicose nos Estados Unidos e em outras nações industrializadas nos últimos 70 anos. A silicose ainda é comum nos países em desenvolvimento, onde as indústrias extrativas estão crescendo e os equipamentos são utilizados mais amplamente, mas a proteção dos trabalhadores e a higiene industrial permanecem limitadas. A United States Occupational Safety & Health Administration (OSHA) e a Mine Safety Administration (MAS) estabeleceram um Limite de Exposição Permissível (LEP) para uma média ponderada de 8 horas para quartzo cristalino com menos de 0,10mg/m3; níveis entre 0,05mg/m3 e 0,10mg/m3 foram fixados para a maioria das nações.