Coleção Netter de Ilustrações Médicas – Volume 3: Sistema Respiratório

Estenose laríngea e traqueal

O carcinoma de células escamosas é o tumor maligno mais comum da laringe. Esses tumores variam de bem diferenciados, tumores de baixo grau como o carcinoma verrucoso – que pode ser tratado somente com excisão cirúrgica e traz um excelente prognóstico – a pouco diferenciados, carcinomas de alto grau que têm um prognósitco ruim devido à sua agressividade e ao tratamento multimodal. A localização do tumor também tem implicações importantes. Os cânceres glóticos, que surgem a partir das pregas vocais, são frequentemente diagnosticados em fase inicial porque mesmo as pequenas lesões causam rouquidão sintomática. Também apresentam uma taxa relativamente baixa de metástase para sítios linfáticos regionais ou locais distantes. Em contraste, cânceres supraglóticos, que surgem a partir da epiglote ou das pregas vestibulares, frequentemente são diagnosticados em um estágio mais avançado quando o tumor é grande o suficiente para causar disfagia sintomática ou obstrução das vias respiratórias. Os cânceres supraglóticos têm uma alta taxa de envolvimento dos linfonodos regionais e são mais propensos a metastizar para os pulmões ou outros locais distantes. Os cânceres subglóticos são raros, mas carregam um prognóstico relativamente ruim. O tabagismo prolongado e o consumo de álcool são os fatores de risco mais importantes para o câncer de laringe, com potente efeito sinérgico.

 

Estenose laríngea e traqueal

FIGURA 4-12

A anatomia exclusiva e os tecidos delicados da laringe e da traqueia predispõem esses locais a cicatrizes e estenose em resposta à lesão. Algumas das causas mais comuns incluem intubação endotraqueal prolongada, traqueostomia em longo prazo, infecção bacteriana ou viral, condições inflamatórias sistêmicas, neoplasia e trauma. Em muitos casos, a estenose é uma sequela relativamente tardia do processo patológico inicial e pode não ser identificada até progredir a ponto de comprometer de modo sintomático as vias aéreas (estridor ou dispneia) ou a função da laringe debilitada (rouquidão).

A estenose da laringe pode ocorrer em qualquer nível no interior da laringe. A estenose supraglótica e glótica geralmente resulta de um trauma externo ou de uma intubação prolongada, mas também é vista naingestão de cáusticos, queimaduras por inalação e formação de cicatriz pós-cirúrgica. A estenose subglótica é a forma mais comum de estenose de laringe. A intubação endotraqueal prolongada pode danificar o pericôndrio interno fino da cartilagem cricoide, levando a cicatrização circunferencial e formação de cicatriz. No longo prazo, os tubos de traqueostomia também podem causar estenose subglótica como resultado de uma migração superior do tubo e subsequente destruição do anel cricoide. Outras causas comuns de estenose subglótica incluem refluxo faringolaríngeo, granulomatose de Wegener e uma forma congênita vista em crianças jovens. Quando uma causa específica não pode ser identificada, é utilizado o termo estenose subglótica idiopática (ESI). É provável que muitos casos de ESI sejam causados, pelo menos em parte, por refluxo faringolaríngeo e desordens autoimunes não reconhecidas.

A estenose traqueal é uma sequela potencialmente devastadora da intubação endotraqueal prolongada e da traqueostomia em pacientes com insuficiência respiratória que necessitam de tubos com cuff para ventilação mecânica. Nas paredes traqueais anteriores e laterais, os vasos sanguíneos verticais que cursam entre a mucosa e os anéis cartilaginosos podem ser facilmente comprimidos pelo cuff ou por balão distendido. O suprimento sanguíneo diminuído leva a pericondrites, necrose avascular e fragmentação da cartilagem traqueal. O estreitamento resultante frequentemente tem uma configuração triangular na seção transversal anterior, por causa do enfraquecimento anterior do arco cartilaginoso com o colapso da parede lateral. Posteriormente, a traqueia membranosa é mais maleável, e o suprimento vascular é menos suscetível de ser comprimido. Assim, em aproximadamente 50% dos casos de estenose por balão pós-intubação ou pós-traqueostomia, a parede traqueal posterior é poupada.