Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Seção 1: Desenvolvimento normal e anormal

S E Ç Ã O 1

 

Desenvolvimento normal e anormal

FIGURA 1-1

Características iniciais do sistema nervoso:

 

o embrião aos 18 dias

Após a fertilização e implantação, o embrião consiste em camada celular

única chamada de massa celular interna ou embrioblasto. A massa celular

interna assenta-se ao fundo de uma cavidade cheia de fluido definida pela

membrana-chave extraembrionária, o âmnio. Embaixo do embrião há outra

cavidade, o saco vitelino, revestido por uma camada de células, chamada

hipoblasto embrionário, algumas das quais irão formar a alantoide, uma

membrana extraembrionária adicional. As células da massa celular interna

que se encontram imediatamente adjacentes ao hipoblasto constituem uma

segunda camada embrionária, chamada epiblasto, que formará a maior parte

do embrião. Nesse ponto do desenvolvimento, aproximadamente 18 dias

após a fertilização/implantação, as células do epiblasto definem o disco

embrionário. Uma vez formado, o disco embrionário passa por uma série de

movimentos celulares referidos coletivamente como gastrulação. O

movimento principal é a proliferação local, acúmulo e ingresso das células

do epiblasto que primeiramente formam o nó primitivo (ou nó de Hensen),

então a linha primitiva, que define o eixo da linha média do embrião. As

células que migraram para “dentro” do embrião a partir do nódulo

primitivo, interposto entre o epiblasto e o hipoblasto, coalescem para

formar uma camada celular distinta chamada mesoderma. Sua posição de

camada “média” (meso) do embrião define as células remanescentes do

epiblasto em cima dessas células mesodérmicas como ectoderma (ecto: do

lado de fora) e as células do hipoblasto, que estão embaixo, como

endoderma (endo: do lado de dentro). Um subgrupo de células

ectodérmicas formará todo o sistema nervoso central e o periférico. Esse

subgrupo de células é definido por sua proximidade com as células

mesodérmicas que coalescem primeiro para formar a placa notocordal, e

então novamente para formar a notocorda na linha média do embrião. A

notocorda se torna uma fonte de moléculas sinalizadoras liberadas pelas

células da notocorda que agem sobre o ectoderma sobrejacente. Esses sinais

tanto instruem as células ectodérmicas sobrejacentes a se tornarem células-

tronco neurais, capazes de dar origem a neurônios e à glia dos sistemas

nervosos central e periférico definitivos, quanto protegem essas células-tronco neurais iniciais (coletivamente, o neuroectoderma) contra os sinais

adicionais no embrião que transformam as células ectodérmicas em pele e

outros derivados.

Nesse ponto, o destino das células ectodérmicas, particularmente aquelas

da bainha visivelmente espessa acima da notocorda, chamada placa neural,

pode ser mapeado de maneira bastante precisa. As células-tronco

encontradas em regiões locais do ectoderma e neuroectoderma da frente

(mais próximas do nó primitivo/nó de Hensen) formarão, posteriormente,

especializações sensitivas especiais (placódio da lente ou cristalino e

olfatório), tecido endócrino (a hipófise), e, mais notavelmente, regiões

distintas do sistema nervoso central (SNC), incluindo o prosencéfalo

(córtex cerebral, hipocampo, núcleos da base, regiões basais do

prosencéfalo, como a tonsila, bulbo olfatório e tálamo), mesencéfalo

(colículos superior e inferior e áreas tegmentares), metencéfalo (cerebelo e

tronco encefálico) e medula espinal. Além disso, as células

neuroectodérmicas na margem da placa neural – mais distantes da

notocorda e de seus sinais indutivos e protetores – se tornaram uma

população especializada de células-tronco neurais chamada crista neural.

Essas células da crista neural delaminam do neuroectoderma e migram para

todo o embrião, onde produzem os gânglios sensitivos, assim como os

gânglios simpáticos e parassimpáticos do sistema nervoso periférico. Além

disso, as células da crista neural contribuem para as glândulas suprarrenais

e produzem células pigmentares assim como ossos cranianos, dentes e

tecido conectivo. Essa divisão geométrica do neuroectoderma dentro de um

“mapa de destinos” para as populações iniciais de células-tronco neurais

em localizações distintas reflete um processo molecular mais fundamental.

Devido a variações nos sinais locais trocados entre a notocorda, o

neuroectoderma e algumas outras estruturas embrionárias iniciais que

surgem durante a gastrulação, não há alterações locais em padrões de

expressão genética que distinguem as células que gerarão o prosencéfalo, o

mesencéfalo, o metencéfalo e a medula espinal. Na maioria das vezes, esses

genes são fatores de transcrição que influenciam a expressão subsequente

de genes conferindo identidade local na progênie ou anlage neuronal.

Portanto, a combinação de movimentos celulares e sinalização de célula a

célula que ocorre durante o início da embriogenêse e estabelece um molde espacial e molecular para a construção de todo o sistema nervoso central e o

periférico.

FIGURA 1-2