Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Tumores Hipofisários e Craniofaringiomas
FIGURA 12-9
Tumores Hipofisários e Craniofaringiomas Os tumores hipofisários representam a terceira causa mais comum de tumor
intracraniano primário, com homens e mulheres igualmente afetados. Os
pacientes geralmente apresentam uma variedade de anormalidades
neurológicas e endocrinológicas, dependendo do tipo de tumor e das
características do crescimento. Embora o adenoma hipofisário seja o tumor
selar mais comum, existem outros tipos de tumores, incluindo carcinomas
hipofisários, craniofaringiomas e cistos da fenda de Rathke.
A glândula hipófise está localizada na sela turca no corpo do osso
esfenoide. O tubérculo da sela forma a borda anterior da sela turca, e o
dorso da sela limita a borda posterior. O seio cavernoso é encontrado no
compartimento lateral da sela e limita cada lado da hipófise. O quiasma
óptico fica situado acima da sela.
A hipófise é formada por dois lobos distintos: anterior (adenoipófise) e
posterior (neuroipófise). A adenoipófise contém células epiteliais
glandulares, que secretam hormônios endócrinos como o hormônio
adrenocorticotrófico (ACTH), hormônio estimulante da tireoide (TSH),
prolactina, hormônio do crescimento (GH), hormônio luteinizante (LH) e
hormônio folículo-estimulante (FSH). A neuroipófise representa a
terminação do trato hipotálamo-hipofisário e armazena ocitocina e
vasopressina. Em geral, adenomas hipofisários representam neoplasias
benignas da adenoipófise.
Tumores hipofisários são classificados de acordo com o tamanho, com
microadenomas referindo-se a adenomas com 10 milímetros ou menos e
macroadenomas a adenomas maiores que 10 milímetros. Os tumores
também podem ser categorizados de acordo com a função, com adenomas
não funcionantes, incluindo adenomas gonadotróficos, adenomas de células
nulas e oncocitomas. Tumores hiperfuncionantes secretam hormônio do
crescimento, prolactina, ACTH e TSH.
Craniofaringiomas são tumores sólidos ou sólidos-císticos mistos que se
originam em remanescentes da bolsa de Rathke. São relativamente raros e
apresentam uma distribuição etária bimodal, com o primeiro pico ocorrendo
em crianças entre 5 e 14 anos de idade e o segundo pico surgindo em
adultos entre 50 e 75 anos de idade. Homens e mulheres parecem
igualmente afetados. Embora estes tumores sejam considerados benignos
pela histologia, frequentemente eles encurtam a vida. Transformações
malignas constituem uma ocorrência rara.
Manifestações Clínicas
Em geral, os adenomas não funcionantes causam sintomas clínicos ao
exercer efeitos de massa sobre as estruturas vizinhas. O sintoma mais
comum é prejuízo visual progressivo secundário à compressão do quiasma
óptico devido ao crescimento suprasselar do adenoma. Os pacientes podem
se queixar de diminuição da visão nos campos temporais (hemianopsia
bitemporal) ou diminuição da acuidade visual. Outros sintomas causados
pela lesão selar incluem dores de cabeça e diplopia devido à compressão do
nervo oculomotor. Os pacientes também podem apresentar hipossecreção de
hormônios resultante da compressão de diferentes tipos de células
hipofisárias pelo adenoma. O prejuízo da secreção de LH é a deficiência
mais comum, com mulheres relatando amenorreia e homens queixando-se
de diminuição da libido.
Tumores hiperfuncionantes resultam na secreção excessiva de um
hormônio específico. Os mais comuns consistem nos adenomas
corticotróficos, adenomas lactotróficos e adenomas somatotróficos.
Adenomas corticotróficos produzem um excesso de ACTH, resultando em
doença de Cushing. Esta é a condição mais grave produzida por qualquer
tumor hipofisário e provoca deformidades corporais típicas, hiperglicemia,
hiperpigmentação cutânea, hipertensão, infertilidade e desequilíbrio
eletrolítico. Os adenomas lactotróficos causam hipersecreção de prolactina,
resultando em hipogonadismo em homens e mulheres. As mulheres sofrem
de amenorreia, infertilidade e galactorreia e os homens queixam-se de
impotência. Adenomas somatotróficos secretam hormônio do crescimento
em excesso. Em crianças, ocorre gigantismo, enquanto adultos manifestam
acromegalia, causando crescimento excessivo dos tecidos, perturbações
metabólicas, problemas cardiovasculares, apneia do sono e neuropatia.
FIGURA 12-10
Os craniofaringiomas tipicamente apresentam crescimento lento com
progressão lenta dos sintomas. Déficits visuais representam uma queixa comum devido à pressão direta do tumor sobre o quiasma óptico.
Anormalidades hormonais podem ocorrer com a compressão das estruturas
hipofisárias normais. Em crianças, falha de crescimento decorrente de
hipotireoidismo ou deficiência do hormônio do crescimento é a
apresentação mais comum, enquanto disfunção sexual é o sintoma de
apresentação mais comum em adultos. Outros sintomas incluem cefaleia,
depressão e letargia.
Estudos Diagnósticos
A ressonância magnética (RM) suplantou a tomografia computadorizada
(TC) como procedimento de imagem de escolha para a maioria das massas
selares. Em imagens não contrastadas, a hipófise normal e adenomas
hipofisários são isointensos em relação ao restante do parênquima
encefálico. Com a administração dinâmica do contraste gadolínio, a maioria
dos adenomas hipofisários exibirá contraste precoce antes da glândula
normal; quando este for eliminado, a hipófise normal estará mais
contrastada que o adenoma. Devido ao maior risco de disfunção hormonal
associada, uma avaliação completa do eixo hipotálamo-hipofisário deve ser
conduzida para avaliar excesso ou deficiência de hormônios. Em pacientes
com uma lesão hipofisária descoberta incidentalmente, deve ser realizada
uma triagem oftalmológica e endócrina.
Em exames de imagem, os craniofaringiomas tipicamente se apresentam
como uma massa parasselar com componentes calcificados e císticos.
Nestes casos, a TC pode ser a modalidade diagnóstica superior porque
destaca calcificações e lesões císticas melhor que a RM. Ocasionalmente, as
calcificações não são facilmente identificáveis em exames de imagem e,
portanto, um diagnóstico histológico é justificado. Muitos pacientes com
craniofaringiomas terão sintomas de hipopituitarismo; portanto, uma
avaliação endócrina completa é recomendada.
Tratamento
O tratamento primário para macroadenomas não funcionantes e para
maioria dos adenomas hipersecretores é a cirurgia transesfenoidal.
Tradicionalmente, a maioria dos cirurgiões entra no seio esfenoidal por uma
variante da abordagem transeptal, que expõe a parede anterior do osso esfenoide. Após a ressecção da parede anterior, o assoalho ósseo da sela
turca é ressecado e a dura-máter da sela é incisada para permitir a remoção
do tumor. O aspecto mais importante da cirurgia é a preservação da
membrana aracnoide. A baixa morbidade pós-operatória depende da
prevenção da entrada de sangue no líquido cefalorraquiano (LCR) durante a
cirurgia e do vazamento de LCR no pós-operatório. Em seguida, o músculo
é colocado na cavidade tumoral, ocasionalmente com um pedaço da
cartilagem nasal. Os retalhos de mucosa são reaproximados e o nariz é
tamponado.
FIGURA 12-11
Na década de 1990, o uso de endoscópio para ressecar tumores
hipofisários foi revitalizado. As vantagens desta abordagem incluem menor edema pós-operatório, a dispensa do tamponamento nasal, diminuição do
desconforto para o paciente e melhora da visualização intrasselar e
suprasselar. Em geral, o endoscópio é avançado pelo cóano e o óstio
esfenoidal é identificado. Com a abordagem bilateral, o septo nasal é
removido, revelando o seio esfenoidal. Isso permite a visualização do
assoalho da sela, que é então aberto. Após a cobertura dural ser aberta, o
tumor hipofisário é exposto, permitindo sua remoção. Antes do fechamento,
um exame cuidadoso para verificar vazamento do LCR é realizado. Se não
houver fístula, o assoalho da sela é então reconstruído. Às vezes a
abordagem transesfenoidal não é a ideal, como quando ocorre extensão
importante do tumor para a fossa do crânio ou extensão suprasselar
extrema. Nesses casos, uma abordagem transcraniana é usada por meio de
craniotomia. O tumor é então cuidadosamente removido por
microdissecção.
Com a cirurgia, aproximadamente 87% dos pacientes relatam melhora
dos déficits visuais pré-operatórios e muitos relatam melhora dos déficits
endócrinos pré--operatórios. Pode haver recorrência, mas esta é rara em
indivíduos que tenham sido submetidos a uma ressecção completa. Em
pacientes com doença residual, radioterapia adjuvante ou terapia clínica
pode ser considerada, incluindo dopamina, hormônio liberador de
gonadotrofina e agonistas da somatostatina. O tratamento com radiação
acarreta o risco de dano das estruturas vizinhas críticas e não tem a
vantagem de uma citorredução significativa. A radiocirurgia estereotáxica e
a radioterapia estereotáxica melhoraram a segurança e a eficácia da
irradiação.
Prolactinomas, por outro lado, respondem bem à terapia clínica.
Agonistas da dopamina podem normalizar efetivamente os níveis de
prolactina, normalizar a visão e diminuir o tamanho do tumor na maioria
dos pacientes. Ocasionalmente, os tumores são resistentes à terapia clínica
ou os pacientes não conseguem tolerá-la; nestes casos, a cirurgia
transesfenoidal é preconizada. Muito interesse tem cercado o papel da
terapia clínica nos adenomas secretores do hormônio do crescimento;
contudo, não foi constatado que nenhum medicamento reduzisse de modo
constante o volume tumoral em uma magnitude expressiva.
Adenomas hipofisários encontrados incidentalmente são cada vez mais
comuns. O tratamento conservador é razoável se a lesão for menor que 10 milímetros e não houver evidências de anormalidades neurológicas e
endocrinológicas.
Craniofaringiomas podem ser tratados com cirurgia ou com uma
combinação de cirurgia seguida por radiação. A cirurgia permite o
diagnóstico, redução do volume do tumor e uma possibilidade de cura
cirúrgica. A radiação, tanto radioterapia estereotáxica quanto radiocirurgia,
é usada para tratar os tumores ressecados incompletamente ou aqueles que
apresentam recorrência após cirurgia prévia. Com os avanços modernos nos
campos da cirurgia e da radiação, o risco de efeitos colaterais relacionados
com o tratamento melhorou, embora os sobreviventes geralmente
apresentem múltiplas deficiências hormonais, obesidade patológica,
padrões de sono alterados resultantes da lesão do hipotálamo adjacente,
perda permanente da visão periférica e distúrbios de memória e do
processamento das informações.