Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtorno Hipercinético do Movimento
FIGURA 7-11
Transtorno Hipercinético do Movimento Distonia
A distonia é um transtorno que se caracteriza por contrações musculares
prolongadas causando movimentos de torção repetidos ou posturas
anormais. A distonia pode ser um sintoma, uma síndrome ou uma doença e
pode ser classificada de acordo com a distribuição, a idade de início e a
etiologia. Por definição, na distonia primária não há nenhuma causa
evidente para a distonia. Em uma pequena proporção dos pacientes
portadores de distonia foram identificadas anormalidades genéticas e
cromossômicas.
A distonia generalizada primária com início na infância, também
designada como distonia de Oppenheim ou distonia de torção idiopática, se
caracteriza por contrações musculares ou posturas involuntárias repetitivas
prolongadas, começando no pé e na perna durante a infância e evoluindo
para uma distribuição mais generalizada em torno da segunda década de
vida (Fig. 7-11). Ela foi descrita pela primeira vez em judeus Askenazi
expressando a mutação DYT1 no cromossomo 9. Uma mutação por deleção
de GAG no gene DYT1, que codifica a proteína torsina A, foi associada em
maior frequência à doença. A prevalência estimada é de 3,4 casos por
100.000 indivíduos. Essa mutação também é encontrada em indivíduos não
Askenazi em todo o mundo.
Outras mutações genéticas causando distonia generalizada com início na
infância foram descritas mais recentemente. Depois da DYT1, a mais
importante talvez seja a de DYT6, que se associa a uma mutação no gene
THAP1.
A distonia primária de início adulto tem geralmente uma distribuição
focal ou segmentar e pode ser uma forma frustra de distonia generalizada
idiopática. Ela pode se evidenciar em indivíduos suscetíveis que executem
tarefas repetitivas, como instrumentistas, datilógrafos, higienistas dentários
e escritores, ou pode aparecer sem fatores precipitantes conhecidos. São
exemplos de distonia focal a câimbra dos escritores, a distonia cervical
(torcicolo espasmódico), o blefarospasmo (fechamento bilateral
involuntário, sincrônico e forçado do olho), a distonia oromandibular
(abertura ou fechamento involuntário forçado da mandíbula), a disfonia
espasmódica (disfonia adutora ou abdutora) e a distonia dos músicos. Na
distonia segmentar há caracteristicamente o envolvimento de duas ou mais partes corporais adjacentes. A hemidistonia envolve um braço e uma perna
do mesmo lado do corpo. A distonia axial afeta estruturas da linha média
(músculos do tronco e do pescoço) e pode causar dificuldades de fala e de
deglutição ou arqueamento das costas ou do pescoço. A distonia multifocal
designa uma postura anormal afetando duas ou mais partes corporais não
adjacentes. O envolvimento de ambas as pernas e pelo menos de um dos
braços ou um envolvimento axial em combinação a pelo menos um membro
afetado é geralmente observado na distonia generalizada. Os reflexos
tendinosos profundos podem se mostrar normais ou exagerados,
especialmente em pacientes com uma causa secundária ou em pacientes
portadores de distonia cervical que vieram a apresentar uma mielopatia
compressiva em consequência de um acometimento degenerativo grave e
frequentemente precoce da coluna vertebral. Em alguns pacientes pode-se
notar um “tremor distônico” ou miorritmia.
Nas distonias secundárias é identificada uma causa, como um infarto
encefálico, tumores, traumatismos encefálicos, infecções e exposição a
medicações, especialmente a fármacos bloqueadores da dopamina
(neurolépticos, metoclopramida). A distonia secundária pode ser focal,
possivelmente contralateral à lesão, ou pode se dever a traumas periféricos
de menor gravidade como aqueles decorrentes da grave síndrome de
causalgia-distonia. Ela pode ser hemidistônica ou segmentar quando são
afetadas duas ou mais partes corporais contíguas ou generalizada ao
envolvimento do tronco e de duas outras partes corporais contíguas. A
distonia secundária generalizada pode decorrer de traumas banais ou, no
contexto apropriado, fatores psicogênicos podem ser a causa única.
Medicações bloqueadoras dos receptores para dopamina, como
neurolépticos e antieméticos à base de fenotiazinas, podem produzir
distonia aguda após uma dose única ou distonia tardia ao uso crônico.
FIGURA 7-12
Provavelmente a mais comum distonia focal, a distonia cervical acarreta
uma contração involuntária dos músculos do pescoço, causando desvio do queixo, anterocolo ou retrocolo, flexão lateral e, em muitos pacientes, a
elevação do ombro (Fig. 7-12). A atividade contínua pode acarretar a
hipertrofia dos músculos, especialmente o esternocleidomastóideo e os
flexores cervicais. Muitos pacientes podem observar que estímulos
sensitivos específicos ou truques sensitivos, o “gesto antagonista,”
suprimem ou atenuam transitoriamente os espasmos. Os exemplos de
truques sensitivos incluem tocar-se a face, o queixo ou outro ponto da
cabeça com uma das mãos, um dedo ou um objeto. Durante muitos anos
esse fenômeno e a prevalência mais alta da distonia cervical em mulheres
foram erroneamente tomados como apoiando a crença de que o transtorno é
de natureza psicogênica. A dor é a característica mais proeminente em
aproximadamente 75% dos pacientes. A doença degenerativa da coluna
cervical é uma complicação comum e se associa ocasionalmente a uma
mielopatia compressiva.
As síndromes distonia-plus incluem a distonia acompanhada de outros
achados neurológicos ao exame. A distonia respondendo à dopa (DRD),
uma condição autossômica dominante com penetrância incompleta, se deve
a um defeito no cromossomo 14, que codifica a enzima guanosina trifosfato
(GTP)-ciclo-hidrolase, responsável pela biossíntese da tetrabiopterina, a
qual, por sua vez, é um cofator essencial na produção de dopamina pela
tirosina hidroxilase. A tirosina hidroxilase é a etapa limitadora da
velocidade de reação na síntese da dopamina e de outras catecolaminas.
Também designada como doença de Segawa, a distonia respondendo à
dopa, se manifesta tipicamente na primeira década de vida por um
transtorno da marcha, imitando em alguns pacientes a paralisia encefálica.
Em adolescentes a distonia se caracteriza por flutuações diurnas nos
sintomas e pode se acompanhar de um parkinsonismo leve, tremor, marcha
espástica ou em tesoura e escoliose. Uma característica-chave no exame
clínico de adolescentes ou adultos jovens portadores de DRD é a acentuada
perda de estabilidade postural notada ao se realizar o teste de puxa-empurra.
O transtorno tem uma resposta excelente à levodopa, que é o tratamento de
escolha.