Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Morfogênese do encéfalo, medula espinal e sistema nervoso periférico: o embrão de 28 a 36 dias
Morfogênese do encéfalo, medula espinal e
sistema nervoso periférico: o embrão de 28 a
36 dias
Em mais 4 dias da embriogênese, o tubo neural fecha-se completamente e o
sistema nervoso em desenvolvimento passa por alterações adicionais que
definem as populações de células-tronco e geram toda as estruturas distintas
do encéfalo definitivo e sistema nervoso periférico. Essas alterações são
vistas anatomicamente como emergências de uma série de protuberâncias,
dobras e sulcos que distinguem as regiões específicas do sistema nervoso
em desenvolvimento do polo anterior para o posterior ou craniocaudal. Na
extremidade anterior do tubo neural fechado, o neuroepitélio expande-se
dentro de um globo oco chamado prosencéfalo. O tronco neural do
prosencéfalo é específico para gerar todos os neurônios que compreenderão
as principais regiões do telencéfalo e diencéfalo. Subsequentemente, duas
estruturas bilateralmente simétricas emergem do aspecto lateral/anterior do
prosencéfalo. Estas estruturas são as vesículas ópticas que vão gerar as
células neurais da retina. Imediatamente posterior ao prosencéfalo, o tubo
neural curva-se em um ponto referido como flexura cefálica. Esse ponto de
curvatura inicia o processo pelo qual o encéfalo (e a cabeça) se tornarão
distintos da medula espinal e do resto do corpo. As células-tronco no tubo
neural na região da flexura cefálica se tornam específicas para dar origem a
estruturas do mesencéfalo.
A região do tubo neural posterior ao mesencéfalo passa por uma série de
alterações que originam o rombencéfalo. O evento mais notável é o
estabelecimento de uma série de repetidas protuberâncias e sulcos ao longo
do eixo anterior/posterior que constitui uma sequência de domínios
transitórios referidos coletivamente como rombômeros. As células-tronco
neurais em cada rombômero adquirem distintos padrões de expressão
genética baseados em sua localização. Essas distinções facilitam então a
gênese local dos neurônios motores que dão origem aos nervos motores
cranianos e aos neurônios sensitivos que fornecem os alvos para as
informações sensitivas de entradas cranianas periféricas para o tronco
encefálico (incluindo o cerebelo/ponte, também conhecido como
metencéfalo, e a medula oblonga ou bulbo, também conhecida como mielencéfalo). A relação entre os rombômeros e as estruturas em
desenvolvimento da cabeça é bastante precisa. De fato, a crista neural que
emerge do tubo neural na região de cada rombômero (note que nenhuma
crista neural está associada ao prosencéfalo) estabelece estruturas-alvo
cranianas que geralmente são inervadas por neurônios motores gerados no
mesmo rombômero. Similarmente, os gânglios cranianos, derivados da
crista neural, que migram de distintos rombômeros, têm uma relação
específica com os núcleos-alvos gerados dentro do rombômero relevante.
Em mais 8 dias de desenvolvimento (36 dias), é estabelecida a topografia
básica de todo o sistema nervoso, assim como da maioria das regiões
componentes que então crescerão, diferenciando-se ao longo de toda a
continuidade da embriogênese. O prosencéfalo se torna mais subdividido
em duas vesículas telencefálicas (coletivamente chamadas de telencéfalo)
que darão origem a estruturas bilateralmente simétricas do cérebro anterior:
os hemisférios corticais cerebrais, os hipocampos, os núcleos da base, os
núcleos do prosencéfalo basal e os bulbos olfatórios. O prosencéfalo
remanescente, posterior às vesículas telencefálicas, torna-se o diencéfalo,
que vai gerar o epitálamo (estruturas dorsais conhecidas como habênulas),
tálamo (os núcleos retransmissores que se projetam para o córtex cerebral) e
o hipotálamo (núcleos de controle motor/endócrino que regulam a função
visceral e reprodutiva e a homeostasia). O mesencéfalo, o rombencéfalo e o
mielencéfalo se tornam ainda mais diferenciados e os nervos motores
cranianos (veja no painel superior, em azul-escuro, da Fig. 1-4), gânglios
sensitivos e os nervos sensitivos cranianos associados (em rosa mais claro,
na Fig. 1-4) se tornam claramente visíveis ao longo da extensão anterior a
posterior do mesencéfalo e metencéfalo. Em paralelo, os nervos motores e
os gânglios sensitivos e os nervos sensitivos associados do resto do corpo se
tornam visíveis ao longo da extensão anterior para posterior da medula
espinal.
FIGURA 1-4
Embora o tubo neural esteja adquirindo identidade regional adicional que
prefigura a geração final dos neurônios maduros e da glia em regiões distintas do encéfalo, o espaço compreendido por ele se define mais como o
sistema ventricular. O sistema ventricular será preenchido com fluido
característico – o líquido cefalorraquidiano ou cerebroespinal (LCR ou
LCE) – que fornece moléculas sinalizadoras específicas às células-tronco
neurais durante o desenvolvimento e mantém o equilíbrio iônico apropriado
para a sinalização elétrica no sistema nervoso definitivo. Inicialmente, em
28 dias do desenvolvimento embrionário, os espaços ventriculares são
referidos como prosocele, mesocele e rombocele, correspondendo às regiões
primitivas do tubo neural que os circundam. Em 8 dias, o sistema
ventricular se tornou mais elaborado, em paralelo com a elaboração do
cérebro anterior, cérebro médio e cérebro posterior. Existem agora dois
ventrículos laterais encerrados pelas vesículas telencefálicas, uma diocele
que se tornará o terceiro ventrículo, uma mesocele que se tornará o
aqueduto do mesencéfalo e uma metacele e mielocele que se desenvolverão
coletivamente no quarto ventrículo. O espaço ventricular compreendido
pela medula espinal em desenvolvimento está agora definido como o canal
central. Portanto, em aproximadamente 36 dias – um pouco mais de 1 mês
em um período de gestação de 9 meses – o feto adquiriu todas as principais
regiões do cérebro e as divisões anatômicas do sistema ventricular.