Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Outras Síndromes Neuroimunológicas: Uma Superposição de Processos Primários e Paraneoplásicos
Outras Síndromes Neuroimunológicas: Uma
Superposição de Processos Primários e
Paraneoplásicos
Há um reconhecimento cada vez maior do papel dos mecanismos
imunológicos subjacentes a muitos transtornos neurológicos. A esclerose
múltipla é claramente o principal modelo de um transtorno
neuroimunológico do sistema nervoso central (SNC). A leucoencefalite
hemorrágica aguda, a encefalomielite disseminada aguda, a neuromielite
óptica e a síndrome do homem rígido são exemplos clássicos do SNC.
Outros transtornos autoimunes, como a encefalopatia por N-metil-d-
aspartato (NMDA), estão tendo um reconhecimento frequente. A síndrome
de Guillain-Barré e a miastenia gravis são os mais proeminentes transtornos
de unidades motoras periféricas mediados imunologicamente. A neuropatia
motora multifocal (NMtM) é um exemplo periférico cada vez mais
reconhecido e importante de uma síndrome mediada por mecanismos
autoimunes. Isso contrasta com o prognóstico terrível das doenças do
neurônio motor; seu reconhecimento, portanto, tem importância primordial
para o paciente.
Um neurologista experiente que se defronte com um transtorno clínico
incomum e aparentemente idiopático precisa estar sempre vigilante,
perguntando se um problema diagnóstico difícil poderia ter também uma
base neuroimunológica e a resposta clínica potencial eventual a uma terapia
imunossupressiva. A condição recentemente definida associada à exposição
ao encéfalo suíno é um exemplo de um transtorno neuroimunológico
ocupacional, induzido pelo ambiente e não reconhecido anteriormente. Esse
transtorno afetou 21 trabalhadores em duas indústrias de processamento de
carne. Cada um dos pacientes teve exposição ao tecido encefálico
aerossolizado por ocasião do abate dos porcos. Esse transtorno de
desenvolvimento rápido ocasionou uma síndrome neurológica subaguda,
que se caracterizou mais frequentemente por uma polirradiculoneuropatia
dolorosa, predominantemente sensitiva, evoluindo em um período de
apenas 4 semanas. Mais raramente houve o envolvimento do sistema
nervoso central, produzindo uma meningoencefalite ou uma síndrome de
mielite transversa.
Os estudos da condução nervosa localizaram as anormalidades aos
segmentos nervosos mais proximais e mais distais. Testes sensitivos e
autonômicos quantitativos demonstraram o envolvimento de grandes e
pequenas fibras sensitivas, assim como uma disfunção autonômica afetando
as fibras do suor. A aquisição de imagens por ressonância magnética
confirmou proeminentes anormalidades das raízes nervosas e dos gânglios
da raiz dorsal. As biópsias de nervos revelaram uma leve desmielinização,
degeneração axônica e inflamação perivascular. As proteínas do líquido
cefalorraquiano (LCR) estavam elevadas em muitos pacientes; em
contraste, não havia uma pleocitose liquórica significativa, exceto naqueles
indivíduos apresentando um envolvimento do sistema nervoso central.
Uma imunoglobulina G (IgG) neural reativa típica ocorreu no soro em
todos os pacientes e no LCR na maioria deles. Além disso, uma IgG dos
canais de potássio sensíveis à voltagem (VGKC) foi identificada em 79%
dos pacientes e uma IgG específica da proteína mielínica básica em 75%
deles. Quando foi identificada a provável exposição ocupacional facilitando
o mecanismo neuroimunológico, o método de coleta do encéfalo foi
abandonado e esse transtorno não ocorre mais. Entretanto, essa experiência
serve como um importante termômetro para o neurologista atento
considerando outras doenças misteriosas.
Por vezes os pacientes podem ter transtornos sistêmicos idiopáticos
subjacentes em que uma deterioração neurológica súbita e avassaladora,
com risco de vida potencial para o paciente, vem a ocorrer sem um
mecanismo desencadeante óbvio. É preciso levar-se em consideração que
fatores neuroimunológicos estão desempenhando um papel importante. Por
vezes o tratamento empírico por metilprednisolona, imunoglobulina
intravenosa (IGIV) e/ou plasmaférese (PFx) nesses contextos, mesmo que
não sejam identificados anticorpos específicos, pode se mostrar
ocasionalmente um salvador de vidas.
Um exemplo disso ocorreu com um colega que apresentou um
escleromixedema, uma condição dermatológica crônica incomum. Em um
período de 72 horas ele veio a apresentar fortes dores musculares
esqueléticas envolvendo os membros e a musculatura do tronco, incluindo o
abdome, em que havia uma dúvida inicial quanto a uma emergência
cirúrgica. Enquanto isso estava sob investigação evidenciaram-se súbitas
dificuldades respiratórias e cardiovasculares, seguidas por uma encefalopatia aguda, com confusão mental levando ao coma. A terapia
intensa por corticosteroides em altas doses e antibióticos não foi bem-
sucedida. Ele se tornou moribundo e apresentou posturas de descerebração.
A introdução emergencial da terapia por plasmaférese ocasionou melhoras
notáveis; ele acabou por retornar à prática clínica.
Não conseguimos determinar com certeza o que causou a crise aguda
nesse paciente; todavia, a resposta à imunoterapia apontou claramente um
mecanismo autoimune. Precisa-se considerar sempre essa possibilidade em
transtornos neurológicos agudos aparentemente indeterminados; por vezes
um período de prova terapêutica da terapia imunossupressiva pode salvar
vidas, ainda que não haja uma experiência “baseada em evidências”
anterior.
Os transtornos autoimunes paraneoplásicos são discutidos nas quatro
figuras subsequentes. Algumas síndromes reconhecidas inicialmente como
tendo uma conotação paraneoplásica nem sempre ocorrem em associação a
um câncer subjacente. A síndrome miastênica de Lambert-Eaton (SMLE) é
um exemplo excelente; embora historicamente associada ao câncer de
pequenas células do pulmão, ela é reconhecida atualmente como ocorrendo
não apenas em adultos jovens que não vieram a evidenciar
subsequentemente um câncer como também em crianças com idade de
apenas 8 anos. O mecanismo imunológico desencadeante dessas variantes
de SMLE ainda está por ser elucidado. Apesar disso, esses são pacientes
eminentemente tratáveis. Seu reconhecimento, portanto, tem uma
importância primordial.