Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Diagnóstico Diferencial de Tumores do Sistema Nervoso Central
Diagnóstico Diferencial de Tumores do
Sistema Nervoso Central
Embora os avanços metodológicos na aquisição de imagem tenham
aumentado a incidência de diagnósticos de tumores do SNC, outras lesões
do encéfalo podem parecer semelhantes a neoplasias. As mimetizações
incluem lesões inflamatórias (secundárias a desmielinização), doença
autoimune, infecção e/ou necrose por radiação. Estas lesões geralmente
consistem em massas expansivas, resultando em manifestações clínicas
semelhantes, o que destaca a importância do exame histopatológico. Nesta
seção, consideraremos alguns dos diagnósticos diferenciais de tumores
encefálicos.
Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla (EM) é a doença desmielinizante mais comum do
sistema nervoso central. As imagens típicas revelam múltiplas lesões em
um padrão característico, como “dedos de Dawson” (lesões
periventriculares orientadas perpendicularmente ao eixo longo do ventrículo
lateral na sequência de recuperação de inversão com atenuação de fluido
[FLAIR]). Estas placas exercem um efeito de massa muito pequeno. As
lesões ativas geralmente são contrastadas, representando a degradação da
barreira hematoencefálica. A EM tumefativa constitui um subtipo especial
que afeta pacientes na segunda ou terceira década de vida. A imagem revela
massas semelhantes a tumores grandes (maiores que 2 cm), que
demonstram contraste em anel incompleto, com a área incompleta tocando
a substância cinzenta cortical ou os núcleos da base. Estas lesões podem
estar associadas a efeito de massa e edema vasogênico. Ao contrário de
tumores encefálicos hipercelulares, estas lesões tendem a exibir um volume
sanguíneo encefálico relativamente baixo em imagens de perfusão e um
aumento do coeficiente de difusão aparente (ADC) nas sequências de
difusão. Além disso, a espectroscopia por ressonância magnética pode
ajudar a distinguir lesões desmielinizantes de neoplasias. A apreciação da
história clínica em conjunto com testes auxiliares, como estudos do líquido
cefalorraquiano (LCR) ou de potenciais evocados, podem ajudar a
diferenciar doença desmielinizante de tumores do SNC.
Sarcoidose
A sarcoidose é uma doença granulomatosa multissistêmica que pode afetar
o sistema nervoso central. Aproximadamente 5% dos pacientes com
sarcoidose conhecida manifestam neurossarcoidose, embora a apresentação
recente também seja possível. Inicialmente se desenvolve nas
leptomeninges, permitindo a entrada do processo inflamatório no
parênquima encefálico, onde massas granulomatosas podem se desenvolver.
Existe uma predileção pelos nervos cranianos, hipotálamo e hipófise, porém
qualquer parte do sistema nervoso central pode ser afetada. Nos exames de
imagem, a neurossarcoidose pode se manifestar com contraste meníngeo ou
paquimeníngeo em associação a lesões não contrastadas da substância
branca periventricular. Com envolvimento dos nervos cranianos, contraste
pode ser observado ao longo dos nervos, embora a porção extracraniana
seja afetada com mais frequência. O contraste de nódulos granulomatosos
no parênquima e lesões de massa dural é mais comum. Com uma frequência
relativamente alta de envolvimento das leptomeninges, a neurossarcoidose
pode ser confundida com meningite carcinomatosa. Novamente, a história
clínica, exames de imagem sistêmicos e estudos de LCR devem ser
considerados para diferenciar as duas.
Efeitos da Radiação
Desde o estabelecimento da quimiorradioterapia como padrão de cuidados
para os glioblastomas, tem havido uma percepção crescente de um
fenômeno chamado “pseudoprogressão”, no qual as imagens pós-
tratamento revelam a presença de lesões contrastadas secundárias a um
dano por radiação, resultando em aumento da permeabilidade capilar e
degradação da barreira hematoencefálica. Eventualmente, estas lesões
diminuem de tamanho ou estabilizam sem necessidade de tratamento
adicional. As evidências sugerem que estes efeitos relacionados com o
tratamento ocorrem mais frequentemente com o uso de temozolomida e
estão significativamente correlacionados com o estado de metilação do
promotor O6-metilguanina–DNA-metiltransferase (MGMT). Clínica e
radiograficamente, a pseudoprogressão pode ter aspecto e comportamento
idênticos a uma progressão tumoral real. Estudos adjuntos, como imagens
de ressonância magnética contrastada com ponderação de suscetibilidade dinâmica e tomografia por emissão de pósitrons (PET), podem ser úteis. A
pseudoprogressão tipicamente exibe baixo volume sanguíneo encefálico e é
“fria” nas imagens PET, enquanto a progressão tumoral apresentará volume
sanguíneo encefálico elevado e será metabolicamente ativa.
Ocasionalmente, a biópsia da lesão pode ser necessária para estabelecer o
diagnóstico correto e a conduta apropriada.
Abscesso Encefálico
Abscessos intracranianos podem ser muito semelhantes a tumores
encefálicos císticos ou necróticos. Ambos aparecem como lesões com
contrastes anulares e efeito de massa associado, causando déficits
neurológicos associados. Febre nem sempre está presente e é encontrada
apenas em menos da metade dos pacientes. Outros parâmetros diagnósticos
de infecção, como leucocitose, elevação da velocidade de
hemossedimentação (VHS) e hemoculturas positivas, não estão presentes de
modo confiável em pacientes afetados por abscesso encefálico. Estudos
como punção lombar são menos úteis porque os achados geralmente são
menos específicos e as culturas raramente são positivas. Segundo relatos, a
espectroscopia de ressonância magnética com prótons (ERM) e as imagens
de ponderação de difusão são úteis para diferenciar abscessos de lesões não
piogênicas, com abscessos exibindo um perfil metabólico específico na
ERM e sinal hiperintenso na imagem por difusão.