Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Traumatismos Cranianos

FIGURA 14-8

 

Traumatismos Cranianos As forças mecânicas que resultam em lesões traumáticas do encéfalo podem

produzir uma variedade de diferentes danos estruturais, cada qual exigindo

um tratamento clínico ou cirúrgico diferente.

Antes da introdução da tomografia computadorizada (TC), as

radiografias simples do crânio tinham importância vital para a avaliação de

pacientes com traumatismos cefálicos. A presença de uma fratura de crânio

sugeria fortemente a possibilidade de uma lesão intracraniana importante

subjacente. Fratura está presente em 66% a 100% dos pacientes com

hematoma epidural, 18% a 60% com hematoma subdural agudo e 40% a

80% com contusões ou hematoma intraencefálico. Estas lesões

intracranianas hoje são identificadas imediatamente pela TC e uma fratura

de crânio associada muitas vezes é percebida apenas incidentalmente.

Contudo, há vários tipos de fratura de crânio que têm importância clínica.

A mais clássica é a fratura basilar do crânio, que pode estar associada a

vazamento do líquido cefalorraquiano (LCR) e lesão dos nervos cranianos.

Uma fratura basilar do crânio é relatada em até 25% dos pacientes que

sofrem um trauma cefálico. Mesmo com a TC, fraturas basilares do crânio

podem não ser identificadas devido a sua orientação em relação ao plano do

exame. Cortes finos especiais ou visões coronais podem ser necessários. A

maioria das fraturas basilares do crânio ocorre no osso petroso ou na fossa

anterior do crânio. Fraturas do clivo são menos comuns. As fraturas ósseas

petrosas podem ocorrer em sentido transversal ou longitudinal e sua

orientação predispõe a várias complicações.

A apresentação clínica clássica de uma fratura óssea petrosa é o sinal de

Battle — um hematoma retromastoideo. Olhos de guaxinim — hematomas

periorbitais — podem ser observados nas fraturas da base do crânio

anteriores. Vazamentos de LCR, otorreia ou rinorreia são relatados em

aproximadamente 10% dos pacientes com fraturas da base do crânio.

Otorreia típica está associada a fraturas petrosas, enquanto rinorreia pode

derivar de fratura da fossa anterior, drenando pela lâmina cribiforme ou

mesmo de fratura do osso petroso, drenando pela tuba auditiva. Em

qualquer caso, com repouso no leito e elevação da cabeça, o vazamento de

LCR cessa espontaneamente em mais de 85% dos pacientes. A

administração de antibióticos não é aconselhada porque pode predispor a

infecções resistentes a antibióticos. Vazamentos persistentes podem ser tratados com um dreno lombar; apenas um pequeno número exige reparo

cirúrgico direto ou endoscópico.

Se houver qualquer dúvida se a drenagem líquida, derivada do nariz ou

da orelha, representa LCR, o fluido pode ser analisado para glicose, que

tipicamente está acima de 30 mg/ml no LCR ou β-2-transferrina, que é

encontrada apenas no LCR.

Lesões dos nervos cranianos podem complicar até 5% dos casos de

fratura da base do crânio, sendo que a mais comum é a lesão do nervo facial

em associação a fraturas petrosas. Este tipo de lesão pode ocorrer em até

50% dos pacientes com fraturas transversais e 20% com fraturas

longitudinais. O nervo facial é especialmente propenso a lesões no estreito

canal do nervo facial (de Falópio) quando ocorre edema ou por compressão

de fragmentos fraturados. Se a paralisia facial for imediata e completa, a

chance de recuperação é pequena. Lesões menores tendem a exibir boa

recuperação e esteroides são usados com frequência para tratamento.

Alguns preconizam a exploração cirúrgica precoce e descompressão do

nervo.

Outros dois tipos de fratura de crânio requerem uma conduta clínica

específica: fraturas abertas com afundamento e fraturas do seio frontal.

Costuma-se dizer que as fraturas de crânio abertas, ou compostas, com

afundamento estão associadas a infecção e epilepsia pós-traumática.

Definitivamente estão associadas a uma lesão encefálica subjacente

potencialmente importante. Até recentemente a prática comum consistia em

operar todas estas fraturas. A literatura contemporânea, porém, mostra que

o risco de epilepsia pós-traumática não aumenta de modo significante e o

risco de infecção pode ser maior em pacientes tratados cirurgicamente que

nas abordagens não cirúrgicas. Portanto, parece possível tratar de modo

conservador todas as fraturas, exceto as mais contaminadas e cominutivas,

com uma segurança razoável.

A principal preocupação nas fraturas do seio frontal é o estado da parede

posterior do seio, com a possibilidade de violação da dura-máter e o risco

de vazamento de LCR, pneumocéfalo e infecção. Como regra geral, a não

ser que haja uma evidência clara de vazamento de CSF ou pneumocéfalo

com fragmentos da parede posterior deslocados de mais de 3 a 4

milímetros, a conduta não cirúrgica geralmente é efetiva. Entretanto, alguns preconizam a cirurgia na maioria das fraturas do seio frontal para prevenir o

desenvolvimento de uma mucocele.