Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Transtorno Obsessivo-compulsivo

FIGURA 4-9

 

Transtorno Obsessivo-compulsivo Introdução

O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é diagnosticado com base em

pensamentos recorrentes e intrusivos, conhecidos como obsessões, e/ou

comportamentos ou rituais compulsivos. As obsessões ou compulsões são

reconhecidas pelo paciente, pelo menos em algum ponto, como excessivas

ou irracionais, levando a um sofrimento ou comprometimento funcional

marcante; elas podem consumir tempo demais. Esses sintomas são sentidos

como intrusivos e inapropriados, não se tratando simplesmente de

preocupações excessivas a respeito de eventos do mundo real.

Múltiplos subtipos de TOC são identificados essencialmente com base

em análise fatorial. Obsessões típicas podem incluir medos de

contaminação, transgressão sexual/religiosa ou outras trangressões morais,

ferir os outros, ou doença não reconhecida. As compulsões podem incluir

acumulações, verificações, limpeza e ordem. Dentre esses, o sintoma mais

comum é o comportamento de verificação, visto em quase 80% dos casos,

seguido pelo comportamento de acumulação. Os pacientes podem, por

exemplo, checar repetidamente se o fogão está desligado, reler parágrafos

em busca de erros tipográficos, ou entrar em contato com familiares para

confirmar que estão bem. O importante é que esse tipo de comportamento

não ocorre uma vez só, mas pode persistir por horas em um evento. A

acumulação geralmente envolve jornais, recibos ou outros documentos, até

o ponto em que as casas desses pacientes tornam-se apinhadas e até mesmo

inseguras. Importante enfatizar que as compulsões podem ser rituais

mentais também: a necessidade de contar ou dizer uma oração para impedir

um evento catastrófico, por exemplo. O TOC é altamente comórbido com

outros transtornos psiquiátricos, particularmente transtornos de ansiedade,

transtornos do humor (particularmente transtorno bipolar) e transtornos de

uso abusivo de substâncias ou controle de impulsos. O TOC é por vezes

observado em indivíduos com a síndrome de Tourette.

Estudos epidemiológicos indicam uma prevalência vitalícia em torno de

2% entre a população geral, sendo que 1% relata sintomas nos últimos 12

meses. Sintomas subliminares podem ser bem mais comuns, com até um

quarto dos pacientes relatando algumas obsessões e compulsões vitalícias.

A média de idade na manifestação do transtorno é entre 19 e 20 anos, mas

até um quarto dos homens pode manifestar o transtorno antes dos 10 anos de idade; a incidência entre mulheres cresce na adolescência. Novos casos

são raramente observados depois dos 35 anos de idade. Estudos de gêmeos

e famílias sugerem que o TOC é um transtorno hereditário, particularmente

o TOC de início na infância, sendo que entre 45% e 65% do ônus é

decorrente de risco hereditário.

 

Apresentação clínica

Os sintomas de TOC geralmente são crônicos e contribuem para um

prejuízo funcional e social significante, embora sua gravidade possa oscilar

com o tempo. O tratamento do TOC se baseia tipicamente em terapia

cognitivo-comportamental, tratamento medicamentoso ou ambos; os

tratamentos individuais têm tamanhos de efeito semelhantes. Mais

comumente, inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou o

antidepressivo tricíclico clopramina são prescritos; essas medicações podem

demandar dosagens e duração de tratamento maiores (i.e., 12 semanas ou

mais) para provocar uma resposta, comparados ao tratamento de outros

transtornos psiquiátricos. Uma variedade de novas modalidades de

farmacoterapias está sob investigação. Um tratamento emergente para TOC

refratário é a estimulação encefálica profunda em regiões como o núcleo

subtalâmico.

 

Fisiopatologia

Estudos de imageamento e outros estudos implicam circuitos

corticoestriados-talâmicos na fisiopatologia dos sintomas de TOC, mas

investigações recentes sugerem uma rede de certa forma mais ampla. O

imageamento funcional concentrou-se particularmente no córtex caudado,

no córtex orbitofrontal e no córtex do cíngulo anterior. Em um modelo,

pensamentos intrusivos estão associados a uma atividade maior no córtex

orbitofrontal, enquanto a sensação de ansiedade está associada à ativação do

córtex do cíngulo anterior. A investigação do TOC é facilitada pela

disponibilidade de modelos experimentais em roedores com sintomas

semelhantes ao TOC, particularmente um comportamento de cuidado

excessivo com a aparência. A despeito da eficácia de antidepressivos

serotonérgicos nesse transtorno, o papel da neurotransmissão glutamatérgica vem recebendo cada vez mais atenção com base em estudos

em animais e dados genéticos.

Em casos raros, os sintomas de TOC podem surgir em crianças depois de

uma infecção estreptocócica, um fenômeno conhecido como transtornos

neuropsiquiátricos autoimunes pediátricos associados a infecções

estreptocócicas (PANDAS). Essa síndrome tem atenção concentrada no

papel dos gânglios da base e mecanismos imunes no TOC.