Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Cuidados Neurológicos Intensivos e Conduta após Lesão Encefálica Traumática
Cuidados Neurológicos Intensivos e
Conduta após Lesão Encefálica Traumática
O tratamento de um paciente com lesão grave é difícil e geralmente requer
uma abordagem de equipe. A fisiologia sistêmica e intracraniana pode
variar em momentos diferentes. Em 1996, a Brain Trauma Foundation, em
associação com a American Association of Neurologic Surgeons, publicou
as primeiras diretrizes baseadas em evidências para a conduta médica em
LET grave.
A primeira prioridade em LET grave é estabelecer uma ressuscitação
fisiológica rápida e completa, que inclui vias respiratórias seguras e a
manutenção de uma saturação de O acima de 90% e de uma pressão 2
arterial sistólica acima de 90 mmHg. Se já não tiver sido realizada, a
intubação endotraqueal deve ser efetuada em qualquer paciente com GCS
menor que 9 ou que continue hipóxico apesar da suplementação de
oxigênio. É rotina inserir um acesso arterial para registro contínuo da
pressão arterial (PA). Acessos centrais ou de Swan Ganz podem ser úteis
para orientar a ressuscitação com fluidos.
A ressuscitação ótima e a manutenção de líquidos intravenosos foram
discutidas anteriormente.
Quando o paciente estiver clínica e cirurgicamente estabilizado, a
prioridade seguinte é estabelecer o monitoramento da pressão intracraniana
(PIC) em pacientes com uma GCS menor que 9 que apresentem imagens de
tomografia computadorizada (TC) anormais. O monitoramento da PIC
também é importante em pacientes comatosos com TC normal se duas das
seguintes condições estiverem presentes: idade maior que 40 anos, PA
sistólica menor que 90 mmHg ou postura motora anormal unilateral ou
bilateral.
Existem vários dispositivos para monitoramento da PIC. O cateter
intraventricular é considerado o padrão-ouro e também permite a drenagem
do líquido cefalorraquiano (LCR) quando a PIC estiver elevada. Contudo, a
colocação de um cateter ventricular pode ser difícil em um encéfalo
edemaciado e/ou com desvio e uma variedade de monitores
parenquimatosos podem servir como substitutos razoáveis.
A saturação de oxigênio encefálico (PBo ) está sendo cada vez mais 2
monitorada em LET grave; contuso, sua verdadeira utilidade é incerta. As
informações iniciais sugerem que uma PBo de menos de 20 mmHg possa 2
estar associada a piores evoluções, mas não está claro se isso representa a
gravidade da lesão encefálica subjacente ou uma “lesão secundária”
potencialmente tratável.
Com menos frequência é usada a microdiálise encefálica, que pode medir
uma variedade de neurotransmissores e metabólitos, como glutamato,
aspartato e lactato. Também não está claro como as informações obtidas
deste modo afetarão a instituição de uma terapia específica.
O ponto central do tratamento da LET grave é o controle da PIC e, por
extensão, da pressão de perfusão encefálica (PPC). PPC corresponde à
pressão arterial média menos a PIC e é o determinante do fluxo sanguíneo
encefálico. Como foi observado, uma PIC persistentemente elevada (maior
que 20 mmHg) está associada a uma mortalidade importante. Uma PPC
ideal geralmente está na faixa de 60 a 70 mmHg.
As terapias de primeira linha para controle da PIC incluem sedação,
paralisação, elevação da cabeceira do leito para 20 a 30 graus e prevenção
de hipertermia (> 38,5 °C).
O manitol é o agente farmacológico usado com mais frequência para
reduzir a PIC. A ação primária do manitol está na indução de um gradiente
osmótico entre o plasma e as células, removendo assim o líquido do edema
do encéfalo para a circulação. Isso causa uma expansão do volume
sanguíneo e uma possível elevação da pressão arterial, mas em última
análise resulta em uma diurese que pode abaixar a pressão arterial. Os
efeitos secundários do manitol incluem uma redução da viscosidade do
sangue, que aumenta o fluxo sanguíneo encefálico e o fornecimento de
oxigênio ao encéfalo. As doses efetivas de manitol variam de 0,25 g/kg a 1
g/kg e causam redução da PIC em 15 a 30 minutos.
Uma vez que o manitol é um diurético osmótico, ele é totalmente
excretado pelos rins e por isso deve ser usado com cautela em pacientes
com insuficiência renal. É importante acompanhar o sódio sérico e a
osmolaridade e limitar o uso se o sódio sérico estiver elevado acima de 155
mEq/L ou a osmolaridade for maior que 320 mOsm/L.
Solução salina hipertônica (3%) está sendo cada vez mais usada para
tratar a hipertensão intracraniana. Seu mecanismo de ação consiste na
eliminação do líquido do edema por fluxo maciço. Outros possíveis
benefícios incluem imunomodulação — prevenção da aderência de
leucócitos e liberação de prostaglandinas — e inibição da excitotoxicidade.
Tipicamente, as doses administradas constituem bolos de 250 mL ou uma
infusão contínua de 1 mL/kg/h. Como com o manitol, o uso deve ser
limitado se o sódio sérico exceder 155 mEq/L ou a osmolaridade 320
mOsm/L.
FIGURA 14-17
A hiperventilação pode diminuir a PIC rapidamente ao causar
vasoconstrição e reduzir o volume sanguíneo intracraniano. A hiperventilação profilática prolongada antigamente representava a base do
controle da PIC, mas foi descoberto que ela piora a evolução,
provavelmente pela indução de isquemia. Atualmente, recomenda-se que a
hiperventilação seja usada apenas por curtos períodos e que a Pco seja 2
mantida acima de 30 mmHg.
Se a PIC não puder se controlada apesar destas medidas, a terapia com
barbitúricos em alta dose pode ser necessária. Isso suprime o metabolismo e
reduz a demanda de fluxo sanguíneo encefálico. O paciente, porém, deve
estar hemodinamicamente estável porque os barbitúricos podem ter um
efeito depressor cardíaco direto. Pentobarbital é o barbitúrico mais usado.
Uma dose de ataque típica corresponde a 10 mg/kg durante 30 minutos,
seguida por 5 mg/kg por hora em três doses, com uma dose de manutenção
de 1 mg/kg/h. O monitoramento eletroencefalográfico contínuo é
necessário, já que a meta da terapia é induzir uma supressão de surto.
A craniectomia descompressiva (CD) chegou para suplantar os
barbitúricos como tratamento “final” para elevações intratáveis da PIC.
Introduzida originalmente na década de 1960, o procedimento perdeu
adeptos porque, embora a mortalidade fosse reduzida após LET grave, a
qualidade da sobrevida permanecia inalterada. O procedimento envolve a
remoção de grandes porções do crânio em uma tentativa de controlar a PIC.
Na última década, muitos artigos publicados sobre CD utilizaram diferentes
critérios baseados na PIC para a realização do procedimento, como PIC
acima de 20 mmHg por mais de 30 minutos ou PIC acima de 30 mmHg por
mais de 20 minutos. Independentemente dos critérios usados, existe uma
correlação direta entre a quantidade de osso removida e a capacidade de
controlar a PIC. Ocorre uma redução de menos de 40% na PIC se a
remoção óssea for inferior a 8.000 mm3 e uma redução maior que 80% com
a remoção de mais de 12.000 mm3.
A CD pode ser unilateral ou bilateral. Quando unilateral, o osso é
removido da margem supraorbital anteriormente até o ínio posteriormente,
superiormente até 1 cm do seio sagital superior e inferiormente, até o
assoalho da fossa temporal. A CD bilateral tipicamente bifrontal, da
margem supraorbital até atrás da sutura coronal (incluindo uma
descompressão subtemporal generosa), deixando uma faixa de 1 cm de osso
sobre o seio sagital superior. O osso é preservado para reposição mais tarde, por implante no subcutâneo abdominal ou por congelamento. A reposição
tipicamente é efetuada em 1 a 3 meses. Alguns autores preconizam a
reposição do osso antes da alta hospitalar para minimizar o risco de
infecção, especialmente se o osso tiver sido implantado, e outras
complicações associadas à CD. Mais de 20% dos pacientes desenvolvem
hidrocefalia sintomática ou higromas subdurais após a CD. Isso está
relacionado em parte com a exposição do encéfalo à pressão atmosférica
após a normalização da PIC.
Embora a CD possa ser muito eficaz para controlar a elevação da PIC,
ainda é incerto se ela melhora a qualidade da sobrevida. Uma meta-análise
de Cochrane sobre os poucos dados prospectivos e randomizados existentes
atualmente determinou uma probabilidade de 50% de evolução
desfavorável após a CD. O Decompressive Craniotomy (DECRA) Trial
(Estudo de Craniotomia Descompressiva) sobre CD foi publicado
recentemente e, em adultos com LET difusa e hipertensão intracraniana
incontrolável, foi constatado que a CD bifrontal precoce diminuiu a pressão
intracraniana e a duração da permanência na unidade de terapia intensiva
(UTI), mas foi associada a evoluções mais desfavoráveis.
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