Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Síndrome de Rett
FIGURA 1-29
Síndrome de Rett
A síndrome de Rett (RTT; Online Mendelian Inheritance in Man [OMIM] –
Herança Mendeliana no Homem: fenótipo #312750; gene/lócus #300005) é um transtorno neurodesenvolvimentar notado pela primeira vez por volta de
1960 pelo pediatra do desenvolvimento austríaco Austrian Andreas Rett e o
neurologista infantil sueco, Bengt Hagberg. RTT é a principal causa
genética de deficiência intelectual grave em mulheres. Sua incidência é de
aproximadamente 1:10.000 nascimentos femininos.
Após uma gravidez e parto normais, o desenvolvimento inicial é
aparentemente normal até os 6 meses de idade; todavia, retrospectivamente,
ocorrem padrões sutis de desvio, incluindo a desaceleração do crescimento
adquirido da cabeça. O progresso do desenvolvimento paralisa-se entre 6 e
18 meses, seguido de franca regressão das habilidades motoras finas e
função da comunicação, incluindo a perda da linguagem adquirida com
precárias interações visuais e auditivas, sugerindo autismo.
Concomitantemente, movimentos estereotipados com a mão aparecem
durante a vigília: torcer a mão, levar a mão à boca, bater a mão ou dar
pancadinhas ou fazer movimentos incomuns com os dedos. Cada menina
desenvolve seu próprio repertório, geralmente evoluindo com o tempo.
Ocorrem sutis estereotipias nos pés e circum-oralmente. Embora a marcha
seja adquirida em cerca de 80%, aproximadamente 20% das crianças com
síndrome de Rett requerem assistência. Esta se perde subsequentemente em
cerca de 25% a 35% dos casos, tornando-se consideravelmente dispráxica
nos restantes, com padrões em base ampla e semi-intencionais, nas pontas
dos pés ou em retropulsão. Em geral, cerca de 70% das crianças são capazes
de andar, e 20% necessitam de assistência.
Após o período inicial de comportamentos semelhantes ao autista, surge
uma fase cada vez mais interativa dos 3 aos 5 anos de idade. Nesse período,
a criança se torna mais responsiva aos estímulos externos, com olhar
intenso e habilidades de comunicação receptivas e acentuadamente
melhores. Mas a linguagem expressiva continua pobre. Sua incapacidade de
falar ou se envolver em funções motoras finas dificulta a avaliação
intelectual. A melhora da comunicação é possível por meio de pranchas de
pintura e tecnologias computadorizadas. Embora a função cognitiva
permaneça estável, ocorre alentecimento gradual das habilidades motoras
na vida adulta, com crescente rigidez e postura distônica dos tornozelos e
pés.
Há problemas médicos comuns associados. A respiração periódica
consiste em prender a respiração, hiperventilação ou uma combinação destas. Isto é proeminente nas idades de 5 a 15 anos, exacerbando-se por
circunstâncias não familiares ou estressantes, incluindo grandes multidões
ou novas vizinhanças. A disfunção gastrointestinal inclui distúrbio de
mastigação e deglutição, refluxo gastroesofágico, esvaziamento estomacal
retardado, constipação, disfunção da vesícula biliar e dificuldade de
crescimento, tudo isso relacionado com os fundamentos neurológicos da
síndrome de Rett. A epilepsia e a escoliose são cada vez mais comuns
durante toda a infância e adolescência, ocorrendo basicamente em 80% dos
casos.
As crises convulsivas são infrequentes antes dos 2 anos, podendo ser
generalizadas ou parciais, e geralmente são fáceis de tratar. Muitas meninas
têm comportamentos não habituais (“palavras vagas”) difíceis de distinguir
da epilepsia, e necessitando, portanto, de um monitoramento
videoeletroencefalográfico. A escoliose se torna evidente aos 4 anos de
idade, com maior gravidade em crianças hipotônicas incapazes de manter
uma postura ereta independente. A cirurgia é necessária em 12% a 14% das
crianças afetadas, geralmente melhorando sua qualidade de vida. Usam-se
órteses com maior frequência; sua eficácia é inadequadamente avaliada. Os
pés e as mãos em geral são pequenos, excepcionalmente frios e
descoloridos.
Ocorre morte súbita, inexplicada, possivelmente relacionada com crises
convulsivas sem testemunhas, insuficiência respiratória ou síndrome do QT
prolongado; a sobrevida média é de +50 anos. Com a crescente apreciação
dos problemas médicos de base, o bem-estar geral aumentou
significativamente.
Fisiopatologia
No momento, 95% ou mais dos indivíduos com características compatíveis
com a RTT têm uma mutação no gene MECP2 (que codifica para a proteína
2 ligada a metil-CpG), localizada em Xq28. MECP2, membro de uma
família de proteínas ligadas ao metil, é um regulador epigenético de um
número grande e crescente de genes, incluindo o BDNF (fator neutrófico
derivado do cérebro) e CRH (hormônio liberador de corticotrofina). O
reduzido crescimento dos dendritos e de suas colunas está presente nos
hemisférios cerebrais (uma explicação para a desaceleração do crescimento da cabeça) e tronco encefálico. Toda função neurotransmissora está
prejudicada, com desequilíbrio entre a expressão excitatória
(principalmente glutamatérgica) e a inibitória (principalmente
GABAérgica). Os modelos de camundongo knockout condicionais indicam
o impacto funcional diverso em centros neurais específicos. Por exemplo, o
knockout da função GABAérgica no prosencéfalo, poupando o tronco
encefálico, resulta na ausência de anormalidades respiratórias periódicas.
Em geral, a RTT é uma condição esporádica e a recorrência na família é
inferior a 0,1%. Em 75% ou mais, novas mutações derivam das linhas
germinativas paternas. Em um pequeno número de casos familiares, a mãe é
portadora do gene, mas é normal ou mostra leve comprometimento
cognitivo ou uma deficiência de aprendizagem devido a um ângulo
favorável de inativação do cromossomo X. O diagnóstico diferencial inclui
autismo, síndrome de Angelman e lipofuscinoses ceroides neuronais.
Homens com mutações no MECP2 têm um distúrbio progressivo, e o
gene anormal é expresso em todas as células. A duplicação de MECP2
produz outro distúrbio distintivo, que se modifica com o envolvimento de
outros genes. Estes são bastante anormais, enquanto suas mães, 70% (ou
mais) das quais sendo portadoras da mesma duplicação, parecem normais
ainda que tenham comportamentos obsessivos-compulsivos significativos.
No momento, substancial pesquisa está sendo conduzida em
camundongos modelos de mutantes RTT/MECP2, e uma série de estudos
clínicos está em andamento ou em estágios de planejamento. Apesar disso,
o tratamento específico, destinado a proporcionar a cura, permanece
enganoso.
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