Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Vias Eferentes Cerebelares
FIGURA 8-10
Vias Eferentes Cerebelares As vias eferentes do cerebelo se originam das células de Purkinje (CPs),
que fazem projeção aos núcleos cerebelares profundos (NCPs). Os
neurônios dos NCPs transmitem então eferentes do cerebelo a áreas
extracerebelares na medula espinal, no tronco encefálico e nos hemisférios
encefálicos. Os neurônios dos NCPs recebem estímulos inibitórios das CPs
e estímulos excitatórios de colaterais de fibras musgosas e de fibras
trepadeiras em seu trajeto até o córtex cerebelar. A natureza dos eferentes
dos NCPs é determinada pela interação da excitação e da inibição,
governada pela chegada de informações em vias aferentes cerebelares e
pelo processamento dessas informações pelo córtex cerebelar. Os neurônios
de projeção glutamatérgica dos NCPs são excitatórios a todas as áreas
extracerebelares, enquanto os neurônios de projeção dos NCPs com
mediação GABA (ácido γ-aminobutírico) à oliva inferior são inibitórios. A
interação CP-NCP constitui a base do microcomplexo corticonuclear, o
componente essencial das zonas parassagitais, que forma módulos corticais
cerebelares (Fig. 8-12). As conexões recíprocas nucleolivares são
organizadas com precisão extraordinária em um circuito em alça fechada. O
microcomplexo CP-NCP recebe estímulos basicamente do mesmo
agrupamento de neurônios no complexo olivar inferior e para ele envia a
eferência dos NCPs. O padrão exato das terminações talâmicas varia de
acordo com o módulo cerebelar de origem, mas as projeções
talamocerebelares se conformam a um arranjo geral, pelo qual áreas focais
nos NCPs se projetam a agregados em forma de bastonete de neurônios
talâmicos, situados em lamelas curvas, orientadas longitudinalmente,
semelhantes a uma cebola, empilhadas em uma direção mediolateral.
A exceção ao padrão de projeção de CP-NCP em todo o cerebelo é o
córtex vesticulocerebelar (parte do verme do lóbulo IX [úvula], parte
vérmica [nódulo] e parte hemisférica [flóculo] do lóbulo X), que tem
conexões recíprocas diretas com núcleos vestibulares. Além disso, CPs na
zona B do verme anterior enviam seus axônios diretamente ao núcleo
vestibular lateral, a origem do trato vestibuloespinal lateral, pelo qual o
cerebelo regula a ativação dos sistemas motores espinais descendentes
(Figs. 8-11 e 8-12).
Núcleo do fastígio As projeções corticonucleares do verme cerebelar são dirigidas ao núcleo
do fastígio. Ele tem uma parte rostral e uma parte caudal, que têm
conexões e significância funcional diferentes. A parte rostral do núcleo do
fastígio envia eferentes pelo corpo justarrestiforme ipsilateral ao mesmo
lado do tronco encefálico. Axônios de sua parte caudal cruzam para o
cerebelo contralateral pelo fascículo uncinado de Russell (o fascículo
unciforme) e fazem projeção ao tronco encefálico contralateral pelo corpo
justarrestiforme ou ao hemisfério encefálico contralateral pelo pedúnculo
cerebelar superior (PCS).
Tanto a divisão rostral quanto a divisão caudal do núcleo do fastígio se
projetam a núcleos da formação reticular pontomedular dos quais recebem
estímulos (ver Aferentes Reticulares, Fig. 8-9). Ambas também se projetam
aos núcleos vestibulares; as projeções do núcleo do fastígio rostral são em
sua maior parte bilaterais e aquelas do núcleo do fastígio caudal são
predominantemente contralaterais. Há pequenas projeções cruzadas da parte
caudal do núcleo do fastígio a neurônios na região posterolateral da base da
ponte e aos núcleos peri-hipoglossais da medula oblonga. Projeções
fastigioespinais cruzadas terminam em neurônios motores na medula
espinal cervical superior.
Axônios cruzados da divisão caudal do núcleo do fastígio sobem pelo
pedúnculo cerebelar superior e terminam no núcleo pré-tectal, no colículo
superior e em núcleos mesencefálicos da comissura posterior relacionados
com o controle oculomotor e o visual. As conexões à substância cinzenta
periaquedutal, ao tegmento anterior, ao trato solitário e aos núcleos
interpeduncular e parabraquial têm impacto sobre as funções autonômicas,
nociceptivas e límbicas. Os eferentes do fastígio também se dirigem ao
hipotálamo. Há terminações talâmicas em núcleos relacionados com o
sistema motor, o anterolateral/anterior posterolateral, em núcleos de
projeção difusa da linha média e em núcleos intralaminares (central lateral e
centromediano). Estudos fisiológicos e anatômicos anteriores apontaram as
conexões do núcleo do fastígio à região septal, ao hipocampo e à amídala.
As conexões do núcleo do fastígio ao núcleo olivar inferior contralateral
estão na parte caudal da oliva acessória média.
Os eferentes do núcleo do fastígio influenciam múltiplos domínios
funcionais: a musculatura axial e do cíngulo dos membros (sistema motor
medial) através dos núcleos vestibulares e reticulares; os sistemas oculomotores, incluindo os centros do olhar vertical e do olhar horizontal
no mesencéfalo e na ponte; centros autonômicos por conexões com o tronco
encefálico e o hipotálamo; e a modulação emocional por ligações a
circuitos relacionados com o sistema límbico.
Núcleo globoso e núcleo emboliforme
Esses núcleos são designados em mamíferos inferiores como núcleo
interpósito posterior (NIP) e núcleo interpósito anterior (NIA),
respectivamente. Eles proporcionam eferentes cerebelares no pedúnculo
cerebelar do espinocerebelo, relacionado predominantemente com o sistema
motor, que recebe estímulos proprioceptivos e exteroceptivos da medula
espinal e do tronco encefálico e informações sensitivo-motoras do córtex
encefálico. As fibras saem dos núcleos interpósitos e seguem pelo
pedúnculo cerebelar superior (PCS), também designado como brachium
conjuntivum, cruzando pelo lado contralateral na decussação do PCS para
atravessar o núcleo rubro apresentando terminações em arranjo
somatotópico na parte caudal, magnocelular. Esse setor do núcleo rubro
constitui a origem das fibras rubroespinais, que agem sobre o aparelho
motor espinal, especialmente os músculos flexores do braço e da mão.
As múltiplas outras conexões do núcleo interpósito ao tronco encefálico
incluem (1) o núcleo reticular lateral e a formação reticular bulbar, dando
origem a tratos reticuloespinais, (2) os núcleos vestibulares como origem
dos tratos vestibuloespinais, (3) o colículo superior dando origem ao trato
tectoespinal, (4) os núcleos oculomotores (prepósito do hipoglosso, de
Darkschewitsch e comissuras posteriores), (5) o sistema sensorial (núcleo
cuneiforme lateral/externo) e (6) o sistema nociceptivo (substância cinzenta
periaquedutal, rafe medular). Essas fibras rostralmente dirigidas a partir do
núcleo interpósito continuam até o hipotálamo e a zona incerta antes de
chegar ao tálamo. Aí eles proporcionam terminações vigorosas a núcleos
ligados ao córtex motor pré-frontal, notadamente os núcleos da parte oral
ventral posterolateral (VPLo), e da parte caudal ventrolateral (VLc), e ao
núcleo lateral central, que tem conexões generalizadas além das áreas
motoras. Eferentes dos núcleos interpostos que passam pelo ramo
descendente do PCS fazem projeção de volta ao núcleo reticular do tegumento pontino contralateral e aos núcleos dorsal e peduncular da base
da ponte.
O núcleo globoso (NIP) está ligado reciprocamente à metade rostral da
oliva acessória medial contralateral e o núcleo emboliforme (NIA) à parte
rostromedial da oliva acessória dorsal.
Núcleo denteado
O grande e multiplamente dobrado núcleo denteado é o mais lateral dos
quatro principais NCPs. Ele é dividido em uma parte dorsal, com dobras
compactamente dispostas (polimicrogíricas), e uma parte ventral não tão
dobrada (macrogírica). A parte dorsal (paleodenteado, devido a sua relação
com o paleocerebelo ou espinocerebelo) está ligada às regiões motoras do
córtex encefálico. A parte ventral (neodenteado, interligada ao neocerebelo,
de evolução mais recente) está ligada às áreas associativas encefálicas. Os
axônios do núcleo denteado passam pelo hilo de substância branca, entram
no PCS, cruzam para o outro lado na decussação do brachium conjuntivum
e terminam no tálamo. As fibras do núcleo denteado dorsal terminam em
núcleos talâmicos relacionados com o sistema motor, incluindo o núcleo
ventroposterolateral e o ventral lateral, que fazem projeção então ao córtex
encefálico motor primário e ao córtex pré-motor. O terço médio e o terço
caudal do núcleo denteado estão ligados através do núcleo ventral anterior
do tálamo ao córtex pré-motor e aos campos oculares frontais recrutados
nos movimentos oculares sacádicos. A parte ventral e a parte lateral se
projetam através do setor dorsal do núcleo ventral lateral e do núcleo dorsal
medial à área pré-frontal dorsolateral, à área parietal posterior e a outras
áreas associativas. As projeções do núcleo denteado a núcleos
intralaminares talâmicos proporcionam uma influência generalizada sobre
áreas corticais encefálicas. Esses núcleos intralaminares também fazem
projeção ao estriado, proporcionando uma ligação indireta entre o cerebelo
e os gânglios da base. O núcleo denteado também faz projeção à parte de
pequenas células (parvicelular) do núcleo rubro, que faz feedback através
do trato tegmentar central à oliva inferior, a qual, por sua vez, está ligada ao
cerebelo. As lesões nesse triângulo de Guillain e Mollaret acarretam um
tremor palatino. As fibras denteadas no ramo descendente do pedúnculo
cerebelar superior (PCS) terminam em núcleos reticulares na ponte.