Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Abuso de Parceiro Íntimo

FIGURA 4-20

 

Abuso de Parceiro Íntimo Abuso de parceiro íntimo refere-se a maus-tratos físicos, sexuais ou

psicológicos por um parceiro ou cônjuge atual ou passado. Ele pode ocorrer

no contexto de casais heterossexuais ou homossexuais e pode consistir em

um único incidente ou violência recorrente que dura muitos anos.

Existem quatro categorias principais de abuso de parceiro íntimo: (1)

abuso físico, no qual a força física é usada para matar, incapacitar, lesionar

ou ferir de outra forma um parceiro; (2) abuso sexual, que envolve coagir

um parceiro a praticar um ato sexual sem consentimento; (3) ameaças de

violência, nas quais afirmações verbais, gestos ou armas transmitem um

desejo de matar, incapacitar, lesionar ou de outra forma ferir um parceiro; e

(4) abuso psicológico ou emocional, incluindo insultos, comportamento

controlador, dano deliberado à autoestima, perseguição e impedir que o

parceiro tenha acesso a família, amigos, informações, dinheiro e outros

recursos.

Nos Estados Unidos, 4,8 milhões de agressões e estupros de mulheres e

2,9 milhões de agressões físicas de homens ocorrem anualmente em virtude

de abuso de parceiro íntimo. Em 2007, aconteceram 2.340 mortes nos

Estados Unidos em consequência de violência de parceiro íntimo, das quais

70% eram mulheres e 30% homens.

 

Apresentação Clínica e Diagnóstico

Os fatores de risco para o abuso de parceiro íntimo incluem baixa

autoestima, pobreza, transtornos por uso de substâncias, pouco apoio social,

crença em papéis de gêneros rígidos, isolamento social, experiência

pregressa de abuso físico ou psicológico, transtorno da personalidade

borderline (Fig. 4-18), transtorno da personalidade antissocial (Fig. 4-19),

instabilidade no relacionamento, estressores financeiros e tolerância

comunitária da violência de parceiro íntimo.

As vítimas de abuso de parceiro íntimo podem se apresentar com lesões

físicas, como arranhões, cortes, hematomas, vergões, ossos fraturados,

sangramento interno e trauma craniano. O trauma psicológico pela

violência do parceiro íntimo pode manifestar-se como depressão, ideação

suicida e tentativas de suicídio, flashbacks, ataques de pânico e dificuldade

para dormir.

O mnemônico SAFE (seguro) (Sebastian, 1996) é usado com frequência

para facilitar a discussão do abuso de parceiro íntimo perguntando-se a

respeito de (1) estresse e segurança no relacionamento, (2) estar com medo

de ou sofrendo abuso do parceiro, (3) ter familiares e amigos que servem de

apoio social e (4) ter um plano de emergência se estiver em perigo.

 

Conduta

Os médicos devem proporcionar às vítimas de abuso de parceiro íntimo um

ambiente onde elas se sintam seguras. Um exame físico completo e

anamnese são necessários, com a documentação detalhada no prontuário

médico de todos os achados e intervenções. O abuso de parceiro íntimo

deve ser confirmado ao paciente, que precisa saber que não existe desculpa

para o abuso e que não é culpa dele ou dela.

É preciso que o paciente receba tratamento clínico e cirúrgico conforme

necessário para as sequelas do abuso, bem como avaliação de sinais e

sintomas de trauma psicológico. As vítimas precisam ser advertidas de que

a violência com frequência vai se agravando com o tempo. Um

levantamento dos riscos deverá avaliar a segurança das vítimas e de seus

filhos. O abuso de parceiro íntimo deve ser comunicado às autoridades

legais se apropriado. Os médicos precisam formular um plano de segurança

com o paciente e oferecer encaminhamentos para abrigos, assistência legal

e serviços de saúde mental.

 

Curso

Lenore Walker publicou uma teoria em 1979 descrevendo o padrão cíclico

de relacionamentos abusivos: (1) a fase de escalada de tensão ocorre antes

de um incidente abusivo e envolve tensão crescente no contexto de

comunicação ineficaz e comportamento passivo-agressivo; (2) a fase

manifesta envolve atos violentos ou de outra forma abusivos; (3) a fase de

reconciliação/lua de mel, que consiste em pedidos de desculpa,

manifestações de afeto ou tentativas deixar passar o abuso precedente,

seguida por uma “fase de calmaria”.

Além de acarretar um risco maior de lesões corporais e até mesmo

assassinato, o abuso de parceiro íntimo pode impactar negativamente a

saúde física da vítima na forma de cefaleias, fibromialgia, síndrome do cólon irritável, distúrbios cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais,

distúrbios ginecológicos, distúrbios neurológicos, doenças sexualmente

transmitidas e complicações obstétricas, como problemas de saúde neonatal

e óbito perinatal. As sequelas psicológicas podem incluir depressão,

transtornos de ansiedade, transtornos alimentares, transtornos por uso de

substâncias, comportamentos sexuais de alto risco, tendências suicidas,

baixa autoestima, transtornos dissociativos e transtorno de estresse pós-

traumático.

É importante observar que a cada ano mais de 3 milhões de crianças nos

Estados Unidos testemunham a violência cometida por parceiro íntimo.

Testemunhar o abuso de parceiro íntimo em casa pode ter um efeito adverso

no desenvolvimento emocional, social, comportamental e cognitivo de uma

criança, bem como aumentar a probabilidade de que ela pratique abuso de

parceiro íntimo posteriormente na vida.