Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Transtorno de Estresse Pós-traumático

somáticas que são então usadas para controlar a ansiedade durante a

exposição a situações temidas e sensações corporais. Múltiplos estudos e

metanálises mostram que a combinação de medicação e psicoterapia é mais

eficaz no tratamento do pânico do que uma dessas modalidades terapêuticas

sozinha.

 

FIGURA 4-8

 

Transtorno de Estresse Pós-traumático

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um transtorno que se

desenvolve em resposta a um evento traumático, como uma agressão sexual (estupro), combate militar, desastre natural ou um acidente grave. O TEPT é

caracterizado por três grupos de sintomas: (1) sintomas de revivência em

que o paciente alivia o trauma em seus pensamentos e sonhos e não

consegue eliminá-los de sua mente; (2) sintomas de evitação e

entorpecimento (atenuação da dor) nos quais o paciente evita pessoas,

lugares e qualquer coisa que o faça lembrar do trauma e bloqueia suas

respostas emocionais; (3) sintomas de hiperexcitabilidade psíquica que

envolvem dificuldade de concentração, sensação constante e estar em

vigilância e em perigo, dificuldades de sono e irritabilidade. Para ser

diagnosticado com TEPT, é preciso que o paciente relate que o evento

traumático foi acompanhado por sentimentos de impotência e horror, que

esses sintomas ocorram durante pelo menos um mês e que interfiram no

funcionamento do paciente na vida diária.

O TEPT é distinto de outros transtornos mentais comuns no sentido de

que a exposição ao trauma é um prerrequisito para o diagnóstico. Eventos

ameaçadores iniciam a resposta de “luta ou fuga” por intermédio do eixo

hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal e o sistema do locus ceruleus e

noradrenérgico. Esses sistemas têm interconexões recíprocas importantes

com a amígdala e o hipocampo, estruturas límbicas envolvidas no condi-

cionamento do medo e consolidação da memória, e com as estrutras

encefálicas pré-frontais necessárias à extinção de memórias de medo e

motivação de recompensa. Inicialmente, essa resposta de estresse

neurobiológica é considerada adaptativa; ela mobiliza energia, aumenta a

vigilância e o foco, facilita a formação de memória e deprime o sistema

imune. Quando a ameaça aguda passa, um sistema de feedback negativo

elaborado retornará o corpo à homeostasia. Entretanto, em alguns

indivíduos, essa resposta aguda adaptativa à ameaça torna-se persistente e

patológica.

Apesar de uma maioria dos adultos experimentarem pelo menos um

evento traumático durante a vida, apenas uma minoria desenvolve TEPT; a

prevalência vitalícia de TEPT no Estados Unidos é estimada em 6,7%. O

transtorno é duas vezes mais comum em mulheres do que em homens.

Embora muitos indivíduos sofram alguns sintomas de TEPT nos dias e

semanas que se seguem imediatamente a um trauma, apenas uma minoria

exibirá os sintomas persistentes necessários ao diagnóstico de TEPT.

Eventos incontroláveis e ameaçadores, como estupro, abuso infantil e combate militar, estão associados de maneira consistente ao maior risco de

desenvolver TEPT depois de um evento. O risco de desenvolver TEPT é

inferior a 50% até mesmo para eventos graves como um estupro violento.

Esse contraste entre exposição ao trauma e prevalência de TEPT levou à

pesquisa de fatores de risco e de proteção para o transtorno. As pesquisas

existentes sugerem que características pré-trauma, como história familiar e

pessoal de psicopatologia, adversidades na infância e baixa capacidade

cognitiva; fatores relacionados com o trauma, como o tipo de evento,

ameaça à vida percebida e resposta psicológica peritraumática; e fatores

pós-trauma, como apoio social, todos têm um papel em determinar quem

desenvolve o transtorno. Há três estudos sugerindo que o TEPT é

moderadamente hereditário e que fatores genéticos influenciam quem

desenvolve o transtorno.

O transtorno torna-se crônico (i.e., dura mais de três meses) para quase

50% dos que se encaixam nos critérios diagnósticos; esses pacientes podem

se beneficiar de tratamento. O tratamento de escolha para TEPT é

basicamente terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e

possivelmente farmacoterapia. Dois tipos de terapia cognitivo-

comportamental, terapia de exposição prolongada e terapia de

processamento cognitivo, foram desenvolvidos especificamente para o

tratamento do TEPT. Essas duas técnicas se baseiam, até certo ponto, em

uma conceitualização do TEPT como um transtorno da impossibilidade de

se recuperar do evento traumático devido à evitação do evento traumático

em si, incluindo pensamentos, sentimentos, lugares e pessoas associadas à

lembrança. A terapia de exposição prolongada visa a evitação fazendo com

que o paciente reencene a memória do evento traumático e se engaje a, em

vez de evitar, lembranças do trauma tanto dentro quanto fora da sessão

terapêutica. A terapia de processamento cognitivo visa o aspecto da

evitação ao lidar com crenças equivocadas a respeito das causas e

consequências de eventos traumáticos. Um foco primário da terapia de

processamento cognitivo é usar técnicas cognitivas para ajudar os pacientes

a entender o evento em si, e subsequentemente modificar o significado

atribuído ao evento traumático. A terapia de exposição prolongada e a

terapia de processamento cognitivo são igualmente efetivas no tratamento

da TEPT. Os únicos agentes farmacológicos aprovados pela U.S. Food and

Drug Administration (FDA) para o tratamento de TEPT são os ISRSs sertalina e paroxetina, mas as evidências de sua eficácia no tratamento do

TEPT são insuficientes. A ampliação farmacológica da terapia cognitivo-

comportamental focada no trauma é a ênfase das pesquisas atuais.