Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Esclerose Múltipla: Manifestações Clínicas
FIGURA 10-2
Esclerose Múltipla: Manifestações Clínicas
Os sinais e sintomas da EM variam de acordo com a localização das placas.
Neurite óptica Tipicamente os pacientes apresentam uma diminuição unilateral
relativamente abrupta na visão central ou paracentral, com dor ao
movimento do globo ocular; esta é uma manifestação clínica inicial muito
comum da EM. Por vezes os sintomas são sutis, com breves episódios de
acuidade visual diminuída provocados pela exposição ao calor, como
banhos de chuveiro bem quentes, seguidos de uma pronta resolução. A
aquisição de imagens por ressonância magnética (RM) pode mostrar uma
lesão no nervo óptico afetado e geralmente, caso este seja um primeiro
ataque de EM, outras lesões indicativas de uma atividade anterior
clinicamente silenciosa da EM são vistas à RM encefálica. Uma neurite
óptica sem a presença concomitante dessas lesões à RM raramente é um
sinal inicial de EM. Durante a recuperação, frequentemente se desenvolve a
palidez do disco óptico.
Lesões do tronco encefálico
Estas são comuns e tendem a ocorrer precocemente. A diplopia é
geralmente causada por uma lesão afetando no nervo abducente (VI). O
nistagmo é um sinal comum, mas geralmente se mostra assintomático. Ele é
um sinal particularmente útil quando se apresenta em grau acentuado e
especialmente quando o componente primário é vertical.
A oftalmoplegia internuclear é um sinal clássico da EM, indicando o
envolvimento do fascículo longitudinal medial. O exame revela a paresia da
adução ao olhar lateral e um nistagmo associado no olho em abdução. A
capacidade de convergência (i.e., adução bilateral) pode estar preservada
apesar da perda unilateral da adução ao olhar lateral.
Pode ser difícil diferenciar-se as vertigens de uma labirintite benigna,
embora um achado de nistagmo vertical indique uma causa do SNC e não
periférica. A neuralgia do trigêmeo é por vezes tomada erroneamente pelo
tic douloureux idiopático, uma doença predominante em idosos. A
neuralgia do trigêmeo ocorrendo em adultos jovens é altamente sugestiva
de EM, porque caso contrário ela é muito atípica nesse grupo etário. Assim
também, a fraqueza facial pode ser confundida com a paralisia de Bell.
Ataxia cerebelar Esta ocorre em torno de 50% dos pacientes. Os sintomas incluem equilíbrio
deficiente, tremor de intenção, disartria e, quando a ataxia é extrema,
titubeação. Os sintomas cerebelares podem ser muito incapacitantes.
Sintomas sensitivos
Ocorrendo tipicamente ao início da evolução da doença por parestesias e
disestesias, descritas frequentemente como sensações de constrição ou de
inchaço, esses sintomas indicam a desmielinização da coluna posterior na
medula espinal cervical, uma área que pode ser afetada precocemente na
EM. Uma área de dormência em faixa hemicircunferencial, geralmente na
parte média do tronco, é frequente, mas também pode ser vista na mielite
transversa ou em lesões tumorais da medula espinal. Os pacientes se
esquecem frequentemente de mencionar um sintoma clinicamente útil
muito importante, qual seja o sinal de Lhermitte. É preciso que o médico
indague a respeito desse sintoma, porque os pacientes raramente fornecem
voluntariamente essa informação. O sinal de Lhermitte é caracterizado por
sensações momentâneas semelhantes a choques elétricos, se disseminando
ou se irradiando para baixo pelos braços, as costas ou as pernas,
precipitadas pelo movimento do pescoço. O sinal de Lhermitte, porém, não
é diagnosticamente específico; ele pode ser provocado por outras lesões
posteriores da medula espinal cervical. O exame revela frequentemente a
diminuição dos sentidos vibratório e posicional.
Disfunção do trato corticoespinal
Essa disfunção causa fadiga muscular, rigidez, espasticidade e fraqueza.
Hiper-reflexia, clono e sinal de Babinski são evocados com frequência. O
clono é uma forma de movimento caracterizada por contrações e
relaxamentos de um músculo ocorrendo em rápida sucessão. O clono é
evocado mais frequentemente no tornozelo. O sinal de Babinski é uma
extensão do hálux e a abdução, ou abertura em leque, do segundo ao quinto
artelhos, em vez da resposta normal de flexão à estimulação plantar.
A frequência urinária e a urgência urinária sugerem uma bexiga
neurogênica em hiper-reflexia. Constipação intestinal e disfunção sexual
também são queixas frequentes.
Uma fatigabilidade extraordinária é comum e pode ser irresistível. Os
axônios desmielinizados necessitam de mais energia para conduzir impulsos
nervosos que os axônios apropriadamente protegidos; a condução, portanto,
pode falhar quando houver esforço. Por exemplo, um coxear pode substituir
uma marcha aparentemente normal depois de se caminhar por alguma
distância, somente para desaparecer após um período de descanso. A
ineficiência de axônios desmielinizados piora com o aumento da
temperatura corporal, de modo que sintomas de curta duração, incluindo um
mancar transitório, podem ser provocados pelo calor do verão, por se tomar
um banho de chuveiro quente, pela febre ou podem ocorrer ao final da
tarde, quando a oscilação diurna ascendente normalmente modesta da
temperatura corporal atinge um pico máximo, assim como ocorre com a
lassidão relacionada com a EM.
Os pacientes de EM podem apresentar uma dor mal definida,
presumivelmente de origem neuropática. No entanto, deve-se sempre
procurar outras patologias antes de se presumir que a EM é a causa.
Depressão
Ocorrendo em algum momento em 50% dos pacientes de EM, episódios de
depressão precedem por vezes o início da doença franca. A frequência da
depressão é três vezes maior do que aquela encontrada na população geral.
As características principais são raiva, frustração, irritabilidade, ansiedade e
francos ataques de pânico.
Cognição
Uma deficiência leve da memória de curto prazo com frequência se
evidencia logo de início. Isso pode evoluir para déficits cognitivos
substanciais em uma etapa mais avançada da doença.