Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Hipóxia
FIGURA 9-29
Hipóxia O encéfalo é particularmente vulnerável a qualquer diminuição no seu
suprimento de sangue, oxigênio ou combustível. Pacientes com hipotensão
ou hipóxia muitas vezes apresentam-se a seus médicos ou à emergência
devido à disfunção encefálica. Muito frequentemente, a diminuição da
perfusão encefálica é causada por doença cardíaca, quer arritmia ou falência
da bomba, frequentemente causada por infarto agudo do miocárdio. Choque
e hipovolemia também diminuem toda a perfusão encefálica. Devido à
insuficiência ventilatória levar à hipoventilação e à hipóxia, logo, causar
diminuição da função cardíaca, a hipóxia e a hipoperfusão estão geralmente
combinadas. O termo geral encefalopatia hipóxico-isquêmica reflete a
natureza dual do estresse do sistema nervoso central. A embolia pulmonar é
outro transtorno agudo que provoca hipotensão e diminuição da oxigenação
sanguínea. Em alguns pacientes, a diminuição da perfusão encefálica é
causada por perda aguda de sangue ou hipovolemia, ou choque relacionado
com sepse.
A diminuição global da perfusão encefálica causa disfunção encefálica
generalizada não focal. Tonturas, vertigens, confusão e dificuldades de
concentração mental são comuns. Sinais e sintomas focais como
hemiplegia, hemianopia e afasia estão raramente presentes. Às vezes, AVEs
anteriores ou oclusões vasculares podem contribuir para sinais assimétricos.
Pacientes com perfusão encefálica diminuída globalmente com frequência
apresentam sintomas como taquicardia, sudorese e hipotensão. A
hipotensão grave prolongada provoca coma; inicialmente, muitas vezes, os
pacientes não têm reflexos remanescentes do tronco encefálico (pupilar,
corneano, oculovestibular).
Quando e se o coma é transposto, ou a hipotensão é menos grave, as
anormalidades da função cortical de memória, visão e comportamento
predominam.
O hipocampo é particularmente vulnerável à isquemia; assim, a perda de
memória é particularmente comum. A zona de limite do córtex encefálico
localizada entre as artérias cerebrais médias e as artérias cerebrais
anteriores e posteriores é frequentemente predisposta à isquemia. A zona de
limite posterior entre a artéria cerebral média e os territórios das artérias
cerebrais posteriores está mais frequentemente envolvida, possivelmente
porque estas regiões são mais afastadas do coração.
As lesões nas zonas de limite posterior podem desconectar o córtex
visual calcarino preservado no lobo occipital de centros mais anteriores que
controlam o movimento dos olhos. Um problema visual chamado síndrome
de Balint ocorre muitas vezes. Os pacientes agem como se eles não
pudessem ver, mas algumas vezes surpreendentemente notam pequenos
objetos. As características da síndrome de Balint são: (1) asimultagnosia: os
pacientes veem as coisas aos poucos, isto é, não veem todos os objetos em
seu campo de visão de uma vez só e podem notar apenas partes dos objetos,
(2) ataxia óptica: os pacientes não podem coordenar os movimentos de mão
e olho e apontam de forma irregular em objetos; (3) apraxia de movimento
ocular: os pacientes não podem dirigir seu olhar onde eles desejam
contemplar.
Quando a hipotensão é mais grave, as lesões podem se espalhar para as
zonas de limites anteriores entre a artéria cerebral anterior e a artéria
cerebral média. As áreas do homúnculo motor mais afetadas são aquelas
relacionadas com o ombro, o braço e a coxa. O território da face na porção
central da artéria cerebral média e a região e suprimento do pé no centro da
artéria cerebral anterior são poupados. A distribuição da fraqueza tem sido
comparada a “um homem em um barril”. Os campos oculares frontais
também são afetados de modo que resultam em movimentos oculares
vagos, movimentos de cabeça passivos hiperativos (reflexos de olho de
boneca). O estupor resulta de extensa isquemia da zona de limite bilateral.
Quando a hipoperfusão é grave e prolongada, ocorre o dano anóxico
difuso para os neurônios do encéfalo, tronco encefálico e cerebelo. Os
danos mais graves podem ocorrer em regiões de grandes células do córtex
encefálico, produzindo um padrão de necrose laminar. Danos hipóxico-
isquêmicos graves causam coma e morte encefálica. Em alguns pacientes, a
recuperação parcial deixa-os em um estado minimamente consciente ou em
um estado vegetativo persistente no qual há comunicação mínima ou não há
comunicação.
Embora o dano cerebelar hipóxico-isquêmico seja frequentemente
encontrado em necropsias, sinais clínicos de disfunção cerebelar são raros e
geralmente são ofuscados por anormalidades encefálicas. Depois de uma
parada cardíaca, alguns pacientes têm abalos musculares finos espontâneos
ou movimentos grosseiros bruscos, marcadamente exagerados quando os
membros são usados. Este distúrbio de movimento dos membros é normalmente referido como uma ação de mioclonia ou síndrome de Lance-
Adams e é frequentemente acompanhado por ataxia de marcha.
Muito ocasionalmente, uma deterioração progressiva tardia se
desenvolve após uma única agressão hipóxica. Em outros casos raros, os
pacientes se recuperam do coma sem dano encefálico óbvio, mas em vez
disso tem paraplegia relacionada com o dano hipóxico-isquêmico à medula
espinal. As regiões espinais mais vulneráveis são os segmentos da medula
espinhal torácicos superior e inferior e lombar. O segmento cervical
geralmente não está envolvido de modo que os braços estão normais, apesar
da fraqueza grave dos membros inferiores.