Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Córtex Cerebelar e Núcleos Cerebelares
A histologia do córtex cerebelar difere fundamentalmente daquela do córtex
encefálico por ter praticamente a mesma estrutura paracristalina em toda a
sua extensão. O córtex trilaminado, com a camada de células de Purkinje
situando-se entre a camada granular mais interna e a camada molecular
mais externa, se justapõe de cada lado de uma lamela de substância branca,
levando fibras para o córtex e dele provenientes (Figs. 8-4 e 8-5).
A camada de células de Purkinje (CPs) é uma monocamada inteiramente
constituída de CPs, um folheto de 15 milhões de neurônios, com espessura
de 100 μm, situado entre a camada molecular e a granular. A CP é o
neurônio definitivo do cerebelo. Ele está entre as maiores células do sistema
nervoso, com um soma em forma de pera (35 × 70 μm) e uma aparência
semelhante a um leque de sua árvore dendrítica. O dendrito proximal se
divide em dois dendritos principais que se ramificam múltiplas vezes e
formam uma placa achatada (400 × 20 μm) no plano parassagital, orientada
perpendicularmente ao eixo longo da folha. Cada CP tem mais de 150.000
espinhas, com densidade 25 vezes maior nos dendritos distais, em que
fazem sinapse às fibras paralelas (FP), que nos dendritos proximais, em que
fazem sinapse às fibras trepadeiras (FT). A CP é o único neurônio cujos
axônios saem do córtex cerebelar. O axônio desce por uma região estreitada
circundada pelo pinceau (feixe em pincel) de terminais de axônios de
células em cesto, adquire uma bainha de mielina e desce até os núcleos
cerebelares profundos ou os núcleos vestibulares. Colaterais recorrentes
passam de volta em direção à camada molecular, inibindo interneurônios e
também o soma e os dendritos proximais de CPs vizinhas.
A camada molecular tem 300 μm de espessura. Ela contém axônios de
células granulares e FP, arborizações dendríticas de CPs e de interneurônios
de Golgi e corpos celulares de células em cesto, células estreladas e células
gliais de sustentação.
As fibras paralelas são formadas quando o axônio de células granulares
sobe pela camada de CPs até a camada molecular e se ramifica na forma de
um T para formar a FP, um dos mais finos axônios de vertebrados. Ele
segue paralelo ao eixo longo da folha por 1 a 3 mm em ratos e gatos e
possivelmente por 6 a 8 mm nos primatas.
A célula em cesto se situa no terço inferior da camada molecular, logo
acima das CPs. Seus dendritos se estendem para cima até a camada
molecular em um campo em forma de leque com largura de 30 μm no plano
parassagital (o mesmo plano da árvore dendrítica da CP), emitindo
relativamente poucos ramos, interdigitando-se aos campos dendríticos das
CPs e fazendo contato com as FPs. Seu axônio segue no plano parassagital
entre os dendritos inferiores de 9 ou 10 CPs. Ele emite uma sucessão de
ramos descendentes que envolvem os corpos das CPs em uma bainha
axônica com inúmeros contatos sinápticos, dando à célula em cesto sua
designação. Os ramos axônicos terminais circundam o segmento inicial do
axônio da CP em um denso plexo de fibras com a aparência de um pincel
velho (em francês, pinceau). Esse complexo axoaxônico é único no sistema
nervoso dos mamíferos. Colaterais ascendentes esparsos do axônio da
célula em cesto fazem sinapse em dendritos secundários e terciários de CP.
As células estreladas são pequenas, com diâmetro de 5 a 10 μm,
dendritos curtos e profusamente ramificados fazendo contato com fibras
paralelas e axônios que terminam sobre dendritos de FP. As células
estreladas superficiais na camada molecular superior têm axônios curtos
orientados no plano parassagital. As células estreladas profundas na parte
média da camada molecular têm axônios longos, de até 450 μm, no plano
parassagital, emitindo colaterais ascendentes e descendentes no início de
seu trajeto, mas eles raramente entram no plexo pericelular das CPs e não
participam do feixe em pincel.
A camada granular tem 200 a 300 μm de profundidade e contém células
granulares, células de Golgi, células de Lugaro e células em escova
unipolares. As células granulares são em número aproximado de 50
bilhões, 3.000 para cada CP. Elas têm um citoplasma mínimo, estão entre os
menores neurônios no encéfalo (diâmetro de 6 a 8 μm) e são as mais
numerosas. Sua densidade confere à camada de células granulares uma cor
azul profunda a corantes como o de Nissl, que marca o material nuclear. A
célula granular tem 3 a 5 dendritos ramificados em forma de garras, que
participam do glomérulo da célula granular, ilhotas pálidas entre as células
granulares contendo uma articulação complexa entre rosetas terminais de
aferentes de fibras musgosas, arborizações de dendritos de células
granulares e axônios de células de Golgi. O axônio da célula granular sobe até a camada molecular, em que suas FPs fornecem estímulos excitatórios
às CPs.
As células de Golgi são interneurônios inibitórios irregularmente
arredondados ou poligonais, em número aproximado de 1 por cada 1,5 CP.
Em contraste com as CPs, as células em cesto e as células estreladas, a
árvore dendrítica da célula de Golgi tem uma configuração tridimensional.
Grandes células de Golgi, com diâmetro de 10 a 24 μm, se situam na
metade superior da camada granular, com seus dendritos se originando
como um ou dois troncos principais, com ramos subsidiários que sobem até
a zona mais externa da camada molecular. Células de Golgi menores, de 9 a
18 μm, se encontram nas profundezas da camada granular, com dendritos
que se irradiam do soma. Um a três axônios emergem do corpo da célula de
Golgi ou dos dendritos proximais e se dividem repetidamente, ocasionando
múltiplos ramos finos que formam um plexo denso elaborado, que se
estende por toda a camada granular e participa do glomérulo da célula
granular.
FIGURA 8-5
A célula de Lugaro é um interneurônio inibitório fusiforme medindo 10
× 30 μm, situado horizontal ou obliquamente no terço mais externo da camada granular. Seus dendritos se originam das extremidades afuniladas
nos dois polos e se estendem horizontalmente por até 600 μm no nível dos
corpos de CPs, no plexo infraganglionar formado pelos colaterais axônicos
recorrentes das CPs. Ela recebe estímulos excitatórios do axônio da célula
granular e modulação serotoninérgica agindo pela transmissão de volume.
Seu axônio se origina do corpo celular ou de grandes dendritos proximais,
formando dois tipos de plexos axônicos. Um axônio parassagital faz contato
com o soma e os dendritos das células estreladas e em cesto na camada
molecular; o outro é transverso e faz contato com células de Golgi na
camada granular.
A célula unipolar em escova (CUE) é o único interneurônio excitatório
do cerebelo. O soma tem 9 a 12 μm de diâmetro, com um único dendrito
terminando em uma extremidade em escova compacta de dendríolos que
têm extensos contatos sinápticos com a roseta de fibras musgosas. Seu
axônio faz sinapse com células granulares e com células de Golgi. A CUE é
encontrada no vestibulocerebelo, no verme e no núcleo coclear dorsal e é
considerada como amplificando sinais vestibulares e proporcionando uma
excitação anterógrada a células granulares.
As células gliais no cerebelo incluem astrócitos protoplásmicos que
envolvem o pericário da CP em uma bainha neuroglial; as células gliais de
Bergmann na camada de CPs, que estão envolvidas na migração neural e no
desenvolvimento do córtex cerebelar e que participam da regulação da
transmissão neural glutamatérgica no cerebelo definitivo; e a
oligodendróglia na substância branca cerebelar e na camada granular.
Núcleos cerebelares
O núcleo do fastígio, o núcleo globoso, o núcleo emboliforme e o núcleo
denteado são designados conjuntamente como os núcleos cerebelares
profundos (NCPs), para diferenciá-los dos núcleos pré-cerebelares. O
núcleo do fastígio é o homólogo do núcleo medial nos primatas inferiores,
enquanto os núcleos interpósitos posterior e anterior são homólogos ao
núcleo globoso e ao emboliforme, respectivamente. Entre os núcleos
cerebelares, o que mais evoluiu foi o núcleo denteado, ou núcleo lateral nos
vertebrados inferiores. A parte posterior (dorsal), com pregas pequenas e
estreitas (microgíricas), contém células grandes e é filogeneticamente mais antiga. A parte anterior (ventral) e lateral macrogírica contém neurônios
menores e se expandiu muito juntamente com o córtex associativo dos
hemisférios encefálicos. Isso é importante pela perspectiva da antropologia,
assim como da neurociência cognitiva e da neurologia comportamental. O
núcleo vestibular lateral de Deiters está localizado na medula oblonga
dorsal. Ele recebe axônios de CP diretamente do vestibulocerebelo e de
parte do verme anterior e é equivalente a um núcleo cerebelar profundo.
Os neurônios do NCP são superados pelas CPs do córtex cerebelar por
aproximadamente 26 para 1. Cada CP faz contato com aproximadamente 35
neurônios nucleares e cada neurônio do NCP recebe estímulos de mais de
800 CPs. As características citológicas do NCP sugerem subdivisões
anatômicas que têm relevância para sua conectividade e sua funcionalidade,
mas estas não são suficientemente definitivas para subdividir formalmente
de maneira adicional os núcleos. Os neurônios do NCP são de três tipos.
Grandes neurônios glutamatérgicos levam estímulos excitatórios ao tálamo
e ao tronco encefálico e projeções nucleocorticais de retorno ao córtex
cerebelar; pequenos neurônios GABA (ácido γ-aminobutírico)érgicos são
inibitórios para o núcleo olivar inferior; e pequenos neurônios glicinérgicos
no NCP são considerados como interneurônios intranucleares inibitórios. Já
é possível se identificar o NCP à aquisição de imagens por ressonância
magnética (RM) tirando-se proveito de seu conteúdo de ferro, embora a
organização detalhada não se evidencie ao uso da tecnologia disponível.