Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Hemorragia Intraencefálica
FIGURA 9-36
Hemorragia Intraencefálica A hemorragia intraencefálica (HIE) representa de 10% a 15% dos AVEs.
Sua importância relativa deriva da alta mortalidade (35% a 50% em 6
meses) e da gravidade das sequelas permanentes nos sobreviventes. Apenas
20% são independentes em 6 meses, comparados com 60% após o AVE
isquêmico. A mortalidade e a morbidade relacionadas com HIE são
principalmente dependentes da localização e do tamanho do hematoma;
sendo este último conhecido por aumentar substancialmente logo após o
início da HIE em quase 40% dos pacientes. Hemorragias inferiores a 30 cm3
geralmente têm um bom prognóstico; de 30 a 60 cm3 podem ser indicadas
para cirurgia e ter uma melhor perspectiva, enquanto aquelas maiores que
60 cm3 apresentam um prognóstico muito pobre, principalmente aquelas em
que o paciente mostra um nível de consciência reduzido. Em contraste,
hemorragias devido à ruptura de pequenas más formações arteriovenosas
podem ter um resultado substancialmente melhor.
Os fatores de risco para HIE incluem hipertensão, idade avançada,
malformações vasculares, angiopatia encefálica amiloide, agentes
anticoagulantes e fibrinolíticos, tumores encefálicos, agentes
simpatomiméticos e vasculite. A hipertensão é o principal fator de risco em
todas as idades, com representação maior naqueles com idades de 40 a 69
anos, enquanto a angiopatia amiloide encefálica é um fator de risco mais
comum em pacientes com mais de 70 anos de idade. Em pessoas mais
jovens, agentes simpatomiméticos, especialmente a cocaína e malformações
vasculares são fatores dominantes. Tumores encefálicos associados a HIE
são tipicamente variações malignas, tanto primárias (particularmente
glioblastoma multiforme) quanto metastáticas incluindo melanoma,
coriocarcinoma, carcinoma broncogênico, de células renais e da tireoide.
A HIE relacionada com a varfarina é um grupo importante,
particularmente em indivíduos idosos ou de meia-idade que são mais
propensos a tomar esta medicação devido à fibrilação atrial subjacente.
Aqui um fator de risco principal é o prolongamento excessivo da razão
normalizada internacional (RNI). Esta variedade de HIE está associada a
uma mortalidade particularmente alta devido a volumes de hematomas
geralmente grandes nas primeiras horas após o início dos sintomas. As
HIEs que ocorrem após o tratamento de AVE isquêmico agudo com
trombolíticos geralmente também são de grande porte e tendem a ocorrer em horas após a conclusão do tratamento trombolítico, e normalmente estão
localizadas na área do infarto encefálico manifestado.
Os locais da HIE e sua frequência aproximada são o putâmen (35%),
lobos (25%), tálamo (20%), cerebelo (10%), ponte (5%) e caudado (5%)
(Fig. 9-37). A localização predominante do HIE em locais profundos
subcorticais e no tronco encefálico reflete a distribuição anatômica das
alterações crônicas dentro da parede das pequenas artérias penetrantes
profundas, submetidas à hipertensão crônica. Em contraste, as HIEs lobares
mais superficialmente localizadas refletem a anatomopatologia clássica
relacionada com a angiopatia amiloide encefálica.
A apresentação clínica de uma HIE tem um número de características
gerais que são frequentes em todas as variedades topográficas e
particularmente refletem a sintomatologia clínica que resulta de uma rápida
expansão por lesão da massa intracraniana. Estas incluem dor de cabeça,
vômitos e níveis reduzidos de consciência. Embora estas não sejam
características constantes, sua presença é praticamente diagnóstica de uma
HIE, particularmente se um declínio gradual no nível de consciência ocorrer
em paralelo com um aumento gradual na gravidade da apresentação dos
déficits neurológicos focais. Os achados específicos no exame neurológico
estão relacionados com a localização particular da HIE dentro de encéfalo.
FIGURA 9-37
A tendência do hematoma em se expandir nas primeiras horas após o
início dos sintomas é uma característica muito importante da HIE. Ela é
comum em todos os locais de HIE. Mais de um terço dos pacientes terá um
aumento no tamanho da HIE nas primeiras 3 horas e todos que
eventualmente desenvolvam efeito de massa farão isso dentro de 6 horas a
partir do início dos sintomas. Esta expansão do hematoma é tipicamente
associada à deterioração da função neurológica. Os fatores de risco para
esta ocorrência ainda não estão claramente identificados, embora, a
hipertensão não controlada seja sugerida por alguns, o que reforça a
necessidade de enfatizar o valor potencial de manter o controle da pressão
arterial nas primeiras horas subsequentes ao início da HIE. Outro fator
associado a uma alta frequência de expansão precoce do hematoma é a
ocorrência de HIE em pacientes sob anticoagulação com varfarina, salientando assim a grande importância de normalizar rapidamente a NRI
elevada, com a combinação de vitamina K, plasma fresco congelado ou
complexo concentrado de protrombina, possivelmente recombinando o
fator VII ativado em casos quando a reversão da NRI é imediatamente
necessária antes de submeter o paciente à drenagem cirúrgica do hematoma
(que é muitas vezes indicado em casos de HIE cerebelar). O risco para a
expansão do hematoma está correlacionado com o achado do “sinal spot”
na angiografia por tomografia computadorizada (ATC) na apresentação com
HIE. Este achado na ATC consiste na presença de um ponto de contraste
dentro do hematoma, e reflete hemorragias ativas no momento da infusão
do contraste intravenoso (IV) durante a execução da ATC. A presença do
“sinal spot” mostra alta correlação com subsequente alargamento do
hematoma.
Hemorragia cerebelar
A hemorragia cerebelar representa cerca de 5% a 10% dos casos de HIE e
apesar da sua frequência relativamente baixa, é de grande importância
clínica, pois o diagnóstico precoce pode levar à uma intervenção cirúrgica
de emergência com salvamento da vida. A apresentação clínica é
geralmente com início abrupto de vertigem, vômitos, dor de cabeça e
incapacidade de ficar em pé e andar. Naqueles pacientes que estão alertas o
suficiente para serem submetidos a um exame neurológico completo, os
achados clássicos incluem ataxia cerebelar ipsilateral, paralisia do olhar
horizontal e paralisia facial periférica como uma tríade que é altamente
sugestiva de diagnóstico. Outros sinais de envolvimento do tegmento
pontino ipsilateral podem estar presentes incluindo perda sensitiva do
trigêmeo, síndrome de Horner, achados que ocorrem na ausência de
hemiplegia contralateral porque os efeitos de pressão do hematoma
cerebelar são exercidos sobre a porção dorsal da ponte, poupando a base da
ponte e os tratos corticoespinais.
FIGURA 9-38
O curso clínico na hemorragia cerebelar é notoriamente imprevisível
porque os pacientes que estão alertas e responsivos na apresentação podem subitamente deteriorar-se como resultado de uma compressão no tronco
encefálico, rapidamente conduzindo a coma, depressão respiratória e morte.
Esta súbita mudança pode ocorrer sem “aviso” e isso resultou em um
grande interesse em documentação clínica e de imagem na apresentação
que possam ser preditivos deste tipo de deterioração neurológica contra a
estabilidade clínica. Do ponto de vista clínico, a presença de sinais de
compressão do tegmento pontino na apresentação (paralisia do olhar
horizontal ipsilateral, paralisia facial) prevê forte consideração cirúrgica de
evacuação do hematoma, especialmente se associada a características de
imagem que foram encontradas correlacionadas com potencial para
deterioração neurológica, incluindo hematoma de diâmetro maior do que 3
cm, hidrocefalia supratentorial, obliteração da cisterna ipsilateral
quadrigeminal e deformação/compressão do quarto ventrículo. Estas
características de imagem têm sido correlacionadas com alta frequência de
repentina deterioração neurológica exigindo tratamento cirúrgico de
emergência, enquanto sua ausência tem sido compatível com um curso
clínico mais benigno sem necessidade de remoção cirúrgica do hematoma.
Por estas razões é imperioso que os pacientes com hemorragia cerebelar
sejam avaliados na apresentação com o fim específico de determinar se eles
devem ser sujeitos a intervenção cirúrgica no início do curso da sua doença,
antes da deterioração neurológica. Estas considerações são baseadas na
correlação entre o nível pré-operatório de consciência e o resultado
cirúrgico: pacientes que estão alertas ou obnubilados no pré-operatório têm
mortalidade cirúrgica de aproximadamente 15%, enquanto aqueles que
tenham atingido um estágio de letargia ou coma têm uma mortalidade
cirúrgica de pelo menos 75%. Uma vez que a decisão tenha sido tomada de
submeter o paciente à cirurgia, uma consideração inicial é se uma
ventriculotomia de emergência é requerida antes da realização de uma
craniectomia suboccipital mais definitiva para a evacuação do hematoma.
Este procedimento é indicado em pacientes com hidrocefalia massiva cujo
nível de consciência de repente deteriorou-se e é utilizado como um
procedimento contemporizado de emergência enquanto arranjos estejam
sendo feitos para a transferência do paciente para a sala de operação para a
craniectomia suboccipital mais definitiva. Também a favor deste tipo de
conduta na hemorragia cerebelar está o fato de que apesar de uma condição
neurológica inicialmente gravemente comprometida, o sucesso da remoção do hematoma cerebelar é geralmente seguido por resultados funcionais
adequados, porque a ataxia no membro ipsilateral grave inicial e a ataxia da
marcha tendem a melhorar gradualmente, às vezes não deixando
deficiências motoras em longo prazo.
A hemorragia no vermis cerebelar é uma variedade de hemorragia
cerebelar que difere do clássico tipo hemisférico unilateral descrito
anteriormente. Este tipo de hemorragia tende a ser mais grave em suas
manifestações iniciais e tem menos potencial para se beneficiar da cirurgia
devido à compressão geralmente bilateral e precoce do tegmento da ponte.
Isso muitas vezes resulta em grave comprometimento do nível de
consciência, com déficits oculomotores bilaterais na apresentação, às vezes
com coma e oftalmoplegia bilateral com miose. É uma apresentação
clinicamente difícil de separar da hemorragia pontina primária. Devido a
este comprometimento precoce e bilateral do tegmento pontino e da
localização da hemorragia na linha média do cerebelo, a opção cirúrgica de
evacuação do hematoma é geralmente menos bem- sucedida do que na
variedade hemisférica de hemorragia cerebelar. A maioria dos pacientes é
tratada apenas com ventriculostomia porque eles frequentemente têm
hidrocefalia supratentorial proeminente como resultado de compressão do
quarto ventrículo.
FIGURA 9-39