Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Transtorno da Personalidade Antissocial

FIGURA 4-19

 

Transtorno da Personalidade Antissocial O transtorno da personalidade antissocial (TPAS) é definido pelo Manual

Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR) como “um

padrão generalizado de desrespeito e violação dos direitos alheios” que se

manifesta na infância ou no começo da adolescência e continua na idade

adulta. Para atender aos critérios de diagnóstico de TPAS, é preciso que os

indivíduos tenham uma história de transtorno de conduta antes dos 15 anos

de idade, caracterizado por agressão a pessoas e animais, destruição de

propriedade, fraudes ou furtos, violação grave de normas ou regras sociais

importantes. Na idade adulta, essas pessoas podem continuar a ignorar as

regras sociais, serem manipuladoras e desonestas, impulsivas sem

considerar as consequências, irritáveis e agressivas, desconsiderando a

segurança pessoal e alheia, comportando-se de maneira irresponsável, não

sentindo remorso pelas consequências de seus próprios atos e se

envolvendo em atividade criminosa. O comportamento antissocial tem um

impacto negativo nos domínios acadêmico e profissional, no sucesso

material, na saúde física, nas relações sociais, no bem-estar psicológico, e

está ligado a desfechos negativos, como problemas legais, detenção e maior

mortalidade em virtude do comportamento imprudente. Apesar de nem

todas as pessoas com TPAS serem violentas, esse transtorno também está

mais fortemente associado à violência em relação a terceiros comparado a

outros transtornos psiquiátricos.

Estima-se que a prevalência de TPAS seja de 1% a 4% na população

adulta em geral (3% dos homens e 1% das mulheres) (APA, 2000). Uma

explicação potencial para a discrepância de gênero é que as mulheres

tendem mais a serem diagnosticadas com outros transtornos da

personalidade, como borderline. As taxas de TPAS são 10 vezes maiores

entre a população encarcerada comparada à população geral. Esse

transtorno está igualmente representado em todas as raças, etnias e culturas.

Transtornos psiquiátricos comórbidos são comuns entre indivíduos com

TPAS. Mais especificamente, o TPAS está fortemente associado ao

transtorno por uso de substâncias, a outros transtornos da personalidade e a

transtornos de ansiedade, em particular fobia social e TEPT. Os sintomas do

TPAS parecem declinar com a idade.

A etiologia exata do TPAS é desconhecida, embora vários possíveis

fatores biológicos e psicossociais estejam identificados. Estudos de adoção

sugerem um elo genético, com taxas maiores de TPAS presentes na prole de homens antissociais. A estabilidade do comportamento antissocial também

parece estar relacionada com influências genéticas, enquanto influências

ambientais não compartilhadas respondem por mudanças no

comportamento antissocial com o tempo. Teorias biológicas sugerem que o

comportamento impulsivo e por vezes violento visto no TPAS pode estar

associado a níveis baixos de serotonina, limiares baixos para estimulação

límbica ou dano cerebral secundário a alguma lesão, doença ou substância;

entretanto, ainda não foram estabelecidas relações causais. O TPAS também

está associado a déficits nas redes neurais que envolvem o córtex pré-

frontal dorsolateral. Indivíduos com TPAS demonstram dificuldades com a

função executiva, especificamente com problemas que demandem

capacidade de planejamento de alto nível.

Fatores psicossociais também estão associados ao TPAS. Adultos com

TPAS com frequência sofreram apego emocional e estímulo insuficientes

durante a infância. Transtornos comportamentais pediátricos, que podem se

manifestar em torno dos 7 anos de idade em meninos e geralmente não até

os 13 anos em meninas, também contribuem para o desenvolvimento de

TPAS na idade adulta.

O consenso geral em relação ao tratamento do TPAS é que se trata de um

transtorno de tratamento difícil. São poucos os dados da eficácia de

intervenções farmacológicas para TPAS e, no momento, não existem

diretrizes estabelecidas pela Associação Psiquiátrica Americana para o

tratamento do TPAS. Esses pacientes têm pouca percepção e mínima

motivação para mudar o comportamento. Quando chegam a se apresentar

para tratamento, geralmente é por motivos legais mandatórios ou devido à

presença de uma condição comórbida. A psicoterapia individual não é

recomendada para TPAS. Além da dificuldade de estabelecer uma aliança

terapêutica com pacientes com TPAS, a própria terapia proporciona ainda

uma outra oportunidade de fraude e manipulação. A modalidade de

tratamento mais promissora para TPAS são intervenções cognitivas e

comportamentais baseadas em grupos homogêneos concentradas na redução

do comportamento ofensor. Sugere-se que talvez uma meta mais produtiva

sejam programas de intervenção precoce e preventivos para reduzir a

probabilidade de que o transtorno de conduta na infância se torne TPAS na

idade adulta. Outros estudos sugerem que os comportamentos antissociais tendem a diminuir com a idade; talvez o tempo apenas seja o melhor

tratamento para esses pacientes.