Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Cefaleia em Trovoada e Outras Cefaleias Presentes no Pronto-socorro
Cefaleia em Trovoada e Outras Cefaleias
Presentes no Pronto-socorro
A maioria dos pacientes que procura atendimento no pronto-socorro
apresenta um distúrbio de cefaleia primária. Todavia, um médico no serviço
de emergência deve avaliar a possibilidade de causas subjacentes
secundárias para a dor. Novas cefaleias que começam durante esforço
vigoroso após trauma de cabeça/pescoço requerem consideração de uma
hemorragia intracraniana ou dissecção arterial cervicocefálica. Mais
preocupante são os pacientes que apresentam cefaleia explosiva, debilitante
ou “em trovoada”, geralmente referida como “a pior cefaleia da minha
vida” ou “sinto como se minha cabeça estivesse sendo martelada”. Devido
à urgência do diagnóstico, cada indivíduo que apresentar estes sintomas
deve ser investigado inicialmente para hemorragia subaracnóidea ou
intracraniana. Se os dois tipos de hemorragia forem descartados, outros
mecanismos patológicos para uma cefaleia aguda e intensa merecem
consideração (ver tabela).
Igualmente importante é um paciente que comparece com uma cefaleia
aguda e novos sintomas neurológicos associados, particularmente perda
motora ou sensitiva focal, disfunção de linguagem ou sintomatologia
encefalopática, como confusão ou convulsões. Outros detalhes da história
de pacientes com cefaleia aguda também causam preocupação importante,
justificando avaliação adicional e imediata. Estes incluem idade mais
avançada, imunocomprometimento, infecção ou febre recente, história de
câncer, distúrbios de coagulação ou hemorrágicos (particularmente
incluindo terapia anticoagulante), intensidade da cefaleia progressivamente
mais grave ou sintomas de doença sistêmica, ou seja, perda de peso, fadiga,
mialgia ou anemia inexplicável.
Qualquer paciente cuja apresentação clínica com cefaleia inclua febre,
alteração da consciência ou das funções mentais ou um aspecto tóxico geral
requer uma avaliação urgente para possível infecção subjacente. Rigidez da
nuca geralmente indica irritação das meninges, que pode ser observada na
hemorragia subaracnóidea ou meningite. Papiledema reflete um aumento da
pressão intracraniana e justifica investigação adicional de distúrbios que causem efeitos de massa, como tumor, infecção, hemorragia ou hipertensão
intracraniana idiopática.
Hemorragia subaracnóidea e
intraparenquematosa
Embora a apresentação clássica em trovoada que tipicamente prenuncia a
ruptura de um aneurisma intraencefálica com hemorragia subaracnóidea
(HSA) não seja facilmente ignorada, ocasionalmente pacientes com HSA
apresentam sintomas mais sutis. Qualquer cefaleia que seja incomum para o
paciente, especialmente se estiver associada à dor ou rigidez do pescoço,
deve levar o médico a questionar a possibilidade de HSA. Uma hemorragia
intraparenquimatosa tem maior probabilidade de causar progressão
relativamente rápida de sintomas neurológicos focais, assim como
convulsões e alteração da função mental, dependendo do tamanho e da
localização do hematoma. Se sangue entrar no líquido cefalorraquiano
(LCR), uma hemorragia intraparenquimatosa também pode causar irritação
das meninges e rigidez do pescoço. Uma história de anticoagulação,
especialmente em pacientes mais velhos que apresentem cefaleia, é
particularmente preocupante para hemorragia. Uma tomografia
computadorizada (TC) é diagnóstica. Informações sobre a avaliação e
tratamento da hemorragia intracraniana são detalhadas na Seção 9.
FIGURA 13-17
Síndrome da vasoconstrição encefálica
reversível
A síndrome da vasoconstrição encefálica reversível é caracterizada por
cefaleias em trovoada recorrentes. A dor atinge um pico em minutos,
durando minutos a horas, algumas vezes mais que 1 dia e tende a recorrer
durante alguns dias a duas semanas. Os pacientes podem apresentar déficits
neurológicos focais associados e um terço dos pacientes apresenta
convulsões. Os fatores de risco incluem hipertensão, pré-
eclâmpsia/eclâmpsia (ou seja, angiopatia pós-parto), medicamentos
simpatomiméticos ou agentes seratoninérgicos (vasculopatia encefálica
induzida por medicamentos), tumores secretores de catecolamina (ou seja,
feocromocitoma) e ingestão de álcool compulsiva.
O líquido cefalorraquiano é normal ou quase normal (elevações leves de
proteína ou leucócitos). RM e TC podem ser normais, podem exibir
aspectos semelhantes à síndrome de encefalopatia posterior reversível
(SEPR) ou podem revelar evidências de hemorragia intracraniana,
especialmente hemorragia subaracnóidea cortical. O padrão-ouro para o
diagnóstico é a angiografia convencional, demonstrando vasoconstrição
multifocal segmentar, subsequentemente reversível 12 semanas após o
início. Contudo, a angiografia por ressonância magnética (ARM) e a
angiografia por tomografia computadorizada (ATC) são menos invasivas e
podem fornecer evidências diagnósticas para suporte. Embora não haja um
estudo baseado em evidências que confirme uma terapia específica,
nimodipina é o tratamento recomendado com mais frequência para
vasoespasmo.
Crise hipertensiva aguda/síndrome de
encefalopatia reversível posterior (SEPR)
Pacientes com crise hipertensiva podem apresentar cefaleias posteriores
agudas ou subagudas, às vezes acompanhadas por dispneia, dor torácica,
atordoamento, déficits neurológicos focais e epistaxe. A pressão arterial
muito elevada (geralmente acima de 180/120 mmHg) pode estar associada a
encefalopatia hipertensiva ou hipertensão maligna com hemorragias/exsudatos na retina, papiledema, hemorragia intracraniana ou
lesão de outros órgãos, incluindo edema pulmonar ou nefroesclerose
maligna. A causa da hipertensão deve ser identificada. A introdução
imediata de terapias anti-hipertensivas de rápida ação consistiu no
tratamento primário; o controle geral dos sintomas também é necessário
para dispneia, dor torácica etc.
FIGURA 13-18
A leucoencefalopatia posterior reversível, também chamada síndrome da
encefalopatia posterior reversível (SEPR), é uma síndrome envolvendo edema vasogênico que afeta preferencialmente a substância branca do
encéfalo posterior, incluindo os lobos occipitais e o cerebelo. Na RM, o
edema vasogênico aparece como um aumento relativamente simétrico do
sinal em T2, não se conformando a uma distribuição vascular específica. Os
pacientes apresentam cefaleia que pode ser acompanhada por convulsões,
alterações visuais e alteração da função mental. Esta síndrome pode estar
associada à encefalopatia hipertensiva, pré-eclâmpsia/eclâmpsia e alguns
medicamentos citotóxicos e imunossupressores.
Trombose venosa encefálica
A trombose venosa encefálica (TVE) na maioria das vezes tem uma
apresentação subaguda; contudo, uma minoria dos pacientes apresenta
cefaleia em trovoada. As cefaleias são persistentes e tendem a piorar pela
manhã, na posição de decúbito e com manobras de Valsalva, como tosse ou
esforço. As cefaleias podem ser acompanhadas por outros sinais de
aumento da pressão intracraniana, como papiledema, convulsões e alteração
da função mental. Se ocorrer um infarto venoso, déficits neurológicos
focais podem estar presentes. Se a trombose venosa estiver no seio sagital
superior, uma TC contrastada pode mostrar um defeito de enchimento ao
redor do trombo, chamado de sinal de “delta vazio”. Contudo, TC e RM
podem não apresentar achados dignos de nota, exigindo venografia por RM
para diagnóstico. Quando o diagnóstico é estabelecido, as condições
causadoras ou predisponentes devem ser identificadas, incluindo estados
trombofílicos ou malignidade oculta. Os pacientes em geral são tratados
com anticoagulação.
Apoplexia hipofisária
Apoplexia hipofisária aguda é uma síndrome rara decorrente de hemorragia
ou infarto da hipófise no contexto de um macroadenoma hipofisário. Os
pacientes podem apresentar uma cefaleia súbita e intensa, oftalmoplegia,
perturbação visual, náuseas/vômitos, alteração do estado mental,
meningismo e às vezes febre. No pronto-socorro, isso pode mimetizar uma
enxaqueca grave ou meningite asséptica e em casos graves pode causar
crise adrenal, coma ou morte. Embora a patologia hipofisária geralmente seja observada em uma TC não contrastada da cabeça, a RM é mais
sensível.
Cisto coloide
Um cisto coloide é um cisto benigno que surge na região anterior do
terceiro ventrículo, em posição imediatamente posterior ao forame
interventricular (de Monro). Devido a sua localização, pode agir como uma
válvula que obstrui temporariamente o fluxo ventricular causando
hidrocefalia obstrutiva. Os pacientes podem apresentar sintomas
intermitentes de aumento da pressão intracraniana, incluindo cefaleias
súbitas e intensas com náuseas/vômitos; geralmente estas melhoram na
posição de decúbito. Se a hidrocefalia obstrutiva for prolongada, pode
ocorrer deterioração com alteração do estado mental, convulsões, coma e
morte. O diagnóstico é feito por TC ou RM e a intervenção cirúrgica
precoce é necessária para cistos coloides sintomáticos.
FIGURA 13-19
Cefaleia pós-traumática A maioria das cefaleias após um trauma é do tipo tensional benigno.
Contudo, uma história de trauma deve alertar o médico para a possibilidade
de hemorragia, especialmente no contexto de anticoagulação. Isso inclui as
hemorragias subaracnóideas e intraparenquimatosas mencionadas
anteriormente, assim como hematoma subdural ou epidural (Seção 14).
Hematomas subdurais podem se manifestar de modo insidioso com
cefaleia, diminuição do nível de consciência, dificuldade de equilíbrio ou
marcha, prejuízo cognitivo ou perda da memória ou déficits neurológicos
focais.
A dissecção da artéria carótida ou vertebral também pode ocorrer após
um trauma. Geralmente se manifesta como cefaleia unilateral, com ou sem
dor no pescoço e pode estar associada a sinais neurológicos focais, como
síndrome de Horner (ptose e miose unilaterais).
A lesão local de estruturas do pescoço, incluindo vértebras ou discos
cervicais, pode produzir uma cefaleia referida com dor no pescoço
associada. O trauma cefálico pode ser acompanhado pelo desenvolvimento
de uma síndrome pós-concussão e as cefaleias podem ser acompanhadas
por tontura, fadiga, irritabilidade, ansiedade, insônia e diminuição da
concentração.
Infecção intracraniana
Deve-se suspeitar de meningite ou meningoencefalite em qualquer paciente
com nova cefaleia acompanhada por rigidez do pescoço ou febre,
náuseas/vômitos e fotofobia, mimetizando uma enxaqueca grave. Além da
punção lombar, hemoculturas são coletadas e antibióticos são introduzidos
empiricamente quando houver suspeita de meningite bacteriana. Pacientes
com achados neurológicos focais, papiledema ou alteração do estado mental
devem realizar uma TC ou RM antes da punção lombar, para excluir um
abscesso encefálico com efeito de massa associado. Em um paciente com
uma cefaleia nova associada à alteração do estado mental ou convulsões, a
introdução rápida de aciclovir é recomendada para cobertura do vírus
herpes simples (HSV) enquanto os resultados dos testes diagnósticos
estiverem pendentes. Os detalhes sobre o diagnóstico e avaliação de
infecções intracranianas são descritos na Seção 11.
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