Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtornos Cerebelares — Diagnóstico Diferencial
Transtornos Cerebelares — Diagnóstico
Diferencial
O diagnóstico da causa de um transtorno cerebelar pode ser simples ou
requerer um trabalho de detetive e testes especiais. A abordagem é guiada
pelos princípios que se seguem: (1) reconhecer os sinais e sintomas da
doença cerebelar; (2) determinar se também há o acometimento de nervos
periféricos, da medula espinal, do tronco encefálico ou dos hemisférios
encefálicos; (3) caracterizar o momento de início e a progressão, ou seja, o
perfil temporal; (4) pesquisar fatores de risco, ou seja, toxinas e fármacos,
infecções recentes e características sistêmicas de neoplasias; (5)
documentar a história familiar e o país de origem, uma característica de
importância crítica ao se considerar os transtornos hereditários; (6) é
essencial a aquisição de imagens por ressonância magnética; e (7) dados
laboratoriais podem fechar o diagnóstico.
Agudos — minutos a horas
Acidentes vasculares isquêmicos e hemorragias se iniciam abruptamente.
Ambos se agravam clinicamente em questão de horas caso se evidencie um
edema cerebelar. Observe o “mantra da fossa posterior” das lesões agudas
do cerebelo e do tronco encefálico — cefaleia, náuseas, vômitos e
vertigens, com ou sem ataxia, disartria, diplopia e nistagmo. O exame
neurológico se lateraliza para o lado da lesão.
A cerebelite aguda ocorre mais comumente em crianças que em adultos,
iniciando-se mais abruptamente que a cerebelite pós-infecciosa; ambas
produzem uma síndrome pancerebelar.
A deficiência de tiamina produz a encefalopatia de Wernicke, uma tríade
de ataxia, confusão mental e transtornos oculomotores que é uma
emergência médica, tornando necessária a reposição imediata da vitamina
B . 1
Subagudos — dias a semanas O ataque paraneoplásico imunologicamente mediado às células de
Purkinje a partir de tumores remotos (pulmão, mama, ovário) pode se
evidenciar agudamente em alguns dias, produzindo uma síndrome
pancerebelar.
Os tumores cerebelares (benignos ou malignos) se agravam em semanas
a meses, mas ocasionalmente se manifestam agudamente por uma
hidrocefalia obstrutiva.
Outras lesões focais incluem abscessos, esclerose múltipla,
leucoencefalopatia multifocal progressiva (LMP) e rombencefalite. A
atrofia cerebelar alcoólica (verme anterior superior) pode se manifestar de
forma subaguda, assim como a leucoencefalopatia cerebelar por solventes
inalados e por heroína e a doença de Creutzfeldt-Jakob, por ataxia,
demência e mioclonias.
Progressão crônica insidiosa — meses a
anos
Os transtornos neurodegenerativos se iniciam insidiosamente, evoluindo
por anos ou décadas. Os transtornos atáxicos autossômicos dominantes
(ADs) passam de geração para geração. As ataxias espinocerebelares
(AECs) se manifestam tipicamente durante a idade adulta. A AEC 1 e a
AEC 3 têm lesões extrapiramidais, corticoespinais e de nervos periféricos.
A AEC 2 apresenta movimentos oculares lentificados e características
extrapiramidais em pacientes mais jovens. A AEC 3 é prevalente em
comunidades portuguesas dos Açores; os pacientes mais jovens apresentam
distonia. A AEC 5 e a 6 são puramente cerebelares. A AEC 7 apresenta
insuficiência visual por distrofia macular de bastonetes-cones. A AEC 8
inclui uma coreia leve. A AEC 10 ocorre em associação à epilepsia em
famílias descendentes de índios norte-americanos. A AEC 17 se assemelha
à doença de Huntington, com insuficiência cognitiva e coreoatetose. A
atrofia denteadopalidoluisiana causa mioclonias, distonia e declínio
cognitivo; ela é rara fora do Japão. Há atualmente mais de 35 AEC (site na
Internet dos NIH – Gene Testes, www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/GeneTests).
As ataxias episódicas (AEs) são AD. A AE1, uma canalopatia de
potássio, se inicia na infância, produzindo episódios atáxicos de duração breve e mioquimia. A AE2 é uma canalopatia de cálcio; os ataques duram
vários dias, por vezes acompanhados de enxaqueca. O gene que causa a
AE2 foi associado à enxaqueca hemiplégica familiar e à AEC6. Ambas as
AEs melhoram com acetazolamida.
Os transtornos autossômicos recessivos (AR) se manifestam em uma
geração, habitualmente na infância. Os pais se mostram assintomáticos; a
história familiar fora dos irmãos não revela nada digno de nota. A ataxia de
Friedreich é o mais comum transtorno cerebelar AR, com ataxia, neuropatia
periférica, miocardiopatia, escoliose e diabetes. Alterações auditivas e
visuais ocorrem tardiamente. Ocasionalmente ela se inicia na idade adulta,
assemelhando-se às AECs. A ataxia telangiectasia se manifesta
frequentemente antes que ocorram as telangiectasias; as características
incluem infecções recorrentes por deficiência de imunoglobulina A e
sensibilidade à radiação, com risco de neoplasia. Os tipos 1 e 2 de ataxia
com apraxia oculomotora incluem neuropatia periférica, movimentos
coreiformes e dificuldades cognitivas. Os indivíduos franco-canadenses
apresentam ataxia cerebelar AR (ACAR) do tipo 1 evoluindo durante
décadas e ataxia espástica de Charlevoix-Saguenay AR com início na
infância. A ACAR-1 (ataxia com deficiência da coenzima Q10) e a ataxia
com deficiência de vitamina E são tratáveis.
As paraplegias espásticas hereditárias são AD ou AR. A mielopatia
pode se acompanhar de ataxia e dismetria.
As encefalomiopatias causam ataxia e constelações clínicas complexas.
Muitas delas são AR ou seguem uma herança mitocondrial materna. As
síndromes atáxicas mitocondriais recessivas (MIRAS), causadas por
mutações da polimerase γ, causam ataxia, neuropatia e perda auditiva,
especialmente em famílias escandinavas. A síndrome de tremor e ataxia
associada ao X frágil é um transtorno de poliglutamina ligado ao sexo
causando ataxia, tremor, insuficiência cognitiva e disfunção erétil.
As ataxias esporádicas incluem a atrofia de múltiplos sistemas, uma
sinucleinopatia evidenciando ataxia cerebelar ou parkinsonismo, disfunção
autonômica (hipotensão postural, disfunção erétil, incontinência urinária) e
transtorno de comportamento do sono de movimentos rápidos dos olhos
(REM). A ataxia cerebelar de início tardio idiopática (ACITI) define
adultos com idade acima de 50 anos apresentando uma degeneração
cerebelar isolada.
Um nistagmo de batidas descendentes isolado indica lesões na junção
cervicobulbar ou nos lóbulos IX/X. Em raras ocasiões isso anuncia um
transtorno neurodegenerativo. O tremor palatino ocorre na AEC 20.
Muitos transtornos do período neonatal e da infância apresentam
malformações ou alterações cerebelares — agenesia, megacerebelo,
malformação de Chiari e malformação de Dandy-Walker.
FIGURA 8-17