Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Somatização
FIGURA 4-10
Somatização
Somatização é um dos seis transtornos somatoformes maiores identificados
pelo Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana. Outros transtornos somatoformes incluem transtorno
somatoforme indiferenciado, transtorno conversivo, hipocondria, transtorno
doloroso associado a fatores psicológicos, transtorno doloroso associado a
fatores psicológicos e a uma condição médica geral. Essencialmente,
somatização é uma constelação de sintomas físicos sem explicação médica.
O DSM-IV-TR atribui oito exigências de sintomas para o diagnóstico,
incluindo quatro sintomas dolorosos corporais, dois sintomas
gastrointestinais (GI), um sintoma neurológico e um sintoma sexual,
resultando em prejuízo funcional. Entretanto, esses sintomas parecem
existir dentro um espectro, e a categorização diagnóstica atual talvez não
reflita corretamente a apresentação clínica. Portanto, o estado e a
caracterização dos transtornos somatoformes estão sendo reexaminados
para a publicação em breve do DSM-V, a fim de reclassificá-los sob o título
geral de síndrome de sofrimento corporal de maneira a abranger tanto
transtornos funcionais psiquiátricos quanto não psiquiátricos.
Pacientes atualmente classificados como portadores de transtorno
somatoforme apresentam múltiplos sintomas físicos que produzem desde
incapacidade leve e autolimitada até incapacidade grave. Além disso, eles
expressam preocupações excessivas com a saúde que são demonstradas
emocionalmente (depressão, ansiedade), cognitivamente (ruminação de
sintomas, desatenção) e comportamentalmente (busca por tratamentos,
“pular de médico em médico”). Como resultado, essas pessoas sofrem
prejuízos no funcionamento, e seus comportamentos de busca por ajuda os
tornam grandes consumidores do sistema de saúde, com mais frequência
clínicas de atendimento primário e especialidades médicas. Essas pessoas
com frequência são diagnosticadas equivocadamente como portadoras de
fibromialgia, síndrome de fadiga crônica, dor torácica não cardíaca e
síndrome do intestino irritável.
Dados epidemiológicos sugerem estimativas de prevalência do transtorno
somatoforme de 2% a 6% na população geral e de 5% a 20% em pacientes
de atendimento primário. As taxas são maiores no contexto do atendimento
primário porque esses pacientes estão buscando ativamente assistência
médica comparados à população geral. A maioria dos pacientes com
transtornos somatoformes é composta de mulheres. A despeito das altas
taxas de prevalência, os diagnósticos somatoformes são raramente
atribuídos aos pacientes pelos médicos. Estudos mostram taxas de diagnóstico inferiores e 0,01%. Talvez a relutância dos médicos em
“rotular” os pacientes, a falta de generalização dos diagnósticos às
apresentações clínicas e a falta de familiaridade dos médicos com os
critérios complexos do diagnóstico resultem no subuso dos diagnósticos
somatoformes. Deficiências no tratamento, falta de tranquilização e apoio
dos pacientes pelos profissionais de saúde e evitação do diagnóstico
apropriado levam a testagens excessivas, alta utilização de serviços de
saúde e encaminhamentos a especialistas, todos acarretando custos de saúde
elevados e má qualidade de vida.
A fisiopatologia da somatização e dos transtornos somatoformes não está
bem entendida atualmente. As apresentações clínicas observadas podem se
dever ao funcionamento aberrante em vias neurais por intermédio do
sistema nervoso autônomo e do eixo hipotalâmico-hipofisário-suprerrenal,
além de alterações no processamento central de dados sensitivos. Outros
dados sugerem que citocinas pró-inflamatórias, como a interleucina 6 (IL-6)
e fator alfa de necrose tumoral (TNF-alfa), podem levar a uma constelação
de comportamentos, incluindo sensibilidade exacerbada à dor
(hiperalgesia), perturbações do sono e fadiga referida como
“comportamento doente”. Essa constelação é observada em pacientes com
depressão e/ou transtornos somatoformes. A ativação de citoquinas pró-
inflamatórias por fatores de estresse internos e externos pode levar à
sensibilização do sistema nervoso central (SNC) e nervos periféricos
aferentes e causar percepções corporais alteradas.
Alguns pacientes com dor na coluna têm fatores psicológicos primários
ou exacerbadores que precisam ser considerados quando o exame sugere
achados clinicamente incongruentes não anatômicos e inadequados. Alguns
indivíduos são polissintomáticos, com múltiplas questões ocupacionais e
domésticas gravadas em uma história complexa de outros transtornos
definidos como não orgânicos. O exame demonstra hiperreatividade,
dificuldade inconsistente e inexplicável de levantar a perna, perda sensitiva
não dermatômica, esforço mal sustendado na testagem muscular, com
inconsistências entre os achados na testagem muscular e atividade
espontânea “não observada” (i.e., capacidade de sair da mesa de exame a
despeito de uma “fraqueza grave nos membros”). O erro mais comum na
avaliação desses pacientes é a atenção inadequada ao diagnóstico diferencial. O fingir estar doente para obter ganho material em geral é
razoavelmente aparente e deve ser simples e diretamente questionado.
A despeito da magnitude grave que os efeitos da somatização e dos
transtornos somatoformes têm nos pacientes, nas famílias e no sistema de
saúde, esses transtornos são gravemente subestudados. Atualmente, existem
tratamentos baseados em evidências e cuidados especializados muito
limitados para pacientes com somatização e transtornos somatoformes.
Abordagens meramente clínicas à avaliação e ao tratamento “descartando”
transtornos médicos gerais levam a testes seriados negativos, intervenções
ineficazes e frustração mútua para médico e paciente. O interessante é que a
maioria dos tratamentos voltados para sintomas específicos parece não
essencial, embora probióticos para tratar síndrome do intestino irritável e
outras queixas somáticas especificamente gastrointestinais às vezes sejam
benéficos. O tratamento mais benéfico utiliza uma combinação de
farmacologia voltada para o sistema nervoso central, como antidepressivos,
exercício e terapia cognitivo-comportamental. Além disso, médicos que
suspeitem do diagnóstico de transtorno somatoforme devem marcar
consultas frequentes e breves para tratar as dúvidas do paciente e
tranquilizá-los.