Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Mioclonias
FIGURA 7-16
Mioclonias As mioclonias são abalos musculares breves, semelhantes a um choque,
podendo ser classificadas de acordo com a origem (mioclonia cortical,
subcortical, do tronco encefálico e espinal) e a distribuição (focal,
segmentar, multifocal ou generalizada). As mioclonias corticais podem ser
epilépticas (como na mioclonia do Báltico ou na epilepsia mioclônica
progressiva, mioclonia fotossensível, epilepsia parcial contínua) ou fazer
parte de um transtorno neurodegenerativo (degeneração corticobasal,
demência de Alzheimer, doença de corpos de Lewy difusa e outras). As
mioclonias podem ser classificadas de acordo com a etiologia como
idiopáticas/genéticas (mioclonia familiar, mioclonia-distonia), fisiológica
(abalos hípnicos ou mioclonias diafragmáticas/soluços) ou
secundária/sintomática quando for identificada claramente uma causa para a
mioclonia. Os exemplos desse último grupo podem incluir encefalite,
hipóxia, toxinas, doenças de armazenamento e degenerações dos núcleos da
base, como na doença de Huntington, na doença de Wilson e em alguns
outros transtornos. As mioclonias podem ser positivas, devido a uma
contração muscular breve, ou negativas, quando há a perda do tônus
muscular por um breve período, como no asterixis.
A lesão encefálica anóxica pode ocasionar mioclonias, que, por sua vez,
pode ter origem cortical, diencefálica ou reticular; ser sensível a estímulos
ou induzida pela ação; e ter distribuição segmentar, generalizada ou
multifocal. Esse tipo de mioclonia pode ser focal, afetando
preferencialmente os músculos distais dos membros, ou multifocal, com
abalos espontâneos, reflexos ou sensíveis a estímulos acentuados pelo
movimento. As mioclonias induzidas pela anóxia são acompanhadas
frequentemente de convulsões secundárias, especialmente após uma parada
cardiopulmonar. O status epilepticus é encontrado em 32% dos pacientes
pós-anóxia e em muitos deles são frequentemente observadas mioclonias
multifocais, isoladamente ou em combinação com crises tônico-clônicas
generalizadas. A incidência das convulsões mioclônicas é bimodal, com a
maioria delas ocorrendo em 12 horas após a reanimação cardiopulmonar e
as demais ocorrendo alguns dias depois. A eletroencefalografia (EEG) é útil
na avaliação desses pacientes, especialmente em casos de suspeita de status
epilepticus. Os achados EEG mais frequentes incluem uma lentificação
difusa, com ou sem pontas ou complexos poliponta, que por vezes se
mostram temporalmente sincronizados aos abalos mioclônicos. Quando registrado, um EEG de padrão surto-supressão de descargas tem
significância prognóstica desfavorável. A aquisição de imagens por
ressonância magnética do encéfalo pode demonstrar a restrição da difusão
na substância cinzenta cortical e subcortical entre 24 horas e 13 dias.
Mioclonias isoladas geralmente não requerem tratamento, a não ser que
interfiram na ventilação mecânica ou nos cuidados de enfermagem. O status
mioclônico é refratário ao tratamento, pode tornar necessário o uso de
múltiplos medicamentos antiepilépticos e é controlado de maneira melhor
pela anestesia profunda quando acompanhado de um status epílepticus
convulsivo.
Do ponto de vista eletrofisiológico as mioclonias se caracterizam por
descargas musculares que têm duração inferior a 75 ms. Quando o córtex
encefálico é afetado, pode ser obtida uma resposta cortical somatossensitiva
evocada “gigante”, sincronizada temporalmente com o início do abalo no
EEG retrógrado de médias.
Mioclonias pós-anóxia
Em 1963, James Lance e Raymond D. Adams relataram a primeira série de
pacientes apresentando a síndrome de mioclonias de intenção ou de ação
como sequela da encefalopatia hipóxica. Na mioclonia pós-anóxia são
particularmente afetados grupos musculares axiais e proximais, com as
mioclonias ocorrendo muitas vezes à realização de uma ação por parte dos
pacientes, como ficar de pé ou estender a mão para um objeto (mioclonia de
ação). Ataxia dos membros e do tronco, tremor de eferência cerebelar e
disartria são outros sintomas comumente associados. O substrato exato da
geração da mioclonia pós-anóxia não foi esclarecido. Ela pode ser
decorrente de uma lesão cortical ou subcortical ou se dever a alterações nas
vias serotoninérgicas do tronco encefálico. Foram frequentemente
apontados como responsáveis os núcleos serotoninérgicos da rafe.
Algumas formas de mioclonias, especialmente aquelas de origem
subcortical, são consideradas como se originando do sistema reticular,
basicamente do núcleo reticular gigantocelular. Essa mioclonia reflexa
reticular se caracteriza por uma descarga eletromiográfica breve, com
duração de 10 a 30 ms, com ativação sincrônica bilateral generalizada dos músculos, seguindo uma distribuição que sugere a disseminação ascendente
pelo tronco encefálico e descendente até a medula espinal.
A mioclonia essencial pode ser idiopática ou familiar, iniciando-se na
primeira até a segunda década de vida. Em pacientes portadores de
mioclonia essencial o exame neurológico não demonstra outros déficits. Em
algumas famílias foram relatados escores verbais mais baixos e casos
ocasionais de deficiência mental. De modo semelhante ao tremor essencial,
o álcool pode melhorar os sintomas, mas a incidência de alcoolismo se
mostra aumentada. Em pacientes com mioclonia-distonia há um padrão
autossômico de herança, os homens são mais afetados que as mulheres e há
uma incidência maior de alcoolismo e de distúrbios de comportamento.