Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Insônia
FIGURA 4-24
Insônia
A maioria das pessoas sofre de insônia ocasional em algum momento da
vida. Entretanto, um diagnóstico de transtorno de insônia, presente em 10% a 15% dos adultos, requer um sintoma, ou seja, dificuldade de conciliar o
sono, manter o sono ou ter um sono não reparador; uma frequência e
duração presentes na maioria das noites durante um período de pelo menos
quatro semanas; e uma consequência, sofrimento associado, ou disfunção
ocupacional e social. A insônia é um transtorno mais comumente
comórbido (75%), que ocorre no contexto de um transtorno clínico,
psiquiátrico ou do sono que iniciou ou manteve a perturbação do sono, ou
insônia primária, sem transtornos comórbidos.
O transtorno de insônia é mais comum com a idade avançada, gênero
feminino, má saúde física e maior estresse social e familiar. Com frequência
trata-se de uma condição crônica, com 50% dos pacientes com transtorno
de insônia continuando a atender aos critérios depois de três anos,
particularmente com sintomas mais graves. Entretanto, sintomas específicos
de insônia (insônia inicial, despertares noturnos) são com frequência
dinâmicos, se alternando no curso do transtorno. Na insônia comórbida, o
transtorno do sono é um marcador de maior gravidade da afecção clínica,
neurológica e psiquiátrica. O transtorno de insônia é um fator de risco
independente para episódios depressivos maiores relacionados. Não está
estabelecido se o tratamento da insônia comórbida melhora os resultados
nesses transtornos. Os que sofrem de insônia correm um risco maior de
sofrer de hipertensão e diabetes.
Explicação do hiperdespertar ajuda a entender muito da fisiologia do
transtorno de insônia, embora não esteja claro se o hiperdespertar é uma
causa ou uma consequência (ou ambas) de insônia. Elevações noturnas do
cortisol, aumento da temperatura corporal e da taxa metabólica basal,
padrões de vigília no EEG, metabolismo elevado da glicose (usando
tomografia computadorizada por emissão de positrons [PET]) durante o
sono não REM e reduções no GABA encefálico durante a vigília apontam
para hiperdespertar do sistema nervoso e do autônomo no transtorno de
insônia. O transtorno de insônia pode não ser essencialmente um transtorno
noturno, mas sim algo que na verdade dura 24 horas por dia, com insônia
como sua expressão primária.
A neurobiologia da insônia não está totalmente definida, embora avanços
na biologia do sono orientem para substratos potenciais do SNC. O encéfalo
contém múltiplos sistemas promotores do sono e outros promotores da
vigília. Neurônios colinérgicos dos núcleos tegmentais pedunculopontinos e laterodorsais (PPT e LDT, respectivamente) inervam descargas talâmicas e
corticais mais ativamente durante a vigília. Da mesma maneira, células
noradrenérgicas, serotoninérgicas e histaminérgicas no locus ceruleus, no
núcleo da rafe e no núcleo tuberomamilar se projetam ao hipotálamo lateral,
ao tálamo e ao córtex frontal, respectivamente, e disparam mais ativamente
durante o estado de vigília. Células contendo orexina no hipotálamo lateral
se projetam amplamente para o córtex encefálico e disparam ativamente
durante a vigília para apoiar a excitação. O córtex encefálico recebe
aferentes dos centros de excitação monoaminérgicos do tronco encefálico,
também propiciando estímulo extensivo para esses centros. O córtex em si,
propicia assistência aos centros de excitação com inervações recíprocas.
Neurônios GABAérgicos no núcleo pré-óptico ventrolateral (VLPO)
promovem o sono ao inibir centros de excitação. Assim, nosso atual
entendimento simplificado da fisiologia do sono nos informa que sistemas
neurais redundantes e interativos controlam o sono. Não é surpreendente
que, a despeito do impulso poderoso do sono, existam muitos substratos
neuroanatômicos para a patologia se desenvolver. Desse modo, a insônia
pode estar relacionada com uma atividade inibidora inadequada dos
neurônios promotores do sono de VLPO ou com a ativação excessiva dos
centros de excitação pelo tronco encefálico, ou até mesmo ativação
simultânea de influências tanto excitatórias quanto inibidoras, levando a
padrões de sono instáveis.
Os múltiplos sistemas neurais que controlam o sono proporcionam
diversos alvos para intervenções comportamentais e farmacológicas no
tratamento da insônia. A terapia cognitivo-comportamental para insônia
(CBT-I) inclui educação a respeito de hábitos de sono produtivos (higiene
do sono), redução do tempo em vigília na cama (controle de estímulo),
restrição do sono para produzir privação de sono e aumentar o impulso do
sono, instrução em técnicas de relaxamento como meditação e relaxamento
muscular progressivo e substituição de crenças catastróficas prevalentes a
respeito da insônia por atitudes realistas a respeito das consequências da
insônia. A CBT-I é efetiva em melhorar a satisfação do sono e em reduzir o
tempo de vigília antes do sono e durante a noite.
As medicações comercializadas conhecidas como indutores do sono
existem há mais de 100 anos, embora o álcool e opioides tenham sido
usados para tal finalidade por muito mais tempo. As medicações comumente prescritas se ligam a receptores benzodiazepínicos, um local
alostérico no receptor de GABA-A, melhorando a transmissão GABAérgica
(inibidoras). Existem muitos agonistas de receptores benzodiazepínicos, e
eles diferem entre si predominantemente apenas em suas meias-vidas. Essas
medicações são também anticonvulsivantes, ansiolíticas e miorrelaxantes e
podem produzir tolerância, dependência física e sintomas de abstinência na
descontinuação rápida. Portanto, seu uso é controlado. Outras medicações
comuns usadas para promover o sono agem como receptores
monoaminérgicos envolvidos na excitação do SNC. Por exemplo, fármacos
com propriedades anti-histamínicas estão disponíveis para tratar reações
alérgicas, como antidepressivos e antipsicóticos. Outros fármacos se ligam
ao receptor de melatonina no SNC, promovendo o sono por meio de
mecanismos incertos.